Azeite: nova lei só permite galheteiros invioláveis nos restaurantes

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A gordura tem de ser servida em embalagens invioláveis DR

O azeite que os consumidores usam no prato como tempero à mesa dos restaurantes tem que ser acondicionado em embalagens que se esgotam numa única utilização (unidoses) ou que não podem ser novamente enchidas, segundo a portaria publicada há um ano e que entra hoje em vigor.

Para Pedro Domingues, da Associação Portuguesa do Direito do Consumo (APDC), a nova lei "salvaguarda acima de tudo a saúde dos consumidores" e deveria estender-se ao vinagre por razões de higiene.

Os empresários da restauração têm vindo a adaptar-se à exigência de maiores cuidados com o azeite, mas mantêm algumas preocupações, segundo Susana Ferreira, da Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP). "São os custos mais elevados, porque comprar embalagens individuais não é a mesma coisa do que comprar embalagens maiores", explica.

Por outro lado, há também dificuldades gastronómicas, apesar de a portaria não se aplicar ao produto utilizado na cozinha para confeccionar os pratos. "O azeite quente com alho deixa de poder ir à mesa", exemplifica a responsável da ARESP, entidade que representa perto de um quarto dos empresários do sector.

Não obstante as preocupações que existem na restauração, a ARESP reconhece vantagens na nova forma de apresentar o azeite ao consumidor. A maior higiene e o acréscimo de informação sobre o azeite são alguns dos benefícios das novas embalagens, aponta Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite - Associação de Azeite de Portugal.

A exposição prolongada em esplanadas ou a pouca frequência na lavagem das garrafas eram situações correntes que podem levar a que a gordura natural perca as características originais, refere Mariana Matos.

"Às vezes temos a percepção que estragamos um bom peixe grelhado com um azeite que não estava em condições", afirma a mesma responsável da associação que representa 95 por cento do azeite de marca embalado em Portugal. Para contribuir para o esclarecimento dos gestores e proprietários de restaurantes sobre a nova lei, a Casa do Azeite promoveu perto de 20 acções de formação.

Em três dos quatro restaurantes contactados pela agência Lusa, os galheteiros tradicionais já foram retirados das mesas. "Já só uso umas garrafinhas com azeite que são invioláveis. Acho que é mais higiénico, mas para nós sai mais caro. O azeite a granel sempre é mais em conta", comentou o proprietário do David da Buraca.

Também no restaurante Abadia, no Porto, as "garrafinhas de azeite em miniatura" ocupam as mesas dos clientes há quatro ou cinco meses. Além de considerar as novas embalagens mais higiénicas, o dono do Real Feitoria, em Bragança, alerta para o facto de os galheteiros poderem prejudicar a qualidade do azeite e enganar os consumidores: "Em muitos sítios não se sabe o que podem colocar lá dentro."

Só no Doce Pecado, em Lisboa, ainda era ontem possível temperar à maneira antiga. "Tenho conhecimento da portaria e sabia que entrava em vigor este ano, mas não sabia exactamente qual a data", contou o gerente deste restaurante, alertando para o facto de o controlo ter de passar a ser feito nas empresas embaladoras.

A recém-criada Autoridade de Segurança Alimentar e Económica é a entidade fiscalizadora das novas embalagens do azeite. A presença do tradicional galheteiro pode levar a multas entre os 750 euros e os 44.890 euros.

As marcas de azeite também se prepararam para responder às novas necessidades dos restaurantes. O azeite Gallo, líder de mercado, já tinha entre os seus produtos uma embalagem própria para tempero, mas alargou a sua gama para "poder cobrir a maioria dos operadores de restauração", explicou ao PÚBLICO Pedro Cruz, director da unidade de negócio de azeite e gorduras alimentares da Fima, que comercializa a marca Gallo. Garrafas em vidro (com cápsula inviolável), garrafas em plástico (mais pequenas), bem como saquetas fazem agora parte do catálogo da marca portuguesa.

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