Quatro dias e sete escolas: a história de um pesadelo com um final feliz

Em quatro dias, Catarina, professora do grupo de Educação Especial, foi colocada em sete escolas. O suficiente para quatro dias de pesadelo, com os prazos para as decisões a esgotarem-se. A história de um caso normal de colocação através da Bolsa de Contratação de Escola.

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Catarina diz que a sua história "não é invulgar": “Com a vantagem de o meu ser um caso com um final feliz” Tiago Machado

Não se queixa. Catarina Santos, de 31 anos, residente em Cinfães, no Norte do país, diz que até tem dificuldade em regressar a segunda-feira, o dia em que acordou desempregada e com o coração apertado, a olhar de esguelha para o telemóvel e a actualizar a página do computador como quem não quer a coisa, para não criar expectativas que a deixassem ainda mais triste do que no dia anterior.

Sabia que o dia era decisivo. Ainda havia muitas vagas nas escolas, pelo que a possibilidade de ser colocada era real. E a ansiedade poderia prolongar-se. Isto porque, até aí, as problemáticas colocações de professores através da Bolsa de Contratação de Escola (BCE) haviam sido espaçadas, entre si num dia os professores sabiam se tinham ficado colocados e onde, ponto final. Mas o Ministério da Educação e Ciência (MEC) anunciara que nessa segunda-feira entraria em vigor a colocação “ao minuto”, prevista desde o início, na legislação. Isso significava que um professor que tivesse concorrido para dar aulas em apenas uma disciplina das 304 escolas TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) e com autonomia estaria em pelo menos 304 listas de ordenação. E, portanto, sujeito a receber, a cada minuto do dia ou dias seguintes (ou semanas ou meses), um e-mail de cada uma dessas escolas, como aconteceu com um professor dos Açores, que recebeu mais de cem em 24 horas.

A cada notificação começaria a contagem decrescente de 24 horas para aceitar ou recusar cada oferta, mas os directores tinham avisado que, dada a situação de emergência, por haver muitos alunos sem professor, usariam o telefone para “pressionar, no bom sentido”, aqueles que a plataforma informática lhe indicasse como candidatos às vagas, para acelerar decisão - que dissessem "sim" (e se apresentassem para dar aulas), ou "não" (libertando a vaga permitindo-lhes chamar o candidato seguinte). “Um jogo de nervos”, percebeu Catarina rapidamente.

Sob pressão
Quando atendeu a primeira chamada, de uma escola de Portel “De onde?” “Portel, Alentejo” Catarina “apanhou um baque”. Transmitiu-os a notícia e o baque ao homem com quem casou há apenas uns meses e, depois, aos pais que, como ela, “ficaram felizes” por ela ter sido colocada “e tristes por ir para tão longe”. Ainda andava pelo Google, a conhecer Portel, quando o telemóvel voltou a tocar. Desta vez, sem dar tempo para sobressaltos, “umas em cima das outras”, caíram mais três ofertas no e-mail: Sintra, Seixal e Campo Maior.

“Foi aflitivo", porque não conhecia qualquer um dos lugares. Sob pressão, ela e o marido estabeleceram um critério: quanto melhores, mais rápidos e mais baratos os transportes (para poder ir a casa aos fins-de-semana), mais a escola subia nas preferências. Foi assim que, nessa noite, uma nova proposta, de Lagoa, no Algarve, chegou a ocupar a posição cimeira. Caiu por terra devido à dificuldade em conciliar os horários dos voos low cost com o transporte entre o Porto e Cinfães.

Terça-feira, com as 24 horas a esgotarem-se, Catarina foi à plataforma informática do MEC, aceitou a oferta do Seixal  e despachou as restantes com cliques no “recusar”. Com esse gesto desbloqueou quatro vagas — por volta das 14h00 de terça-feira, os directores das escolas de Lagoa, Portel, Sintra e Campo Maior puderam, finalmente, ligar ao candidato seguinte das respectivas listas.

