Ai, os fluidos corporais
Um cineasta talentoso em busca da transcendência estampa-se ao comprido no ridículo absoluto: Love
Reconheça-se a Gaspar Noé a sua busca de um cinema experiencial, sensorial, que transcenda a simples narrativa e funcione como um Gesamtkunstwerk misto de trip psicadélica traduzindo a sua peculiar mundivisão. Precisamente por isso, contudo, é que não se lhe deve perdoar a absoluta inanidade de Love, onde a busca da transcendência se estampa ao comprido depois de escorregar numa poça de todo o tipo de fluidos corporais.
Incapaz de distinguir “género humano” de “Manuel Germano”, Love nem consegue morrer na praia porque nunca chega verdadeiramente a zarpar do porto: nem a cuidada estilização do trabalho visual de Benoit Debie nem a estrutura do filme como uma espécie de versão contemporânea do Betty Blue de Jean-Jacques Beineix compensam a catástrofe de uma trindade de actores desastrosos incapaz sequer de alcançar os “mínimos olímpicos” e que Noé, perdido nos labirintos de uma meta-referencialidade cinéfila que apenas sublinha a vacuidade pomposa do seu projecto, parece nem sequer se preocupar em dirigir. É, indiscutivelmente, um tiro no pé de um cineasta que já provou ser capaz de muito melhor.