Atenção: o ar está cheio de propaganda

O livro retratava o modo como nos países socialistas, da URSS a Cuba, passando pela China, se usavam os intelectuais para os tornar instrumentos não voluntários de propaganda dos regimes comunistas. Uma parte considerável fazia propaganda porque queria, mas Hollander analisa os mecanismos involuntários, muito mais interessantes e acima de tudo muito mais eficazes para os tornar porta-vozes de regimes políticos com que muitos deles nem sequer simpatizavam. A vaidade era um dos mecanismos mais usados, tratando intelectuais e literatos menores como se fossem gigantes da literatura, em claro contraste com a importância e a reverência que lhes era dada nos seus países de origem. O resultado da lisonja era uma predisposição para aceitar a manipulação e reproduzir a propaganda.

Um dos exemplos deste tipo de comportamentos, mais sofisticado, encontrava-se num célebre crítico culinário, de um dos grandes jornais americanos, conhecido anticomunista e que foi convidado pelos chineses. Chegado à China, ofereceram-lhe uma viagem em que lhe foram servidas as maiores iguarias da cozinha chinesa. O resultado foi uma série de artigos do crítico maravilhado, descrevendo as qualidades excepcionais das refeições que lhe serviram, a confecção, os ingredientes, a aparência, tudo do melhor que havia. O anticomunismo do crítico sofisticado do jornal ficou pelo caminho e os artigos que escreveu acabaram por corresponder aos desejos dos anfitriões. Fora da cozinha e da mesa, deixou de haver China, comunismo, repressão, violência.

A apresentação do orçamento de estado, complementado em simultâneo com dois conjuntos de legislação com impacto orçamental, mas separadas do corpo principal, as mudanças no IRS “pró-família” e a “fiscalidade verde”, tem tido efeitos parecidos com a complacência do crítico americano com o comunismo chinês, obtida por via da comida. Trata-se de uma operação em que a realidade, a dura e crua realidade de que nos espera mais um ano de extrema austeridade, disfarçado com uma nuvem cor de rosa de palavreado, distracções, disfarces e mesmo mentiras, usando em pleno todos os mecanismos com que se pretende manipular a opinião pública. O resultado é um ar ainda mais poluído pela propaganda, nem sempre muito sofisticada, como os pratos chineses, mas adaptada às características dos que a servem ou a provam.

Começa pela apresentação simultânea de três documentos: um péssimo, um mau e um bom. O péssimo é muito péssimo e é o Orçamento, de longe o mais importante dos três. O bom documento contém as mudanças pró-família do IRS. O mau é o aumento dos impostos da “fiscalidade verde”. Embora possa haver argumentos técnicos para separar as medidas do IRS do Orçamento, a verdade é que noutras alturas o governo não o fez. O objectivo neste caso, para além de poder concentrar a atenção no “bom” papel e ocultar os “maus”, é usá-lo para entalar o PS: então o PS nega-se ao “consenso” sobre medidas favoráveis à família? Não pode. E assim se obriga a oposição a dar caução ao “bom papel” e amenizar, por essa caução alargada, o efeito negativo do conjunto do Orçamento. Canaliza-se a discussão para o que interessa ao Governo e, queira-se ou não, favorece-se uma interpretação benigna do conjunto do Orçamento.

Quanto à “fiscalidade verde”, faz-se o mesmo que habitualmente se faz com os chamados “impostos do vício”, o politicamente correcto do “verde” ajuda a legitimar mais um aumento de impostos puro e simples. E aí ficamos distraídos com os sacos de plástico, muitos dos quais já são biodegradáveis e por isso “verdes”, e falamos menos dos aumentos nos combustíveis e nos transportes. Ao destacar este diploma, pode-se assim dizer que não há aumentos de impostos no Orçamento, visto que a “fiscalidade verde” fica à parte. Na verdade, no cômputo global dos três documentos, mesmo incluindo o “bom”, a carga fiscal aumenta, visto que se vai buscar mais dinheiro do que o que se devolve às famílias. Ou seja, o dinheiro que os portugueses vão pagar ao estado aumenta. Como é que é assim possível que o Primeiro-ministro e a Ministra das Finanças e os seus propagandistas digam que não há aumentos de impostos? É possível apenas porque somos complacentes com a mentira, tão habituados estamos a viver no seu seio.

