Menos crianças com meningite, mas pais com dificuldade em comprar vacina

Novos casos de doença invasiva pneumocócica caíram 40% desde 2008, o que se traduziu em menos situações de meningite.

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A cobertura chegou quase aos 80% mas neste momento caiu para os 65% Eva Carasol

Os dados fazem parte do último relatório do Grupo de Estudo da Doença Pneumocócica da Sociedade de Infecciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria, que adianta que 80 dos casos foram registados em 2010/2011 e que 85 foram em 2011/2012. Ao todo, 18,1% das infecções evoluíram para meningites (no relatório anterior eram cerca de 14% mas o número absoluto continua a representar um balanço positivo). Há ainda 7,8% de casos que evoluíram para sepsis (infecção generalizada no organismo) e 49% para pneumonias. Quatro dos casos foram fatais e várias são as sequelas que a doença pode deixar, nomeadamente atrasos no desenvolvimento. A doença é mais comum em crianças com menos de dois anos e dá sintomas como cansaço, dores de cabeça e musculares, febre, dores de ouvidos e náuseas – mas que são sinais comuns a muitas outras patologias.

Para a infecciologista pediátrica Maria João Brito, o país “tem tido uma evolução bastante positiva” devido à vacinação que existe desde 2001 e que tem vindo a ter mais valências, isto é, a ser capaz de combater mais serotipos da doença. Contudo, a médica do Hospital Dona Estefânia, e também membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Pediatria, diz ao PÚBLICO que “pela primeira vez estamos a assistir a uma diminuição da cobertura da vacinação” porque a “vacina é escandalosamente cara”.

Mais de 280 euros
Para a criança ficar imunizada são necessárias quatro doses, a última das quais é dada até aos dois anos de idade. Ao todo o valor pode ultrapassar os 280 euros, já que a vacina não faz parte do Plano Nacional de Vacinação. Do plano faz parte uma vacina contra um outro tipo de meningite, conhecida como meningite C. “Temos a sorte de ter pais muito esforçados e médicos que ‘gostam de vacinas’ e que a recomendam. Mas com a crise torna-se muito difícil para as famílias terem mais esta despesa, quando quase todos os países da Europa têm a vacina no seu plano de vacinação, pois a saúde deveria ser um direito igual para todos”, defende Maria João Brito.

Os dados da taxa de cobertura da vacinação para 2012 ainda não estão totalmente apurados, mas a crise já teve efeitos em 2010 e em 2011. Um ano depois de a vacina ter chegado ao país conseguiu-se uma cobertura de 32% que alcançou os 79,1% em 2007. Em 2008 e 2009 a taxa desceu ligeiramente, caindo mais significativamente em 2010, para 65%, e em 2011, para 64,8%. Maria João Brito explica que as consequências de haver menos crianças a receber a vacina não se fazem sentir no imediato, pelo que importa “apertar a vigilância” desta doença de declaração não obrigatória. A especialista diz que mesmo as crianças não vacinadas beneficiam da chamada “imunidade de grupo”, isto é, do convívio com crianças que estão imunizadas.

O problema, acrescenta, é que não é preciso contacto com outras pessoas para ficar infectado: a doença é causada pelo Streptococcus pneumoniae ou pneumococo, que está presente na nasofaringe, e, por vezes, quando a criança está mais debilitada, a bactéria entra na corrente sanguínea. Metade dos casos surgem em crianças sem nenhum tipo de característica que as coloque num grupo de risco.

Debate no Parlamento
A inclusão desta vacina no Plano Nacional de Vacinação vai voltar ao Parlamento já na quarta-feira, pelas mãos do CDS-PP. Esta é, aliás, a terceira vez que o partido recomenda que a vacina pneumocócica faça parte do plano, conforme recomenda a Organização Mundial de Saúde. Em Dezembro, quando o CDS anunciou a recomendação, a deputada Teresa Caeiro destacou as “vantagens sanitárias e humanas” da inclusão desta vacina no Plano Nacional de Vacinação, justificando que “há muitas famílias que não têm neste momento possibilidades económicas de a comprar”.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a doença pneumocócica causa todos os anos mais de três milhões de mortes em todo o mundo, sendo as principais vítimas crianças ou adultos a partir dos 50/60 anos com a função imunitária diminuída e com outras doenças associadas.
 
 

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