Uma ou duas coisas que Carvalho da Silva devia saber

A fatal indefinição do estatuto epistemológico das ciências sociais permitiu e incentivou a transformação da Universidade num local de catequização ideológica.

No mesmo jornal, C.S. explicou pacientemente a J.M.T. que este conceito foi oficializado pelo INE como significando “indivíduo com idade mínima de 15 anos que [...] não tem trabalho remunerado nem qualquer outro, pretende trabalhar, está ou não disponível para trabalhar num trabalho remunerado ou não, mas que não fez diligências [...] para encontrar trabalho”. C.S. esclarece (mal): “Para todos os efeitos, menos o estatístico, um 'inactivo desencorajado' é alguém que quer trabalhar e não tem trabalho, é um desempregado”. A contradição é descarnada: segundo a definição do INE, um tal sujeito pode, “ou não”, estar disponível para trabalhar, e pode, inclusive, “não fazer diligências para encontrar trabalho”. Nada, portanto, impede este pseudodesempregado de passar as tardes a tomar chá com a Kiki Espírito Santo.  

Porém, C.S. insiste: “Entre 2011 e 2014, o número de pessoas desencorajadas, indisponíveis ou que gostavam de trabalhar mais horas aumentou substancialmente”. Mas se um “desencorajado” pode a) não fazer diligências para se empregar; b) estar indisponível para trabalhar, com que fundamento deveriam estes indivíduos ser contabilizados nas estatísticas do desemprego propriamente dito? Como se saberá o que motiva a “indisponibilidade” e a recusa de “diligências” para se empregarem? Será depressão, astenia, desgosto de amor, puro desinteresse, desnecessidade ou simples preguiça? Para C.S., a omissão de números a respeito destes casos, que ainda incluem a categoria não menos opaca dos “desempregados ocupados”, configura perversas “distorções estatísticas” premeditadas para branquear uma parte substancialíssima do desemprego de modo a beneficiar o Governo... Infelizmente, as “pessoas menos conhecedoras” desta transcendente matéria, como eu ou J.M.T., ignoram estas subtilezas. De facto, para mim, relapsa e contumaz, o que não vem nas estatísticas não é o “desemprego oculto” com que o INE pretenderia minorar a crise. É, isso sim, o “falso desemprego”, ou o desemprego impossível de comprovar como tal, que C.S., no afã de agigantar a crise, insiste em tratar como efectivo desemprego tout court.  

C.S. acusa J.M.T., como mero jornalista desprovido da solene autoridade conferida por um doutoramento, de ter tido a “pretensão ignorante de julgar o que é, e não é, ciência.” Para C.S., esta distinção é trigo limpo. O que não deixa de ser espantoso, porque há já algumas décadas que a comunidade científica e académica vive envolvida numa discussão encarniçada, e inconclusiva, acerca, precisamente, de determinar o que é científico ou deixa de ser. Isto não levanta dúvidas de maior para as chamadas “ciências duras ou exactas”, cujo método experimental sustenta explicações nomológicas que permitem a previsibilidade. Nada disto acontece com as ciências sociais (e menos ainda com as humanas), cuja “cientificidade” é por inerência e definição sempre disputável (Isaiah Berlin, Against the Current, 1989). Nunca produziram uma teoria geral da sociedade e da mudança social validada pela realidade observável; nos anos 80, já François Furet se queixava de que as “ciências sociais” se tinham revelado incapazes de “elucidar o mundo” (L’Atelier de l’Histoire, 1982). 

A fatal indefinição do estatuto epistemológico das ciências sociais permitiu e incentivou a transformação da Universidade num local de catequização ideológica, de que primeira vítima foi o que classicamente se chamava uma “educação liberal” (Léo Strauss, Liberalism, Ancient & Modern, 1968). Não só: permitiu a livre propagação de todos os desconchavos, com a consequente desfiguração de um curriculum universitário sério e consistente. Hoje em dia, quando se fala apologeticamente de “ciência cidadã” (???); quando se multiplicaram os mandarins académicos que entronizaram o radicalismo, fomentaram a politização do ensino superior e esfacelaram os vestígios de um cânone académico clássico que limitava a arbitrariedade, definia critérios de pertinência e imparcialidade e demarcava excessos de subjectivismo; quando os “estudos culturais”, a “teoria queer”, o “afrocentrismo”, os “estudos de género” e outras extravagâncias sem estatuto disciplinar definido transformaram a Universidade num espaço de militância, subversão e destruição do ethos académico que comandava o ideal da objectividade, da imparcialidade, do rigor intelectual e do saber desinteressado, a própria noção de “ciência” (quanto mais de “verdade”!) acabou ridicularizada, em prol do relativismo cultural, da diversidade identitária e do politicamente correcto. Em 1987, já Allan Bloom escrevia que “as universidades se tinham tornado no campo de batalha de uma luta entre a democracia liberal, por um lado, e um radical poderia dizer-se totalitário — igualitarismo” (The Closing of the American Mind). Mais recentemente, em Tenured Radicals (1998), Roger Kimball conclui que “a educação superior foi transformada numa espécie de doutrinação ideológica”.

Para que C.S. adquira uma vaga noção da complexidade do problema epistemológico que levantou, deixo-o com a citação de uma feminista americana especialista em nada menos do que Crítica do Direito (C. MacKinnon, 1997): “feminism’s critique [...] is a critique of science as a specifically male approach to knowledge. [...] we reject male criteria for verification.” O que será e não será científico? Talvez a sapiência doutorada de C.S. lhe permita responder. Tanto mais que, em matéria de emprego, já sabe que conceitos são ou não apropriados para fabricar os resultados que politicamente lhe convêm e que ele acha, portanto, “científicos”.

Historiadora

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