Europeus não reconhecem qualidade ao ensino superior nacional

Só estudantes da Roménia, Turquia e Croácia demonstram vontade de vir estudar para Portugal, revela investigação feita na Universidade do Minho. “As universidades portuguesas não sabem quais são as suas vantagens competitivas”, critica o autor, Alexandre Duarte.

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A atracção de estudantes estrangeiros tem sido uma aposta estratégica de todas as universidades e politécnicos PÚBLICO

Numa altura em que o sector aposta forte na captação de estudantes internacionais, foi publicado o primeiro estudo do género feito no país, fruto do doutoramento feito na Universidade do Minho (UM), que não traz boas notícias: só na Roménia, Croácia e Turquia é que Portugal é bem visto.

Cerca de metade dos 15 países europeus envolvidos neste estudo avaliam o sistema de ensino superior português abaixo da média, o que corresponde a uma avaliação negativa. A ideia central deste trabalho de investigação do professor do IADE Alexandre Duarte é a de que “o sistema de ensino superior de Portugal não é considerado muito reputado”. E isso condiciona todos os outros resultados a que chega este trabalho, explica o investigador. A reputação é um “factor decisivo no critério de escolha de instituição de ensino superior”, o que ajuda a explicar que, entre os estudantes entrevistados, 81% revelem intenção de estudar no estrangeiro, mas apenas 45% ponderem fazê-lo em Portugal.

Além da reputação, há outras características do ensino superior português cuja percepção pelos europeus é negativa. O segundo factor menos pontuado neste estudo foi a capacidade de investigação das universidades nacionais e o país também perde capacidade de atracção face à importância do português, uma língua vista como pouco relevante no espaço europeu. A representação do sistema de ensino, a percepção da qualidade das infra-estruturas e dos docentes são outros factores com avaliação negativa neste estudo.

A tese “Atracção da Educação: o estereótipo nacional e a escolha do destino de estudo no Ensino Superior – o caso português”, foi desenvolvida na Universidade do Minho e teve por base um inquérito aplicado junto de 464 estudantes europeus inscritos em instituições de ensino superior que, tal como o IADE, onde Alexandre Duarte dá aulas, pertencem à EDCOM, uma rede europeia de instituições de ensino superior da área da comunicação.

O estudo de Alexandre Duarte centrou-se apenas em alunos europeus e, por isso, deixa de fora o país com maior percentagem de estudantes inscritos no ensino superior nacional, o Brasil (26,8%). Entre os parceiros continentais, o grande destaque são os estudantes espanhóis (9,3%), seguidos dos de França (2,7%), Itália (2,4%) e Reino Unido (2,1%). Alemanha e Polónia, com 1,8% cada, e a Bélgica (1,1%) assumem ainda algum relevo.

Entre estes não está nenhum dos países em que o ensino superior nacional consegue ter melhores resultados. Os alunos que demonstram intenções mais fortes de vir a estudar em Portugal são os romenos (3,5 numa escala de 5 valores), seguidos dos croatas (3,44) e turcos (3,33). Nestes três países, a competência em Portugal é avaliada como “alta” nesta mesma investigação, o que permite estabelecer uma correlação entre esta percepção e a intenção de estudar em no país.

Estes países também aparecem nos primeiros lugares na avaliação da reputação do sistema de ensino português, uma lista que volta a ser liderada pela Roménia (3,6). A Croácia surge em quarto (3,2), seguida da Turquia (3,2). Pelo meio surgem a Bulgária (3,2) e o Reino Unido (3,2), que é, de entre os principais países do continente, aquele em que Portugal consegue ter avaliações mais positivas.

Estes resultados são conhecidos numa altura em que as universidades e institutos politécnicos têm apostado forte na atracção de estudantes internacionais, depois de, no início do ano, ter sido aprovado o novo Estatuto do Estudante Internacional, que permite a fixação de propinas de valor mais elevado para os alunos estrangeiros – chegando a atingir os 7000 euros anuais em universidades como Lisboa e Coimbra.

As instituições de ensino apresentaram uma proposta de Estatuto do Estudante Internacional, que foi bem acolhida pelo Governo, mas “não estudaram a fundo a questão”, critica Alexandre Duarte: “As universidades portuguesas não sabem quais são as suas vantagens competitivas”. Este estudo aponta um conjunto de factores que são valorizados pelos estudantes em que Portugal tem um bom desempenho. Ao nível da vida social, o país é considerado seguro, barato e hospitaleiro, sendo também valorizado o clima, bem como a proximidade geográfica.

Estas são características que devem ser exploradas pelas instituições nacionais na comunicação da sua oferta em outros países, defende Alexandre Duarte. Para o investigador, sem descurar a aposta que já é feita nos países de onde vem o grosso dos seus estudantes estrangeiros - os PALOP e o Brasil -, as instituições devem partir à procura de mercados como o romeno ou o croata, onde o país é já bem visto pelos estudantes.

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