Autarca de Boticas diz que mina de lítio é uma “catástrofe” para o concelho

Município pretende lutar até às ultimas consequências para impedir o avanço de um projecto que vai pôr em perigo o selo de Património Agrícola Mundial atribuído à região. Presidente da Câmara diz que está disponível para refutar o projecto “cara a cara”

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Adriano Miranda

O presidente da Câmara de Boticas classificou como “uma catástrofe” a exploração de lítio prevista para o concelho e salientou que esta mina vai contra o Património Agrícola Mundial, distinção conquistada pelo Barroso há três anos.

A Savannah, empresa que quer explorar lítio em Covas do Barroso, concelho de Boticas, anunciou na sexta-feira que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) considerou conforme o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) para a mina do Barroso e que o projecto irá seguir, agora, para consulta pública.

Fernando Queiroga, presidente daquele município do distrito de Vila Real, afirmou à Lusa que o projecto mineiro “representa uma catástrofe” para o concelho e considerou que vai também contra o Património Agrícola Mundial, classificação atribuída ao Barroso a 19 de Abril de 2018 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Não sei se é compatível se não, isso será a FAO a dizer, mas garantidamente que o município de Boticas fará tudo o que estiver ao seu alcance, até às últimas consequências, até às últimas instâncias, para que este projecto não vá avante”, salientou.

A propósito do Património Agrícola Mundial atribuído ao Barroso, que engloba os municípios de Boticas e Montalegre, Fernando Queiroga salientou que “estes foram três anos de excelente promoção deste território”.

“Foi um selo que muito trabalho deu a estes dois municípios, à Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega (ADRAT) e à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e estamos muitos contentes com este selo de distinção único no país. Por nada deste mundo queremos perder este selo”, frisou.

O município tem trabalhado, nos últimos anos, para a promoção turística, do Património Mundial e do seu património natural e tudo isto, segundo o presidente, “é incompatível com a mina”. Na sua opinião, o projecto mineiro “poderá destruir este concelho, o seu património, tirar a riqueza e destruir a qualidade de vida de quem continua a viver” neste território.

“E não me venham dizer que é apenas num canto do concelho e que não afecta o resto porque afecta. Em termos ambientais e de poeiras, por exemplo, vai destruir uma área vastíssima que não fica circunscrita apenas à freguesia de Covas do Barroso”, sublinhou.

Para o autarca, os empregos que eventualmente serão criados com a mina “serão temporários e vão deixar um rasto de destruição”.

Fernando Queiroga disse estar preparado para “cara a cara” refutar o projecto, referindo estar a aguardar a consulta pública do EIA, a qual deverá ser lançada esta semana.

“Estamos defraudados pelo tempo que nos dão, de 30 dias. Vamos trabalhar dia e noite e vamos colocar na mesa os nossos argumentos porque achamos que a razão está do nosso lado. E isto é uma coisa que não se faz ao Interior que já está tão despovoado e ficará ainda mais despovoado”, salientou.

O autarca referiu ainda ter ficado surpreendido com o anúncio da conformidade do EIA, até porque, acrescentou, “um dos últimos pormenores pedido pela APA implicava que a empresa teria que fazer estudos no terreno”. “Ora, eles estão proibidos de entrar no terreno, portanto como é que eles fizeram os estudos?”, questionou.

Na sua opinião, a “empresa está a olhar única e exclusivamente para os seus interesses”. “Perguntei por que a exploração não era subterrânea e foi-me logo dito que não era feito porque isso não era rentável para a empresa. Aqui se vê que só estão preocupados com a rentabilidade da empresa”, frisou.

O projecto previsto para o concelho de Boticas está também a ser contestado pela população local que criou a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) para lutar contra a mina e que já lamentou que a APA tenha declarado a conformidade do EIA, referindo estar a aguardar “com expectativa” a sua consulta pública.

A Savannah Lithium é uma empresa de prospecção mineira que, desde 2017, tem desenvolvido estudos para um projecto de exploração de feldspato litinífero e subsequente produção de concentrado de espodumena na mina do Barroso, cuja concessão existe desde 2006. A Savannah anunciou investimentos de 110 milhões de euros neste projecto. E, no início deste ano, a Galp comunicou o seu interesse em ser parceira, avançando com 5,2 milhões de euros para ficar com 10% da Savannah.

O Barroso foi o primeiro território português a integrar o Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (GIAHS) e um dos primeiros a ser aprovado na Europa. Esta é uma região agrícola dominada pela produção pecuária e pelas culturas típicas das regiões montanhosas, onde se mantêm as formas tradicionais de trabalhar a terra ou tratar os animais.