Não-monogamia não é sobre ter várias relações

Beijar conhecidos e morar com amigos. Ter filhos com parceiros com quem não fazemos sexo. Fazer sexo com quem não queremos namorar. Viver sozinhos com o animal de estimação e ter vários parceiros românticos. Há tantas possibilidades de nos relacionarmos, porque é que temos sempre que seguir o modelo tradicional?

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Ekaterina Popova/Getty Images

“Quantos namorados tens?” é uma das perguntas que mais ouvimos quando dizemos que somos não-monogâmicos. A primeira coisa em que a sociedade pensa é na existência de muitas relações ao mesmo tempo ou então numa vivência cheia de sexo e promiscuidade.

Quando iniciámos o nosso percurso na não-monogamia também acreditávamos no mesmo: é tudo exactamente igual à monogamia, mas com mais pessoas. Com a passagem por várias experiências viemos a compreender que não. É muito menos sobre a quantidade de pessoas com quem nos relacionamos e muito mais sobre a forma como nos relacionamos.

Quando falamos em relações estamos a incluir de todos os tipos: românticas, sexuais, platónicas, familiares, de amizade, profissionais e todas as outras de que se lembrarem. Em que difere então a monogamia da não-monogamia? Na monogamia tendencialmente põe-se o amor romântico num pedestal. Toda a vida está programada para encontrar a nossa cara-metade, casar e ter filhos e, quem não consegue chegar a esse objectivo é visto como infeliz. Pois bem, nós não acreditamos em caras-metade! Somos todos pessoas inteiras, com objectivos e desejos próprios, com hobbies, com grupos de amigos diferentes e até com visões de futuro diferentes. As pessoas da nossa vida vêm somar, não completar.

Além desta ideia absurda de que nos “falta algo” se não estivermos numa relação, a monogamia “tradicional” pode trazer alguns problemas: expectativas irrealistas sobre os parceiros, a ideia de que os parceiros têm que colmatar todas as nossas necessidades e desejos, sentimento de posse sobre o outro, violência conjugal justificada com ciúmes, perda de individualidade (deixa-se de ser uma pessoa para ser parte de um casal), perda de amizades e até traição. Sim, estamos a pôr a traição como parte da monogamia, já que é uma prática comum, embora mais estigmatizada quando feita por mulheres do que por homens, com a desculpa de que os homens têm “necessidades” (isto não vos cheira a machismo?). E, claro, a relação tem que ser entre uma mulher e um homem com a intenção de casar e ter filhos.

A não-monogamia, quando aliada a uma vertente crítica do status quo, pode ajudar-nos a construir relações de forma mais consensual. Acreditamos que o amor romântico não é mais importante que os outros. Precisamos de dar mais espaço ao amor platónico e à amizade, e voltar às origens, valorizando o sentido de comunidade. Beijar conhecidos e morar com amigos. Ter filhos com parceiros com quem não fazemos sexo. Fazer sexo com quem não queremos namorar. Criar famílias de duas mães e três pais. Viver sozinhos com o animal de estimação e ter vários parceiros românticos. Sair com amigos e torná-los família… Há tantas possibilidades de nos relacionarmos, porque é que temos sempre que seguir o modelo tradicional? Aliás, o modelo tradicional até é não-monogâmico e comunitário, mas a religião e a colonização acabaram por difundir a estrutura familiar nuclear hétero e monogâmica.

Não estamos a dizer que a monogamia como escolha pessoal tem que acabar. O que queremos é que haja uma escolha mais consciente de como construímos as nossas relações. Que haja conversas, decisões em conjunto e libertação de expectativas. Que haja mais empatia pelas necessidades do outro e ao mesmo tempo mais à vontade para falar sobre os nossos limites.

É verdade, nós temos vários relacionamentos… mas até podíamos não ter nenhum e continuaríamos a ser não-monogâmicos. Mais do que aquilo que fazemos, é aquilo em que acreditamos.

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