Vendas para o estrangeiro ajudaram a conter despedimentos no agro-alimentar

Há dois anos a indústria de alimentos e bebidas empregava 110 mil pessoas, mais seis mil do que agora. Exportações devem manter ritmo de crescimento.

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Exportação de azeite tem registado evolução positiva Miguel Manso

“A perda de postos de trabalho directos não foi tão elevada como pensávamos porque a exportação permitiu compensar um pouco essa diminuição”, diz. Pelos cálculos da organização, que representa desde os produtores de lacticínios, de cerveja, chocolate ou massas, neste período, o sector conseguiu aumentar o volume de negócios em mais 300 milhões de euros, para 14600 milhões de euros.

A FIPA, que organiza terça-feira o 5º Congresso da Indústria Portuguesa Agro-alimentar, acredita que 2014 será mais um ano de crescimento nas exportações. Entre Janeiro a Agosto as empresas agro-alimentares exportaram 2700 milhões de euros, 70 milhões de euros a mais do que no mesmo período do ano passado. A manter-se a tendência, a evolução no final do ano será positiva. “Os números são conseguidos com o trabalho duríssimo das empresas em mercados extremamente competitivos. São muito significativos tendo em conta as dificuldades”, sublinha Jorge Henriques, destacando os bons desempenhos das vendas para o estrangeiro do concentrado de tomate, conservas, azeite ou vinho.

A viragem para o estrangeiro permitiu segurar o negócio, mas não foi suficiente para recuperar postos de trabalho. Além disso, a perda de rentabilidade foi “inevitável”. “As empresas estão a ganhar muitíssimo menos. O consumo interno retraiu de forma exponencial, a dois dígitos em alguns subsectores, e muitos regressaram a níveis dos anos 1980. O mercado encurtou-se, quer fora de casa [na restauração, por exemplo] quer dentro de casa”, analisa.

Jorge Henriques destaca ainda que nos últimos anos a agro-indústria conseguiu adaptar-se a transformações de mercado, novas directivas europeias, tecnologias e “modernas formas de gestão”. Tudo isso permitiu ao sector “resistir” e lançar a internacionalização que hoje começa a ser visível nas estatísticas do comércio internacional. Em 2013, o sector pesava 10,8% no total das exportações portuguesas (10,6% no ano anterior).

Mas a FIPA está preocupada com o agravamento dos custos com o combustível trazidos com a proposta de Orçamento de Estado (OE) para 2015, tal como a subida dos impostos especiais sobre o consumo, nomeadamente, sobre as cervejas. O crescimento médio do imposto é de 3%, bem acima do 1% de agravamento que se verificou quer em 2012, quer em 2013.

“As cervejas são o sector mais prejudicado com o OE. Causa-nos espanto como é que um sector tão competitivo pode ser penalizado e em nome de alguns aspectos que não entendemos”, disse Jorge Henriques, referindo-se à utilização de parte das receitas fiscais obtidas com os impostos sobre o álcool no financiamento ao Sistema Nacional de Saúde.

A FIPA reivindica maior atenção sobre a indústria alimentar, argumentando que, ao contrário “dos bens não transaccionáveis, pode ser uma alavanca da economia”. “Por razões que não compreendemos, há uma tentativa de esquecer o sector. Esta é uma indústria estratégica e tem de ser reconhecida como tal”, defende.

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