Depois há vários truques habituais e um truque novo, mas com os métodos habituais. O chamado “cenário macro-económico” é tido por quase todos os economistas e por várias instituições como “irrealista” ou como não-credível, o que não é de estranhar visto que nenhum dos anteriores cenários do mesmo tipo feitos por este governo acertou. Os mais amigos do governo limitam-se a dizer que, se essas previsões acertarem, é porque se deu um “milagre”. Eu sei que há economistas que acreditam em milagres, mas não vi Nossa Senhora descer em pleno conselho de ministros. Sendo assim, como é possível titular, sem aspas ou autoria, que no próximo ano o crescimento será de X, ou que o desemprego descerá Y, misturando assim na mente das pessoas uma previsão com a realidade? A propaganda faz-se destas confusões. Umas vezes usa-se um critério, outra vez outro, umas vezes é uma percentagem de um número, outras vezes de outro, umas vezes compara-se com um  ano, outras vezes com um outro, umas vezes compara-se com um número real, outras vezes com uma previsão que nos dá jeito. Era uma especialidade de Sócrates, é uma especialidade de Passos Coelho.

Estes truques já são velhos, mas servem sempre para aumentar a confusão, o “manto diáfano da fantasia” que esconde o núcleo duro da verdade. Outras mentiras ajudam ao serviço, a das medidas “provisórias” que são definitivas, e a nova versão de continuar a tirar no presente e prometer que no futuro se dará o que se tirou. A única verdade, absoluta, certeira, sólida, densa, pesada, é que este Orçamento é mais um de muitos, se incluirmos a sucessão reveladora de rectificativos, todos da mesma a natureza, destinados a cobrir falhanços, feitos com muita incompetência, muito dolo, muito engano, muita propaganda, muitas ideias péssimas.

Começaram por ser apresentados como orçamentos salvíficos do “homem novo” liberal, que ia “libertar” a economia, acabar com os que viviam à custa do estado e dos “direitos adquiridos” e alcandorar, à vanguarda da nação redimida, os empreendedores. A troika era apenas um bem vindo milagre externo para ajudar à redenção do país dos “piegas”. Depois, à medida que as coisas iam falhando, passou-se aos orçamentos “obrigatórios” da troika, vista agora como jugo.

Lamento, mas não acredito em nada do que estes senhores dizem. E quando não se acredita neste logro institucionalizado, a nossa cabeça passa a pensar com meridiana clareza. Já não acredito há muito tempo e não acreditando, engano-me muito pouco. Pode parecer soberba, mas é puro bom senso, ou, quando muito, alguma atenção aos homens, aos actos e às palavras. Nunca me esqueço que o criador deste governo e deste Primeiro-ministro se chama Miguel Relvas, com a ajuda prestimosa de José Sócrates. Nunca embarquei nas medidas “provisórias” e disse sempre que seriam definitivas até ao Tribunal Constitucional lhes por um travão. Nunca acreditei nas “reformas estruturais” que nunca passaram de despedimentos e cortes. Nunca aceitei chamar "poupanças”, nem “cortes nas despesas” aquilo que eram apenas cortes cegos, muitos dos quais de vão pagar muito caro, em novas despesas, como se vê na justiça, na educação, nos serviços públicos. Nunca aceitei chamar “ajustamento” ao empobrecimento e destruição da classe média, e no enclausuramento dos pobres numa redoma de assistência e caridade. Nunca deixei de olhar para os meus concidadãos e ver aquilo que as estatísticas revelam, mas revelam mal: a vida estuporada, até ao fim dos seus dias, de muitos e muitos, em nome de experiências, ilusões e incompetências, para chegar aos dias de hoje e terem que ver servidos, no seu imaginário prato, mais do mesmo. Sem uma reforma do estado digna desse nome, sem uma melhoria de nada, sem nenhuma transformação estrutural. Apenas mais engano e propaganda, sem convicção sem ânimo.

Quando cada vez mais leio os propagandistas do regime, os maiores e os menores, a culparem o país e os portugueses, essa turba de amantes do “estado” que não querem reformas, que não se deixam governar, que são medíocres e … piegas, eu percebo muito bem que para eles soa já ao fim. Eles são bons, o país não os merece. E é verdade, o país não os merece. Merece muito melhor.

 

 

 

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