Emalar dossiers e a almofada
"Foram uma tarde e uma noite muito tristes. De despedida de tudo. Das minhas coisas, da minha vida”, conta Catarina. Fez as malas. Tinha de se apresentar no dia seguinte e não sabia onde ia dormir. À roupa e aos dossiers juntou toalhas, lençóis, uma almofada, o computador e uma pen com internet, “para estar próxima da família”.

Quarta-feira, por volta das 9h, com o marido, iniciou a viagem de 400 quilómetros e “um dos dias mais surreais” que já tinha vivido.

Na escola do Seixal foi recebida por pessoas da direcção, que mostraram a alegria própria de que quem ainda espera por professores à sexta semana do ano lectivo, conta. "Estavam, principalmente, aliviadas. Mostraram-me a escola, apresentaram-me a coordenadora do grupo, conheci as crianças que estavam na Unidade de Multideficiência…”.

Num café, o marido fazia telefonemas, riscando a hipótese de arrendar um apartamento (cerca de 400 euros) e centrando-se nos quartos (mais-ou-menos metade), quando Catarina entrou na secretaria. Estava a mostrar os documentos comprovativos das habilitações e de que cumpria os critérios exigidos por aquele estabelecimento de ensino, quando o telemóvel tocou. O número era desconhecido “Não se importa que atenda?”, perguntou. Era o director de uma escola de Marco de Canavezes. Ainda com a papelada nas mãos e sob o olhar estupefacto da funcionária da secretaria, pediu ao director que esperasse até ela perceber se ainda podia denunciar o contrato com o agrupamento de escolas do Seixal.

Ficaria a 400 ou a 20 quilómetros de casa?
Começou a confusão. Na escola disseram-lhe que não sabiam se era possível rejeitar a colocação sem ser penalizada, mas ela tinha ideia de que sim. “Ficaram desiludidos, mas eu tinha de tentar. Marco de Canavezes fica a 20 quilómetros de Cinfães”, conta a professora. Arrancaram, de regresso ao Norte, com as toalhas, os lençóis e a almofada. Durante toda a viagem Catarina ligou para a Direcção-Geral da Administração Escolar. Nunca a atenderam. No computador portátil aproveitou para verificar se tinha documentos que comprovassem corresponder aos critérios exigidos pela nova escola. Chegou a casa às 23h00 para mais uma noite sem dormir. "Ficaria a 400 ou a 20 quilómetros de distância?"

Chegou quinta-feira — Catarina estava a sair para ir à escola de Marco de Canavezes quando o telemóvel voltou a tocar. “Novo aperto no estômago”. “Fala do Agrupamento de Escolas de Cinfães”, ouviu. “De onde, de Cinfães?! Nem queria acreditar! Em casa!”, diz, com uma gargalhada na voz. Respondeu que não demorava cinco minutos. O tempo de voltar à net a ver o que exigia o novo agrupamento e juntar os documentos necessários para enfrentar a “comissão de verificação”, que já tinha visto vários candidatos recusarem o lugar ou serem recusados. “Eu tinha tudo em ordem e garantiram-me que podia denunciar a primeira colocação. Passei”.

Ao princípio da tarde desta quinta, Catarina denunciou a colocação no Seixal e recusou a de Marco de Canavezes, libertando as vagas para dois colegas. Numa e noutra escola, pelo menos parte dos alunos com necessidades especiais não terão apoio antes de, no mínimo, segunda-feira.

Catarina diz que a sua história "não é invulgar": uma vista de olhos pelas publicações de colegas no Facebook permitiu-lhe perceber que os seus dias de pesadelo "são normais". “Com a vantagem de o meu ser um caso com um final feliz”, comentou, quando falou com o PÚBLICO. Nesse momento, estava a sair do Centro de Emprego, onde foi suspender o subsídio de desemprego. “Sabe quando não conseguimos parar de sorrir? É assim que eu estou”.

Entrou na sua nova escola às 9h00 desta sexta-feira. A essa hora já tinha sido colocada em mais duas, uma em Aljustrel, outra em Almada. Não poderia optar por elas, porque já tinha denunciado uma colocação. Mas, enquanto não as recusou, na plataforma informática, os directores daquelas escolas não puderam passar ao candidato seguinte. Em ambas, aqueles terão até segunda-feira para dizer se aceitam.


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