Disponível para o kung-fu

Houve um tempo que o cinema de Wong Kar-wai parecia novo, vibrante, e provido de um sentido próprio. O tempo da sua descoberta na Europa, anos 90 e filmes como Chungking Express, que trabalhavam sobre efeitos de “contemporaneidade” (a “saturação” das imagens, a “aceleração” da vida, o “caos” dos grandes espaços urbanos) para lhes arrancar, contra todas as expectativas, uma dimensão poética, e uma beleza tão mais radiosa quanto mais achada na relação entre as personagens, a cidade e a noite de Hong Kong (ou de outros lugares, como a Argentina de “Happy Together”). Depois, Wong fechou-se no estúdio, com melhores (Disponível para Amar) ou piores (2046) resultados, mas em qualquer caso para um cinema que era já outra coisa, assente num romantismo artificioso, mais “retro” ou mais “futurista”, que cortava declaradamente a ligação entre a “arte” e a “vida”, escolhendo a primeira (o que costuma ser má escolha). My Blueberry Nights, pálida tentativa de transportar para um cenário americano algumas das qualidades dos seus primeiros filmes, mostrava um Wong em seca criativa, limitado ao resgate de um sentimentalismo de auto-imitação.


A pergunta que nos fica depois de vermos O Grande Mestre é se Wong Kar Wai desistiu definitivamente, e se se vai conformar com o papel de caucionador artístico de grandes produções. O Grande Mestre é uma grande produção, obviamente uma peça importante no esforço que a indústria chinesa (ou as indústrias chinesas, se se preferir: trata-se de uma co-produção: Hong Kong/República Popular) tem vindo a desenvolver para competir com Hollywood usando as mesmas armas. Guerra comercial, mas obviamente também uma guerra cultural, que é o que, por mais desinteressantes que sejam os filmes, torna este processo curioso de seguir - é graças aos filmes chineses feitos a pensar numa audiência global que o resto do mundo se vai familiarizando com referências chinesas, passadas e presentes, que até há pouco tempo seriam exclusivo de sinólogos. Aqui tira-se da manga, nesta luta por uma “fatia de mercado” no imaginário global, um trunfo de peso: Yip Man, lendário mestre do kung fu e das artes marciais, que teve por discípulo Bruce Lee. Um “biopic”, no sentido lato do termo, super-ambicioso como produção, super-enfadonho como resultado.

Wong, voltando ao estúdio e à reconstituição retro, quer casar uma forma de intimismo com a acção e a espectacularidade do kung fu. Mas não se vê senão efeitos, trejeitos, como se cada ângulo de câmara menos ortodoxo e cada sequência de montagem mais acelerada fossem tudo o que Wong pode garantir como assinatura “artística”. A dramaturgia é desenxabida, as personagens vivem mal (Tony Leung, “actor fetiche” de Wong que interpreta o protagonista, nunca foi tão cinzento), e a acção, de tão estilizada (na pior acepção do termo), perde todo e qualquer sentido físico, é efeito especial e em caso algum “efeito humano”. Pura “hipertrofia da superfície”, como diria o bom velho Skorecki, e para lá disso, praticamente nada. Se Wong Kar-wai vai ser o novo Zhang Yimou, então podemos desistir já.

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