Fernando Mendes denuncia “doping”, mas iliba três “grandes”

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Fernando Mendes num jogo europeu do FC Porto, em 1997 Cornelius Poppe / Reuters (Arquivo)

Co-escrito pelo ex-futebolista e pelo jornalista Luís Aguilar, Jogo Sujo (editora Livros d’Hoje) inclui revelações graves sobre o recurso a substâncias dopantes, que o próprio jogador admite. “Em determinado período da minha carreira cheguei a um clube que tinha uma grande equipa, um belíssimo treinador e um presidente carismático. Para além destas qualidades, existiram outros ingredientes que facilitaram o nosso percurso vitorioso. Devo dizer que antes de ir para este clube nunca tinha tido qualquer experiência com doping (pelo menos conscientemente)”, revela Fernando Mendes, contando mesmo a história de um jogo das competições europeias em ganhou muitas bolas de cabeça a um poderoso avançado campeão do mundo. "O meu segredo: uma pequena vacina, do tamanho de meia unha, chamada Pervitin", sublinhou.

Fernando Mendes não revelou o nome dos clubes em causa, tendo sido aconselhado pelo advogado a não o fazer. Mas em declarações ao PÚBLICO ilibou os três “grandes”: “Não vi nada disso nos ‘grandes’”, afirmou Fernando Mendes, que negou também ter assistido a actos de dopagem na selecção, embora no livro conte que num jogo particular por Portugal pediu ao massagista do seu clube para lhe dar uma injecção ao intervalo.

Admitindo que actualmente será “mais difícil” recorrer ao doping, Fernando Mendes acrescentou que alguns dos clubes por onde passou recorriam a substâncias ilegais, porque sabiam quando havia controlos. “Hoje é diferente, porque há controlos surpresa.”

Em Jogo Sujo, o antigo jogador, agora com 42 anos, revela ainda a presença de prostitutas nos estágios do Benfica e de mulheres nos estágios da selecção e afirma que os “grandes” são sempre beneficiados pela arbitragem. “Quis mostrar que nem tudo é bonito no futebol”, explicou Fernando Mendes, que nunca denunciou estas situações antes porque, diz, fazia parte do mundo do futebol.

EXCERTOS DO LIVRO "JOGO SUJO"Sobre doping

“Os incentivos para correr eram sempre apresentados pelo massagista. Passado pouco tempo de estar no clube, ele aproximou-se de mim, e de outros novos jogadores (...) Disse-me claramente que aquilo que ia dar-me era doping, embora nunca tivesse falado de eventuais efeitos secundários. (...) Com o passar do tempo assumi os riscos e tomei doping de todas as vezes que me foi dado."

“No meu tempo, o doping era tomado de duas formas: através de injecção ou por recurso a comprimido. Podia ser antes do jogo, no intervalo, ou com a partida a decorrer, no caso daqueles que saíam do banco (...) A injecção tinha efeito imediato, enquanto os comprimidos precisavam de ser tomados cerca de uma hora antes do jogo.”

“Em alguns clubes onde joguei tomei Pervitin, Centramina, Ozotine, cafeína, entre muitas outras coisas das quais nunca soube o nome.”

“Cada jogador tomava uma dose personalizada, mediante o seu peso, condição física ou última vez que tinha ingerido a substância (...) Porém, nos jogos importantes era sempre certo (...) Quando se sabia que não iria haver controlo antidoping, nunca falhava.”

“Lembro-me de um jogo das competições europeias contra uma equipa que tinha três campeões do mundo no seu plantel. Um deles era um poderoso avançado no jogo aéreo. (...) Apanhei-o várias vezes no meu terreno de acção. Ele era um armário, com um tremendo poder de impulsão. Mas nesse dia eu saltei que nem um louco e ganhei-lhe quase todas as bolas de cabeça (...) O meu segredo: uma pequena vacina, do tamanho de meia unha, chamada Pervitin.”

“Em certos treinos víamos um ou dois juniores que apareciam para treinar connosco. Esses juniores não estavam ali porque eram muito bons ou porque tinham de ganhar experiência. Estavam ali para servirem de cobaias a novas dosagens. Um elemento do corpo clínico dava cápsulas ou injecções com composições ilegais a miúdos dos juniores (...) Diziam-lhes que eram vitaminas e que a urina era para controlo interno.”

“Se um jogo fosse ao domingo, o nosso médico sabia na sexta ou no sábado quais as partidas que iriam estar sob a tutela do controlo antidoping. Mal tinha acesso à informação, avisava todo o plantel e o dia de jogo acabava por ser directamente influenciado por essa dica.”

“Depois do apito final, as bolinhas eram retiradas do congelador e colocadas ao lado das outras dentro de um saco. Quando o médico ia escolher o atleta que tinha de ir ao controlo [antidoping], já sabia que não podia tirar nenhuma das bolinhas geladas [que eram as dos jogadores dopados]."

“Em determinada temporada (...) sou convocado para um encontro particular da selecção Nacional. (...) Faço uma primeira parte fantástica, mas ao intervalo começo a sentir-me cansado e tenho medo de não aguentar o ritmo (...) O jogo realiza-se num estádio português (...) Estão lá um médico e um massagista de um clube onde jogo (...) No intervalo, peço a esse médico para me dar uma das suas injecções de doping. Saio do balneário da selecção, sem que ninguém se aperceba, e entro numa salinha ao lado. É aí que me dão a injecção pedida por mim. Volto a frisar que ninguém da selecção se apercebeu.”

Sobre arbitragem

“Antes do apito inicial [num jogo entre o Sporting e o Ajax na Taça UEFA], um elemento da direcção desceu ao nosso balneário e lançou uma frase curiosa: Atirem-se para o chão dentro da área, porque o árbitro vai marcar penálti.” (...) Não vi ninguém do Sporting incentivar o árbitro e custa-me acreditar que um juiz internacional pudesse entrar nesse tipo de situações. Mas a verdade é que acabámos por ser muito beneficiados naquele jogo, através de decisões erradas.”

“Com a camisola dos três grandes, e mesmo com a do Boavista, disputei muitos jogos nos quais senti que estava a ser beneficiado.”

Sobre sexo nos estágios

“Quando jogávamos em casa, costumávamos estagiar no Hotel Alfa, em Lisboa. Numa dessas estadas, e já com Toni ao leme da equipa [do Benfica] os três russos [Iuran, Kulkov e Mostovoi] tinham o esquema muito bem montado. Durante a noite, iria parar à porta do hotel uma carrinha carregada de prostitutas com o objectivo de tornar o estágio mais divertido."

“Durante os estágios era fácil subir com uma mulher desconhecida para o quarto e ter uma boa noite de sexo. Podia ser uma empregada de hotel, uma hóspede ou uma amiga a quem se ligava para aparecer. Com algum cuidado, o jogador nunca era apanhado. Pelo menos, das vezes que fui à selecção, nunca apanharam ninguém.”

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