Creches: recomeçar devagarinho

A protecção física da criança é essencial e requer respeito, mas a protecção da sua saúde mental também é importante.

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@petercalheiros

Com a reabertura das creches já na próxima segunda-feira, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) lançou um conjunto de directrizes sobre as medidas de segurança e prevenção a tomar. O país precisa de começar a mexer, os pais precisam de trabalhar, os avós não podem assegurar os cuidados porque são um grupo de risco, então, para algumas pessoas, não há alternativa senão deixar os filhos na creche.

Certo é que, apesar da necessidade, esta situação poderá ser motivo de grande angústia para pais e educadores porque gera ambivalência. Nenhum pai ou mãe quer que os seus filhos fiquem doentes. No entanto, as condições iniciais propostas pela DGS criaram polémica porque envolviam medidas difíceis de implementar e de assegurar quando se trata de crianças tão pequenas, como a obrigatoriedade de manter um distanciamento, não permitir a partilha de brinquedos ou que as crianças interajam entre si. Surgiu, então, um novo documento que amenizou alguns dos pontos mais polémicos (no caso dos brinquedos, por exemplo, não é preciso que estes desapareçam, a ideia é que haja mais momentos de higienização ao longo do dia), porque, ao que parece, percebeu-se que as crianças querem e precisam de proximidade e de liberdade e privá-las disso seria pedir demais.

Na verdade, a DGS fez o seu papel e definiu aquilo que deve acontecer para proteger e prevenir o contágio pelo coronavírus aquando do regresso das crianças à creche, mas, embora as medidas tenham sido suavizadas, não estou certa de que se isto não for gerido com equilíbrio pelos adultos envolvidos, não irá causar confusão e ansiedade em muitas crianças.

A protecção física da criança é essencial e requer respeito, mas a protecção da sua saúde mental também é importante. Uma criança até aos 3 anos não pode estar continuadamente a ouvir “não toques”, “afasta-te”, “não mexas”, sobretudo e ainda mais quando estas palavras são proferidas por um adulto stressado... Além disso, os adultos estarão de luvas e de máscara, o que é no mínimo bizarro para uma criança e assustador para os bebés, podendo gerar medo.

Por isso, é preciso saber cumprir os cuidados de higiene e de segurança, associando a estes uma boa dose de afecto para que a criança perceba que, embora seja estranho, não representa perigo e, sobretudo, que se sinta segura para poder descontrair.

Esta pandemia ainda irá durar muito tempo, sendo a preocupação dos pais natural e desejada, mas é preciso aceitar que não há risco zero, e quem não tem alternativa para deixar a criança não pode deixar-se imobilizar pelo medo nem pela culpa. Aqueles que por agora conseguem manter a criança em casa terão de ponderar até quando, pondo na balança os riscos e os benefícios de se manter afastada de estímulos importantes para o seu desenvolvimento saudável, como os seus pares, por exemplo.

É preciso aprender a viver com o medo, com equilíbrio, porque é importante temer para proteger, mas sem deixar que o medo se apodere de nós.

Acredito que as críticas à volta deste tema se referem a receios de quem quer fazer bem e cuidar, como a maior parte das educadoras, que viram nas directrizes da DGS um impedimento de estar com os seus meninos como desejavam e, por isso, rejeitaram-nas.

Ficam aqui algumas ideias que pretendem ajudar pais e educadores a lidar com as medidas obrigatórias e a promover um regresso à creche mais agradável às crianças

Educadores:

  • Tire a máscara, em segurança, por um instante e mostre o seu rosto à criança com e sem máscara. Assim ela poderá perceber que é a sua educadora/auxiliar e será mais fácil confiar.
  • Explique às crianças mais velhas o motivo da sala estar diferente e informe que nos próximos tempos será assim. Seja breve e diga apenas que temos de lavar bem as mãos, não mexer em coisas fora de casa, e não levar as mãos à boca, olhos ou nariz.
  • Nomeie todas as emoções que as crianças podem sentir ao encontrar a sala diferente e as pessoas de máscara ou vestidas de forma diferente do habitual.
  • Ao longo do dia, centre-se mais nas emoções positivas do que nas negativas.
  • Valide os sentimentos das crianças, mesmo o medo e a raiva. Ouça com atenção e evite dizer-lhes como elas se devem sentir. Basta dizer: “Eu compreendo que estás com raiva por não poderes brincar com o carrinho amarelo de que tanto gostas.” Tente encontrar uma alternativa possível.
  • Não seja crítica quando as crianças não seguem as normas esperadas, mostre-lhes apenas o que devem fazer.
  • Ensine-as a colaborarem: se elas perceberem que lavar as mãos e evitar tocar no rosto dos colegas é uma regra importante para todos ficarem bem, aumenta o seu sentimento de controlo e a sua colaboração.
  • Ensine as crianças a demonstrarem afecto verbal, por exemplo, “Gosto muito de ti, Gabriela”.
  • Observe e elogie quando as crianças colaboram, são pacientes, persistentes, criativas e afectuosas.
  • Tente seguir a sua estrutura diária, mas não seja muito exigente consigo ou com as crianças. É natural que nos primeiros tempos as coisas não corram conforme o planeado. Seja paciente.
  • Relembre às crianças os aspectos positivos do regresso à creche, como voltar a reencontrar amigos e a educadora
  • Evite as conversas sobre o vírus e caso a criança pergunte ou fale no assunto não ignore, mas tranquilize-a dizendo que os adultos estão a cuidar das crianças.
  • Outro aspecto que também não deve ser negligenciado e que seguramente todas as educadoras já pensaram é que o choro vai aumentar. Será exigido paciência e capacidade de gestão desta situação também.
  • Caso um adulto se encontre muito tenso, deverá afastar-se das crianças porque elas irão perceber e podem ficar igualmente tensas, dificultando a sua integração.
  • Ensine as crianças a usarem a “carapaça da tartaruga” para auto-regularem-se e acalmarem-se. Esta técnica está descrita no livro Como Promover as Competências Sociais e Emocionais das Crianças, do programa Anos Incríveis de Carolyn Webster-Stratton, e funciona assim: peça às crianças para imaginarem que têm uma carapaça como uma tartaruga, para onde podem retirar-se quando estão a ficar irritadas ou muito agitadas. Depois, peça-lhes para irem para as suas carapaças imaginárias, para respirarem fundo devagar, três vezes, e dizerem: “Pára, respira fundo, acalma-te.” À medida que as crianças estiverem a respirar lentamente, peça-lhes para se concentrarem na sua respiração e para empurrarem o ar para os braços e para as pernas de modo a relaxarem os músculos. Enquanto as crianças continuam com esta respiração lenta, treine-as a dizer: “Eu consigo acalmar-me.”

Pais:

  • Mostrem à criança que confiam na creche/educadora. Se os pais mostrarem segurança acerca das medidas e acções tomadas, será mais fácil para a criança confiar também.
  • Preparem-se para o choro à chegada e para lidar com a ansiedade de separação quando deixam a criança na creche. É esperado que, após um período prolongado de contacto exclusivo com os pais, as crianças mais novas apresentem stress aquando da separação. Tenha calma e não fique preocupado.
  • Explique que irá deixá-la na creche na segunda-feira para brincar com os colegas e ao fim do dia irá buscá-la.
  • Em casa, faça pequenos momentos de separação física, ficando no quarto e deixando a criança em segurança na sala durante alguns minutos.
  • Ajude a criança mais velha a imaginar como será regressar à creche (por exemplo, o que vai fazer, com quem vai brincar).
  • Mantenha as rotinas da criança.
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