O novo Tsipras é um homem de Estado?

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Não foi uma simples jogada de póquer como o referendo de 5 de Julho. Ele precisa de uma nova maioria para executar um novo programa. O Syriza venceu as eleições de Janeiro com um programa impossível: pôr termo à austeridade e manter a Grécia no euro. Na véspera da entrada em vigor do “terceiro resgate” — nos antípodas do antigo credo —, tem necessidade de renovar a sua legitimidade e de referendar o novo acordo.

A sua “capitulação” em Bruxelas, na cimeira de 13 de Julho, foi algo exagerada. O acordo foi “menos mau” do que os anteriores, que impunham sobretudo cortes na despesa, enquanto este dá prioridade à correcção das anomalias estruturais do Estado. Sem modernizar o Estado, não há mudança nem recuperação económica. Sobre a viabilidade do “terceiro resgate” há legítimas dúvidas. Só a credibilidade do Governo de Atenas — com a ajuda do FMI na redução da dívida — poderá levar à sua correcção. 

2.

Tsipras sabe que foi irrealista e irresponsável nos seis primeiros meses do seu mandato, perdendo quase todas as apostas e colocando a Grécia à beira do colapso bancário. Hoje, os dirigentes gregos começam a reconhecer os erros. Disse no Parlamento aos deputados do Syriza que a saída do euro equivaleria a uma catástrofe económica e social para o povo grego. “Quem não aceite isto, ou está completamente cego ou está a esconder a realidade.”

Na segunda-feira, reconheceu que durante seis meses Atenas calculou erradamente a relação de forças na Europa. No mesmo dia, o vice-presidente Yannis Dragasakis afi rmou que o Governo voltou a errar ao ameaçar os parceiros europeus com o Grexit ou com a perspectiva de uma vaga de pânico nos mercados. Os parceiros sabiam que quem mais temia o Grexit eram os gregos e por isso foi o alemão Schäuble a pôr a ameaça em cima da mesa.

As consequências foram pesadas para Tsipras. “Imolou tudo: credo ideológico, promessas eleitorais, a coesão interna do Syriza e da sua maioria parlamentar”, resumiu a jornalista italiana Adriana Cerretelli. Mas “teve a coragem da capitulação, só, contra todos.” Não é o primeiro governante que, perante o choque da realidade, muda de ideias e de estratégia. Algumas dessas viragens ficaram na história como exemplos de coragem. De resto, a larga maioria dos gregos aprovou Tsipras porque, entre as promessas incompatíveis, optou pelo euro. Por isso, a capitulação transformou-se em vitória e, assim, pôde fazer aprovar os acordos no Parlamento. A viragem de Tsipras tem inesperados ecos internacionais. Por um lado, soube tornar-se o “grego indispensável” para os parceiros europeus. Inversamente, enfraqueceu os movimentos “anti-austeridade” a quem servia de “farol” e que não esconderam a decepção. Mais inteligente, o Podemos espanhol exprimiu na sexta-feia uma incondicional solidariedade a Tsipras. 

3.

Tsipras nada tem a perder. Beneficia de uma elevada taxa de aprovação (61%) e o Syriza está na casa dos 35%. Os partidos da oposição estão desacreditados. A Nova Democracia (conservadores) está a 20 pontos do Syriza. Por isso, e antes que se sintam os primeiros efeitos impopulares do resgate, o Syriza tem interesse em precipitar eleições. Em política, a popularidade vai e vem. Por outro lado, ao afastar um congressodo Syriza em Setembro, tira o tapete aos adversários forçando-os a combater no terreno que menos desejam: o eleitoral.

“A fractura no seio do partido era cada vez mais evidente e Tsipras precisa de um Governo estável se quer fazer passar todas as medidas necessárias e permanecer no Governo durante uma legislatura normal [quatro anos]. Precisava de clarificar as coisas e afastar os dissidentes”, explicou o analista George Sefertzis. Como vai sair o Syriza desta crise? “A componente radical vai ser marginalizada ou excluída. 

Por outras palavras, o Syriza vai deslocar-se para o centro-esquerda do tabuleiro político”, prevê o geopolítico Georges Prevelakis. A mais áspera batalha vai ser a travada entre Tsipras e o movimento Unidade Popular, acabado de fundar e que reúne a facção anti-euro do Syriza. Esta pouco pesa em votos, mas fará uma política de “terra queimada”. Uma incógnita é a votação da Aurora Dourada (neonazi). 

4.

Se vencer, Tsipras terá pela frente uma lista impressionante de reformas que modernizariam a Grécia e eliminariam os “cancros” do clientelismo, da corrupção ou da evasão fiscal. Não se trata apenas de reformas económicas mas da reestruturação do Estado — da Justiça à Segurança Social. Estas reformas não se farão sem grandes resistências sociais e políticas. Enfim, será forçado a fazer aquilo que os seus antecessores do Pasok e da Nova Democracia não quiseram ou não tiveram a coragem de fazer.

Os parceiros europeus da Grécia passaram a apreciar Tsipras mas não escondem o cepticismo perante a sua capacidade de cumprir os compromissos. A Grécia é um país institucionalmente débil, explica o historiador Stathis Kalyvas. O Estado foi “capturado” por gigantescas redes de interesses que obtêm isenções e benefícios de toda a ordem. Se o Estado não era capaz de reformar-se, também a sociedade o não exigia, bem pelo contrário. A diferença — favorável a Tsipras — é que a Grécia está à beira do precipício. Os gregos perceberam-no durante os meses de Junho e Julho. 

O êxito ou o fracasso dependerão também da inteligência política dos parceiros europeus, que se habituaram a encarar a Grécia como uma espécie de “Estado falido” a quem seria legítimo impor diktats que os gregos encaram como uma ingerência na sua soberania e na sua democracia. O passado não é brilhante.

Nos últimos dois meses, Tsipras demonstrou ser um extraordinário táctico. Conseguirá agora passar da pele de agitador político para a de homem de Estado? Saberá conduzir simultaneamente duas provas de força, perante os alemães e perante os gregos? As pessoas têm necessidade de fé. Escreve o jornalista Christos Loutradis: “Tsipras tem de tomar medidas que os antecessores falharam, lançando a Grécia na destruição durante décadas. Além disso, os gregos percebem que o jogo de recriminações com a União Europeia, e particularmente com a Alemanha, é um beco sem saída em que há um único perdedor: a Grécia.”

Conclui: “Este é o maior desafi o da sua carreira política. Se conseguir, tornar-se-á no primeiro chefe de Governo a transformar a Grécia num Estado europeu e será o líder da próxima década. Se não, terá sido um pequeno interlúdio antes da vingança dos extremistas.” 

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