Governo egípcio decreta estado de emergência

Violência alastra a várias cidades do país e autoridades admitem 278 mortos. Mohamed ElBaradei, que participava no governo interino pós derrube do Presidente Mohamed Morsi, apresentou a sua demissão.

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Há confirmação de mais de uma centena de mortos Mahmoud Khaled/AFP

A situação em várias zonas da capital egípcia é descrita como caótica e as restrições impostas pelos militares impedem os jornalistas de confirmar muitas das informações postas a circular por ambos os lados – a Irmandade Muçulmana, movimento islamista de que Morsi era dirigente, diz que a polícia matou mais de dois mil manifestantes; o governo interino (tutelado pelos militares) confirma apenas 56 vítimas em todo o país, incluindo vários polícias.

Mas as informações que os repórteres conseguem recolher e as imagens que chegam das ruas são suficientes para dizer que este será um dos dias mais violentos (se não mesmo o mais violento) no Egipto desde a revolução de 2011. Um fotógrafo da AFP que está na praça de Rabaa al-Adawiya, que é desde o início da contestação a Morsi o bastião da Irmandade no Leste do Cairo, contou 124 corpos em três morgues improvisadas. Outros repórteres confirmam também terem visto dezenas de corpos no local.

O pesado balanço deverá crescer, já que não há qualquer número disponíveis da ofensiva contra a praça al-Nahda, um acampamento mais pequeno montado pelos apoiantes de Morsi junto à Universidade do Cairo e que o governo interino anunciou, a meio da manhã, “estar totalmente sob controlo” das forças de segurança. Há, no entanto, relatos de que um hospital de campanha no local terá sido incendiado e um fotógrafo da AFP viu quatro corpos no local, alguns calcinados.

A situação é mais complexa em Rabaa al-Adawiya, onde ao início da tarde permaneceriam ainda centenas de pessoas. Mais de sete horas depois de a polícia ter avançado sobre o acampamento, as ruas adjacentes continuavam bloqueadas por barricadas, o tiroteio era incessante e no ar misturava-se gás lacrimogéneo e o fumo de pneus a arder. Num hospital de campanha, onde falta quase tudo, os médicos viam-se obrigados a deixar os casos mais desesperados para tratar apenas dos feridos que podiam ainda ser salvos, segundo o relato do jornalista da AFP.

Nas morgues, muitos dos cadáveres tinham marcas de bala na cabeça, confirmando os relatos de que as forças de segurança usaram fogo real logo quando avançaram sobre a praça.

Entre os mortos há pelo menos dois jornalistas, um dos quais um operador de câmara que trabalhava para a Sky News. A Irmandade Muçulmana adianta também que a filha de Mohammed al-Beltagui, um dos seus principais dirigentes e um dos poucos que ainda não foi detido, foi morta durante a manhã na praça, com um tiro no peito.

Estado de emergência
A violência alastrou a outras partes da capital depois de a Irmandade Muçulmana ter apelado aos seus apoiantes que saíssem à rua contra esta “tentativa de esmagar de uma forma sangrenta toda a voz que se opõe ao golpe de Estado militar”. A BBC noticiou que os islamistas estão a concentrar-se na praça Mostafa Mahmoud, e a Reuters divulgou imagens do momento em que um veículo da polícia era atirado abaixo de uma viaduto em Nasr City, nos arredores da praça Rabaa al-Adawiya.

Começaram, entretanto, a chegar notícias de manifestações, e confrontos, em várias cidades do Delta do Nilo, incluindo em Alexandria. Mais graves terão sido os incidentes na província de Fayoum, a sul da capital, onde confrontos entre apoiantes da Irmandade e a polícia terão feito 35 mortos, segundo dados do Ministério da Saúde. Há também notícia de cinco vítimas em confrontos na cidade de Suez.

Face à escalada de violência, o presidente interino, Adly Mansour, emitiu um comunicado em que decreta o estado de emergência em todo o país a partir das 16h locais (15h em Portugal continental) pelo período de um mês. “A segurança e a ordem na nação estão em perigo por causa de actos de sabotagem deliberados, ataques contra edifícios públicos e privados e a perda de vidas humanos, actos perpetrados por grupos extremistas”, justifica o chefe de Estado nomeado pelos militares.

Pouco depois, as autoridades anunciaram ainda o recolher obrigatório no Cairo, Alexandria e em onze das 27 províncias, incluindo o Suez, entre as 19h e as 6h. 

Num outro comunicado, o governo interino afirmou que a liderança islamista “é totalmente responsável por qualquer derramamento de sangue, motim ou violência”.

Enquanto isso, o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, que participava no governo interino pós derrube do Presidente Mohamed Morsi, apresentou a sua demissão. Um dos vice presidentes do executivo, ElBaradei disse que não podia conitnuar e ser assim "responsável por um banho de sangue".
 
 
 

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