Militar confessa ter sido corrompido: “Força Aérea tinha uma estrutura podre a gerir as messes”

Maioria dos arguidos da Operação Zeus remeteu-se ao silêncio no primeiro dia de julgamento. Caso conta com 68 arguidos e está relacionado com esquema que terá lesado Estado em mais de 2,5 milhões.

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PAULO PIMENTA / PUBLICO

Um major da Força Aérea Portuguesa na reserva, Rogério Martinho, confessou esta segunda-feira à tarde em tribunal o seu envolvimento e o dos colegas num esquema de corrupção disseminado pelas messes.

Em causa está a chamada Operação Zeus, cujo julgamento começou nesta segunda-feira no Tribunal de Sintra, com 68 arguidos, entre militares e fornecedores. Alguns destes últimos continuam a abastecer as forças de segurança e nalguns casos até as Forças Armadas, uma vez que não existem instrumentos legais que permitam afastá-los dos concursos públicos antes de serem condenados pela Justiça de forma irreversível.

O esquema que o Ministério Público suspeita ter funcionado na Força Aérea durante décadas era simples: em conluio com militares, os fornecedores entregavam nas messes quantidades de bens alimentares muito inferiores às quantidades que facturavam. O lucro correspondente à diferença entre o que era encomendado e o que era efectivamente entregue era dividido entre os empresários e os militares. As patentes mais altas auferiam mais do que as mais baixas. Entre os arguidos da Operação Zeus estão um general e vários coronéis, todos suspeitos de dirigir um grupo constituído em grande parte por sargentos.

“A Força Aérea tinha dentro dela uma estrutura podre a gerir as messes”, declarou Rogério Martinho, sem hesitar em apontar o dedo àqueles que considera ser os principais responsáveis pelo que se passava: o general Milhais de Carvalho e os coronéis que com ele dirigiam, a nível nacional, a Direcção de Abastecimento e Transportes, e que este arguido diz terem cobrado uma verba da ordem dos 500 euros mensais a cada messe para fecharem os olhos ao que nelas se passava. Os dirigentes desta unidade, alguns dos quais terão ganho 1500 euros por mês com este esquema, sentam-se agora também no banco dos réus. “Nunca mexeram uma palha para alterar esta situação”, criticou o major arrependido, explicando que as inspecções que deviam levar a cabo às messes eram combinadas com antecedência, por forma a que os seus gerentes se pudessem preparar.

Gerente da messe da base aérea de Monte Real entre Janeiro de 2013 e Setembro de 2015, calcula ter ganho cerca de 60 mil euros extra durante este período. Diz a acusação que o erário público foi lesado em mais de 2,5 milhões. O major contou como começou por ficar surpreendido com a existência da rede criminosa, e também com a sua extensão, tendo acabado, porém, por alinhar nela. “Equacionei muitas vezes denunciá-la. Mas o primeiro dinheiro que recebi foram 550 ou 660 euros. E depois de receber o dinheiro senti-me preso. Por aselhice minha deixei-me entalar”, justificou o militar.

“Da maneira como funciona – ou como funcionava – a Força Aérea constitui um braseiro para quem serve de tapa-buracos, como foi o meu caso”, disse ainda. Especializado na manutenção dos F-16, o major foi, ao que conta, transferido para a messe de Monte Real contra a sua vontade. O esquema, confirma, esse durava há mesmo muito tempo: “Existia há 20 anos. Quem diz 20, diz 30 ou 40". Quanto aos fornecedores, cobravam à cabeça aos militares entre 20 e 50% dos lucros fraudulentos

Este arguido nunca lidou directamente com Milhais de Carvalho, mas sim com um colega deste, que era, segundo relata, quem ia à sua base duas ou três vezes por ano recolher o dinheiro. Que não era distribuído pelos alegados cabecilhas em partes iguais, mas sim consoante as patentes: “Disseram-me que era um terço para o nosso general, um terço para o coronel Alcides, um sexto para o coronel Santos Lima e um sexto para o capitão Oliveira”.

Antes destas declarações, já o advogado do general tinha desmentido de forma categórica o envolvimento de Milhais de Carvalho: “O Ministério Público construiu um processo sem provas, e tinha necessidade de lá incluir um general”. Porém, tanto o general como a esmagadora maioria dos 68 arguidos se remeteu ao silêncio neste primeiro dia de julgamento. Uma atitude que segundo o advogado do major, Carlos do Paulo, lamenta, e que no seu entender só pode ter uma interpretação: a de que têm alguma coisa a esconder.

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