Surdos têm de esperar pela meia-noite para ver notícias do dia no telejornal da RTP2

Surdos criticam mudanças na grelha do canal. RTP contrapõe que tem agora mais programas traduzidos em língua gestual.

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RTP garante que tem mais horas de emissão em LGP com a nova grelha de programas Pedro Cunha/Arquivo

À Associação Portuguesa de Surdos (APS) têm chegado diversas queixas, que também se multiplicam na página de Facebook da RTP2. O presidente da APS, Jorge Rodrigues, questiona: "Qual a diferença para a RTP ter intérprete às 22h ou à meia-noite? Perde a RTP que está a pagar um intérprete que ninguém vê e perdem os surdos que não têm acesso à informação."

“Consideramos positivo que mantenham a interpretação em LGP, no entanto, pensamos que esta alteração não tem lógica”, acrescenta Jorge Rodrigues.

A RTP não esclarece os motivos que estiveram na origem desta decisão, dizendo apenas que houve uma "reorganização da grelha". Diz, por outro lado, que a nova programação prevê um aumento de 55% no número de horas com tradução em LGP em todos os canais do grupo – ou seja, a estação passa a garantir em média 140 horas de emissão semanal em LGP.

Para isso, contribui o facto de a RTP2 emitir (em repetição) desde terça-feira, de segunda a sexta-feira entre as 19h00 e as 19h50, programas de entretenimento que vão para o ar em horário nobre na RTP1. Nestes programas, a "janela" do intérprete, normalmente colocada no canto inferior direito do ecrã, passa para primeiro plano.

"Isso é fantástico e deve ser louvado, mas escolheram os programas errados", critica Josélia Neves, professora do Instituto Politécnico de Leiria e especialista em tradução audiovisual e legendagem para surdos. Josélia Neves considera que a decisão de passar o telejornal das 22h00 para a meia-noite é "discriminação pura e total" em relação aos surdos.

A legendagem, que na maior parte dos programas é automática, não resolve o problema por ser "ilegível" e porque grande parte dos surdos tem dificuldades em ler português escrito.

"Estamos a andar para trás"
A RTP diz que em 2012 produziu 3090 horas de legendagem de programas falados em português, das quais 2380 horas foram de legendagem automática, feita por computador. “Ninguém consegue seguir o raciocínio dessa escrita”, afirma Josélia Neves. A legendagem preparada só pode ser usada nos programas pré-gravados.

Num estudo que a especialista realizou em 2003 e que envolveu 153 pessoas surdas em todo o país, 75% dos inquiridos dizia ter dificuldades na leitura, mas todos viam quatro horas de televisão por dia durante a semana e 5h30 ao fim-de-semana – mais do que a média nacional, que ronda as 3h30. Os noticiários são os programas mais vistos pelos surdos, seguidos dos filmes, novelas e programas de desporto.

"Nos outros países da Europa estão a colocar língua gestual nos programas em horário nobre, nós estamos a andar para trás", lamenta Josélia Neves. Actualmente, os únicos programas de informação com LGP são o Bom Dia, Portugal, que passa na RTP1 das 9h00 às 10h00, e o Portugal em Directo, das 18h00 às 19h00. Tudo o resto é entretenimento: Sociedade Civil, na RTP2 das 14h às 15h30; Praça da Alegria, na RTP1 das 10h00 às 13h00; e Portugal no Coração, na RTP1 das 14h00 às 18h00.

A ERC diz que só irá pronunciar-se quando conhecer todas as alterações à grelha do canal. Lembra, porém, que o protocolo que define a "quota" de programas acessíveis aos surdos foi suspenso, após impugnação da SIC e TVI em 2009, e que por isso a RTP não tem de prestar contas à ERC neste âmbito. Em preparação está um novo plano.

Sérgio Gomes da Silva, do Gabinete para os Meios de Comunicação Social, aplaude o aumento do número de programas com tradução em LGP, mas defende que "seria ainda mais positivo" se os surdos tivessem acesso às notícias em horário nobre.

Não há números concretos, mas estima-se que 15% da população mundial tem uma deficiência e que 10% da população deficiente é surda. Os Censos 2011 não permitem apurar com certeza o número de pessoas com deficiência em Portugal, mas indicam que 13% dos portugueses têm dificuldade em ouvir. Ou seja, cerca de 1,4 milhões de pessoas.

Notícia corrigida às 15h25: corrige lapso na afirmação atribuída à prof. Josélia Neves - "Nos outros países da Europa estão a colocar língua gestual nos programas", e não LGP (língua gestual portuguesa), como erradamente citámos

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