Ricardo Salgado e Ricciardi assinam pacto de paz no Grupo Espírito Santo

Banqueiros emitiram comunicado conjunto no qual manifestam confiança um no outro.

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Ricardo Salgado foi afastado do BES pelo Banco de Portugal em Junho Nuno Ferreira Santos

Uma das principais consequências da mediatização do conflito aberto entre os primos Ricardo Salgado, presidente do BES, e José Maria Ricciardi, à frente do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), dez anos mais novo, foi obrigar a família a discutir a nova liderança do grupo. Ou seja: quem sucederá a Ricardo Salgado, um tema que este tem recusado abordar, rejeitando sempre que a solução estivesse em cima da mesa.

Os dois primos divulgaram nesta segunda-feira à tarde uma declaração conjunta que salva as duas faces e onde Ricardo Espírito Santo Salgado é obrigado a "engolir vários sapos". No texto, o presidente do BES “esclarece que, quando vier a ser iniciado o processo de sucessão, José Maria Espírito Santo Ricciardi reúne todas as condições para ser um dos membros possíveis à sua sucessão”. Por seu turno, lê-se que Ricciardi, “em função de um conjunto de esclarecimentos obtidos, reitera o voto de confiança na liderança executiva do Dr. Ricardo Espírito Santo Salgado nas condições apresentadas na reunião do Conselho Superior do GES de 7 de Novembro”. Uma simples leitura dos comunicados dos últimos dias permite concluir que também Ricciardi recuou nas suas posições. Os dois garantem que “após esclarecimentos havidos entre as partes, ficou clarificado que nunca houve uma tentativa de 'golpe de estado' no GES”.

O comunicado – que oficializa a abertura de conversações familiares para escolher o próximo líder do grupo – surge depois das últimas e inequívocas tomadas de posição de Ricciardi, alegando que não confiava em Salgado para liderar o grupo. Uma confissão que antecedeu em ano e meio o fim do mandato do actual presidente do BES, mas que teve o mérito (ou demérito) de obrigar a família a debater mais cedo do que planeado a sucessão de Salgado, que está à frente dos destinos do grupo há mais de 20 anos. Foi, por isso, que as últimas horas foram frenéticas para os dois banqueiros, que surgiram no epicentro de uma guerra de poder pela liderança do GES e, por essa via, do BES.

Os dois estiveram assim reunidos para ajudar a pacificar o ambiente à volta do GES  – Ricciardi compromete-se a respeitar o primo no quadro das funções que ambos desempenham no grupo e Salgado aceita abrir já o seu processo de sucessão  – e garantir a “desaceleração” do clima de guerra que tem marcado as últimas semanas.  

Tendo em conta que as posições se extremaram, com visibilidade pública, tudo indica que um "entendimento" sustentado entre as duas correntes contrárias (Ricardo Salgado e Ricciardi) não será fácil, ainda que seja essencial para criar as bases necessárias à clarificação dos equilíbrios de poder dentro do GES.

Nas últimas duas décadas, a família Espírito Santo multiplicou-se em vários ramos, com gerações muitos diferentes e interesses conflituantes. Mas foi sempre inevitável que a cúpula (o Conselho Superior do GES) se unisse por dois objectivos: não delapidar o património de um grupo que hoje enfrenta problemas financeiros; e travar a degradação da imagem do grupo (e dos dois banqueiros) afectada por múltiplos escândalos (Portucale, Submarinos, Escom, Mensalão, Operação Furacão, Monte Branco, Akoya, privatizações da EDP e da REN, transacções com títulos da EDP Renováveis).

É assim previsível que a discussão sobre o futuro do maior grupo financeiro português não se esgote no “entendimento” alcançado esta tarde entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi. É caso para dizer: a partida vai a prolongamento.

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