Agricultura lusitana

As Aldeias do Xisto já são uma marca e estão na feira de design em Karlsruhe, na Alemanha

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Pernas para Que te Quero — a Revolta dos Legumes: técnica mista, lastra e modelagem. Grés feldspático e vidrados. Casa da Olaria de Ana Lousada e Carlos Neto em Alcaria, Porto de Mós
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Ceifa, de Patrícia Gorriz (Lisboa). Joalharia em prata e couro
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Almotolia: Regador / Abat-jour . Peças em cobre desenhadas por António José Faria da Cunha e produzidas pela Casa Luzarte (Catraia de S. Paio, Oliveira do Hospital)
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Projecto Dez, grupo de alunos da UBI: Fábio Pereira e Hélder Gutierrez
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Livro Benfeita, grupo de alunos da ARCA EUAC de Coimbra: Adriana Cardoso, Bruno Simões, Joana Graça e Rodrigo Baptista
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Cabrada, conjunto de peças em faiança. Grupo de alunos da ESAD: Ricardo Paulino, Rita Martins e Tânia Martins
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Árvore, de Nuno Alves, da Oficina Objectos Improváveis, Fundão
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Figueira Memory, mochila/lancheira em linho, couro e cortiça. Grupo de alunos do IADE (Lisboa): Giuseppe Sardone, João Correia
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Herbarium, Flora do Xisto / Aves do Xisto; de Vanda Vilela. Individuais e bases de copo em papel de sementes produzidos pela Fab Lab Aldeias do Xisto
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Semente, de Cristina Fonseca. Cestaria em tiras de madeira de castanho. Pernigem, Sintra

Onde o xisto predomina no desenho da paisagem natural, reuniram-se 27 aldeias, deram um nome à identidade territorial comum — Aldeias do Xisto — e afirmaram-na como marca que pretende criar a sua própria dinâmica de sustentabilidade, numa rede apoiada pela Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto (Adxtur). O turismo funciona aqui como um veículo dinamizador, gerando receitas, mas não com um princípio e um fim em si mesmos. O objectivo é preservar o património (material e imaterial), incentivar as actividades locais e, acima de tudo, criar condições de vida contra a desertificação, para que estas aldeias não desapareçam. E é para este cenário que a marca chama “novos actores” a intervir sobre o território, através do conhecimento e da implementação de práticas, seguindo três vertentes de actuação: estratégica (posicionamento da marca como referência de sustentabilidade), social (chamando novos intervenientes) e de produto (criando produtos e serviços).

É já o terceiro ano em que designers seguem este desígnio. Coordenado pelo designer João Nunes, o projecto deste ano, Agricultura Lusitana, centra-se na relação “craft+design+identidade”. À equipa de designers e aos 22 ateliers de crafts juntaram-se alunos e professores de nove escolas superiores de design e que se deslocaram à região para observarem a sua identidade própria, escolherem uma área ou tema, aplicarem a sua metodologia e apresentarem um produto que se poderia traduzir em objecto ou não. É a relação com a naturalidade e autenticidade da terra que lhes interessa promover e os resultados que se traduziram materialmente em peças. João Nunes descreve-os como “objectos significantes para continuarem a falar de nós”.

As peças cerâmicas de Ana Lousada e Carlos Neto são uma sátira em que os legumes ganham estatuto revolucionário, e a agricultura é o campo onde se trava a batalha contra a escravatura da globalização. São peças moldadas a partir da sua forma natural, preservando desenho e texturas.

António José Faria da Cunha trabalhou com a Casa Luzarte de Catraia de S. Paio, Oliveira do Hospital, enrolou folhas de cobre, seguindo o processo artesanal de fabrico de peças como a almotolia, o regador e um abat-jour, e atualizou-lhe o desenho.

A semente, pela qual se inicia o ciclo da agricultura e como símbolo do potencial de vida, foi a metáfora usada por Cristina Fonseca para revitalizar a cestaria. “Semente” é uma peça que usa a folha de castanho entrelaçada numa combinação de técnica tradicional e contemporânea e que pretende não deixar a cestaria esquecida. As sementes também entram na composição das folhas de papel que Vanda Vilela usou para os individuais e bases de copos em que o desenho das espécies autóctones das Aldeias do Xisto aparece recortado. Este papel resiste a algumas utilizações e no fim, se for parar à terra, germina.

Numa combinação de técnicas, em que a tradicional se alia à alta tecnologia, os três bancos Árvore da Oficina Objectos Improváveis (Fundão), de Nuno Alves, são um convite aos serões do mundo rural, passados em frente à lareira. A madeira de castanho trabalhada artesanalmente é impressa a laser com a imagem de uma árvore que se completa quando os assentos se juntam.

As peças que se usavam junto ao corpo, as dedeiras com que as mulheres protegiam os seus dedos durante a ceifa, Patrícia Gorriz tornou-as jóias. Originalmente feitas em couro, reproduzem-se agora numa colecção feita em prata.

O trabalho desenvolvido pelos alunos das escolas de design resultou num espólio bastante revelador da capacidade que estes futuros designers têm em se aproximar do terreno e cultivarem conceitos. O grupo da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD) identificou a tradição da criação de caprinos da aldeia de Ferraria de S. João e desenvolveu um conjunto de peças cerâmicas ligadas ao consumo do leite e queijo. A cerâmica também serviu de suporte à tradução da técnica do entalhe, tradicional da Aldeia das Dez, onde os alunos da Universidade da Beira Interior (UBI) resolveram imprimir relevo nas costas de pratos brancos.

Uma mochila em linho agarrada a uma lancheira de cortiça para um passeio pela região, um espaço de contemplação, observatório nas noites estreladas na aldeia de Fajão, em plena serra do Açor, um livro em que se vão registando memórias de quem viveu na aldeia da Benfeita... são muitos ainda os resultados daquilo que aproximou pessoas e lugares, e que não os deixa esquecidos.

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