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Reservas de água: protestos envolvem ambientalistas e polícia francesa em confrontos violentos
Pelo menos sete manifestantes e 47 agentes da polícia ficaram feridos durante protestos em França, no sábado. Há também 200 feridos nas organizações ambientalistas que criticam a construção de mais um grande reservatório para garantir água para a agricultura.
Pelo menos um manifestante corre risco de vida depois dos violentos confrontos com a polícia num protesto, no sábado, contra a construção de uma megabacia em Sainte-Soline, no departamento de Deux-Sèvres, no Oeste de França. Segundo as autoridades, sete manifestantes foram feridos e 47 agentes policiais também. As organizações ecologistas que convocaram o protesto contra a construção de mais um destes polémicos reservatórios para garantir água para a agricultura dizem que há pelo menos 200 feridos, 40 dos quais graves.
Nesta segunda-feira, o colectivo de organizações que convocou o protesto e a polícia continuam a trocar acusações sobre a responsabilidade da situação descontrolada no local onde está a ser escavado o imenso reservatório de água.
Segundo as entidades que convocaram o protesto, 30 mil pessoas participaram. Segundo as autoridades, eram apenas 6000. Mas foram convocados 3000 agentes policiais, da Gendarmerie, para controlar a multidão que manifestava a sua oposição à construção da megabacia de Sainte-Soline, e o local da escavação deste reservatório transformou-se numa batalha campal.
Esta megabacia de Sainte-Soline pode armazenar até 628 mil metros cúbicos de água, ou o equivalente a 250 piscinas olímpicas e é apenas uma das 15 previstas naquela região, para uma capacidade total de seis milhões de metros cúbicos, diz o jornal Le Monde. É um projecto lançado por uma cooperativa de 450 regantes agrícolas, com o apoio do Estado.
O objectivo é armazenar, ao ar livre, água recolhida dos lençóis freáticos pouco profundos, no Inverno, quando chove com maior frequência, para a usar para irrigar as culturas durante o Verão, sem recorrer aos cursos de água existentes. Para os agricultores, nota o Le Monde, estes reservatórios são uma espécie de seguro, sobretudo em anos de seca, como aquela que França está a viver, mesmo durante este Inverno.
Os críticos da construção destas estruturas consideram que se trata de uma privatização dos recursos hídricos, ainda mais para manter um modelo de exploração agrícola discutível, que privilegia os grandes produtores de cereais, nomeadamente de milho. “Estas bacias são injustas porque é uma apropriação e uma privatização da água enquanto recurso por alguns em detrimento da maioria”, afirmou Marine Tondelier, secretária-geral do partido Europa Ecologia-Os Verdes.
Há um estudo de impacto ambiental destes reservatórios feito pelo Gabinete de Investigação Geológica e Mineira, a instituição pública de estudo do solo e do subsolo. Conclui que com estes reservatórios, pode haver uma redução de 5% a 6% do recurso a outros cursos de água, enquanto no Inverno, haveria um aumento de 1% da pressão sobre os rios e outras fontes de água potável.
Mas, explica o Le Monde, o estudo não leva em conta outros factores, como a evaporação da água, que é mais intensa num espaço aberto do que nos lençóis freáticos subterrâneos. Este factor é difícil de prever. Há estimativas de que possa oscilar entre 4% ou 7%, mas também entre 20% e 60%.
Este não é o primeiro protesto que a construção destes grandes reservatórios suscita – não há nenhuma carta destes projectos, mas há pelo menos 25 em actividade e dezenas de outras em projecto, diz o Le Monde. No entanto, este distinguiu-se pela violência dos confrontos entre a polícia e os manifestantes.
Foram usados cocktails molotov e vários tipos de fogo-de-artifício pelos manifestantes contra a polícia, que tentou reprimir agressivamente a manifestação, usando amplamente gás lacrimogéneo e granadas de fragmentação que explodem lançando pedaços de borracha, para tentar dispersar a multidão, e que podem ferir quem é atingido. A polícia usou também quadriciclos, pequenos veículos motorizados de quatro rodas, para tentar controlar os manifestantes.
A Liga dos Direitos Humanos denunciou “um uso imoderado e indiscriminado da força sobre as pessoas presentes”, com o objectivo de “impedir o acesso à bacia, qualquer que fosse o custo humano”. Adiantou ainda que a polícia pôs obstáculos à passagem dos serviços de primeiros socorros para auxiliarem os manifestantes feridos.