Quando Cary Grant pediu Sophia Loren em casamento

Actriz conta no primeiro volume das suas memórias que o actor de Hollywood a seduziu em 1957 durante a rodagem, em Espanha, de Orgulho e Paixão, de Stanley Kramer.

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Passado em Espanha durante as guerras napoleónicas, o filme conta a história de um oficial inglês, interpretado por Cary Grant, que ajuda um grupo de espanhóis a combater o invasor francês. Sophia Loren é Juana, a filha do chefe espanhol, por quem o herói britânico se apaixona.

Ao que parece, o Cary Grant de ar mais ou menos mesmerizado que, numa cena do filme, segue os movimentos de Sophia Loren enquanto esta dança um escaldante flamenco, não terá tido grande necessidade de representar. Neste tomo inicial das suas memórias, que deverá ser lançado em língua inglesa até ao final do ano, Sophia Loren conta em detalhe como se envolveu com o actor americano de origem inglesa, depois de Grant a ter persistentemente tentado seduzir durante a rodagem. Ela tinha 23 anos, ele tinha mais 30 e estava então casado com a terceira das suas cinco mulheres (cinco casamentos a que viriam a juntar-se os rumores da bissexualidade do actor que agitaram Hollywood).

Loren contou aos jornalistas que uma das razões que a estimulou a escrever estas memórias foi a descoberta de uma caixa cheia de correspondência, fotografias e outras recordações na casa que possui na Suíça. O livro, cujo título reproduz o de um filme de Vittorio de Sicca em que a actriz representa três mulheres diferentes, “é um conjunto de memórias inéditas, anedotas curiosas, pequenos segredos revelados, que saltaram de uma caixa encontrada por acaso, um tesouro cheio de emoções, experiências, aventuras”.  

Algumas das cartas que estavam nesta caixa foram escritas por Cary Grant durante a rodagem, em Espanha, de Orgulho e Paixão. “Estarás nas minhas orações”, escreve Cary Grant. “Se pensares e rezares comigo, com o mesmo objectivo, tudo ficará bem e a vida será boa”.

Noutro bilhete pedia-lhe desculpa por a “pressionar de mais”. E voltava a pedir-lhe que rezasse, garantindo que também o faria. Não é de excluir que o seu conhecimento de que a actriz era já então, como hoje, uma católica fervorosa, possa ter contribuído para revelar esta sua até então não muito conhecida dimensão devocional. Sophia Loren explica que Grant lhe enviava ramos de flores todos os dias e insistia em que ambos rezassem a pedir orientação divina para saber se deveriam deixar as pessoas com quem estavam envolvidos.

Cary Grant estava então casado, há já oito anos, com a actriz e ficcionista Betsy Drake, de quem só viria a divorciar-se em 1962. Foi o seu casamento mais duradouro, e o actor sempre se mostrou grato a Betsy Drake por ter conseguido fazê-lo recuperar a sua “paz interior”. A mulher convenceu-o dos benefícios de um tratamento por LSD, então legal, que parece ter resultado, segundo o próprio, onde o ioga, o hipnotismo e outras terapias tinham falhado.

Um caso para recordar

Sophia Loren, embora tivesse apenas 23 anos, era já uma actriz experiente e que dera nas vistas em filmes italianos, como O Ouro de Nápoles (1954) e Pão, Amor e… (1955), ambos de Vittorio De Sica (1954), mas que também já fora descoberta por Hollywood e contracenara com John Wayne em A Cidade Perdida, de Henry Hathaway, estreado nesse mesmo ano de 1957. Quando encontrou Cary Grant, mantinha desde a adolescência uma relação com o produtor de cinema Carlo Ponti, com quem estava prestes a casar-se.

A história do casamento de Ponti e Loren é outro filme. Casaram-se no dia 17 de Setembro de 1957, por procuração, depois de o produtor se ter divorciado da sua primeira mulher no México. Mas como o divórcio era ainda proibido em Itália, foi avisado de que seria acusado de bigamia caso voltasse ao país. Acabaram por anular o casamento, em 1962, e o imbróglio só se resolveu definitivamente em 1966, quando voltaram a casar-se em França e lhes foi concedida a nacionalidade francesa.

Para Sophia Loren, a idade de Cary Grant até não constituiria grande problema, uma vez que, diz, “andava à procura de uma figura paternal”. O próprio Ponti era 22 anos mais velho do que ela. Mas “tinha de fazer uma escolha” e inclinou-se para o seu futuro marido. “O Carlo era italiano, pertencia ao meu mundo, era a coisa certa a fazer”, explica agora a actriz. “Na época não tive remorsos nenhuns, amava o meu marido e, embora tivesse muito afecto por Cary, tinha 23 anos e não consegui decidir-me a casar com um gigante de outro país e a deixar Carlo”.

Curiosamente, Orgulho e Paixão já integrava a história de bastidores de Hollywood, mas por causa de Frank Sinatra, que aceitou um papel no filme porque queria estar perto de Ava Gardner, com quem era ainda casado e que estava em França a filmar “E o Sol também Brilha”, de Henry King, baseado no romance de Hemingway. E quando a tentativa de se reconciliar com Ava Gardner falhou – divorciaram-se ainda em 1957 –, Sinatra pediu para abandonar mais cedo a rodagem do filme.

Já o breve affair com Cary Grant agora revelado por Sophia Loren ainda acabou por ter um segundo capítulo um ano e tal mais tarde, quando o galã anglo-americano e a voluptuosa italiana voltaram a encontrar-se na rodagem de Quase nos Teus Braços (Houseboat, 1958), uma comédia romântica de Melville Shavelson, que mais tarde se queixaria de que a “tensão sexual” entre ambos era tão forte que lhe tornara difícil  realizar o filme. Uma química a que também não escapou à imprensa de escândalos de Hollywod, que durante algum tempo se concentrou no alegado envolvimento romântico entre os dois actores.

Curiosamente, a ideia de Houseboat partiu de Betsy Drake, que só não contracenou com o marido porque o casal atravessava um momento complicado e o estúdio achou preferível encontrar uma alternativa.

Lendo o que Sophia Loren agora conta dos avanços de Cary Grant durante a rodagem de Orgulho e Paixão, e em particular essas cartas em que tenta convencê-la de que a oração lhes mostrará que devem unir-se, sacrificando os seus relacionamentos presentes, é difícil não pensar no papel que o actor acabara de interpretar imediatamente antes. O ano de 1957 foi deveras preenchido para Cary Grant, que mal teve tempo de respirar entre a rodagem de O Grande Amor da Minha Vida, de Leo McCarey e a partida para Espanha, para contracenar com Sophia Loren no filme de Stanley Kramer.

Como o leitor mais cinéfilo se recordará, O Grande Amor da Minha Vida (An Affair to Remember), conta a história de Nick (Cary Grant) e Terry (Deborah Kerr), que se apaixonam e decidem encontrar-se daí a seis meses no topo do Empire State Building caso ambos tenham conseguido entretanto acabar com os relacionamentos que mantêm e iniciar novas vidas. Digamos que fica um bocadinho a ideia de que Grant usou o guião que estava mais à mão, ou mais fresco na memória, embora a parte das rezas pareça ter sido uma inspiração do momento. No fim, como o título do filme de Leo McCarey profetizava, restou um caso para recordar.

 

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