Famílias portuguesas pagaram 20 mil milhões de dívidas nos últimos três anos

A maior fatia, de 12.800 milhões de euros, diz respeito ao crédito à habitação. Já as empresas privadas interromperam um ciclo de meio ano de descida do endividamento, e a dívida pública continua a subir.

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Redução do crédito e esforço para evitar incumprimento explicam redução de dívidas das famílias PÚBLICO/Arquivo

Este nível de desendividamento (uma queda de 11,4% em três anos) explica-se por duas razões: por um lado, o esforço que tem sido feito para não entrar em incumprimento e para continuar a cumprir os prazos das amortizações. Por outro lado, há o aperto na concessão de novos créditos por partes dos bancos, com destaque para os empréstimos à habitação. Mesmo assim, e apesar das taxas de juro a níveis historicamente baixos, há quem não consiga continuar a pagar o que deve (seja por causa de desemprego, cortes salariais, doença ou divórcio). Os dados do Banco de Portugal mostram que o malparado relacionado com a aquisição de casa, em percentagem do total do crédito concedido, cresceu para 2,4% em Junho deste ano (mais 0,04 pontos percentuais face a Maio). 

No extremo oposto está o Estado, que continua a subir o nível da dívida pública. Segundo o banco central, em Junho a dívida chegou aos 134% do PIB, o que corresponde a 223.270 milhões de euros (mais 2586 milhões do que no final do primeiro trimestre do ano). É preciso ter ainda em conta que há empresas públicas com dívidas de dimensão elevada que não entram nestes cálculos. Olhando para o sector público não financeiro, a dívida total é de 275.070 milhões (165,1% do PIB).

Empresas mais endividadas
No caso das empresas privadas, estas interromperam um ciclo de meio ano de desendividamento. Em Abril deste ano, o valor total em dívida era de 303.583 milhões de euros, o que representava o montante menos elevado desde a chegada da troika. A diferença face a Junho de 2011 era de 7017 milhões, mostrando assim uma recuperação ao nível da dívida. No entanto, os meses de Maio e Junho inverteram por completo essa tendência. Em Maio deu-se a segunda maior subida no período em análise, no valor de 3036 milhões de euros (mais 1%), fazendo o bolo total chegar aos 306.619 milhões de euros. Em Junho, estava já nos 307.822 milhões.

É certo que há diferentes tipos de dívida, podendo o capital que se pede emprestado servir para novos investimentos, por exemplo, mas o quadro geral mostra que não se está a recorrer a capitais próprios e que os níveis de endividamento continuam pouco diferentes de Junho de 2011 (apenas menos 0,89%, o que corresponde a 2778 milhões). O Governo, através do Ministério da Economia, tem estado particularmente atento a esta questão e negociou com a troika um plano para ajudar as empresas a lidarem com a dívida, mas que ainda não foi apresentado publicamente. Os dados mostram que em Junho os empréstimos de cobrança duvidosa às sociedades não financeiras, em percentagem do total concedido, voltou a subir, estando agora nos 13,2% (mais 0,1 pontos percentuais face ao mês anterior).

Casos distintos
Há, no entanto, diferentes realidades, conforme a tipologia e dimensão das empresas. Olhando para os últimos dados disponíveis, verifica-se que as PME são as que continuam a reduzir o seu endividamento (e/ou a não conseguir novos empréstimos). Neste momento, as PME devem 160.851 milhões de euros, menos 4,8% face a idêntico período do ano passado. Dentro das PME, as microempresas (as mais numerosas) devem 72.332 milhões (menos 5,2%), às pequenas empresas cabem 42.391 milhões (-6,4%) e outros 46.127 milhões (menos 2,6%) estão nas médias empresas. Já as grandes empresas subiram o seu bolo total para 88.804 milhões de euros (mais 1,5%, ou 1333 milhões de euros) e as Sociedades Gestores de Participações Sociais não financeiras cresceram para 58.167 milhões (mais 8,7%, equivalente a 4652 milhões, em 12 meses).

Numa análise sectorial, os dados mostram que, além das SGPS, as empresas que têm recorrido com sucesso a empréstimos operam no sector da electricidade, gás e água (como a EDP e a Galp), e na área da saúde e da educação. No sentido contrário estão as construturas, as imobiliárias e as empresas que actuam no sector da informação e comunicação. Quem está a financiar-se olha para fora de Portugal, uma vez que se verifica uma queda nos financiamentos concedidos pelo sector financeiro residente e um aumento dos financiamentos do exterior do país.

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