Contos da floresta negra

A melhor prova de que o segundo filme da australiana Cate Shortland é uma das grandes surpresas deste ano de cinema é o modo como a sua ambiguidade cuidadosamente calibrada continua a ecoar muito depois da sua visão. Essencialmente a história de uma adolescente que a experiência da guerra força a crescer demasiado depressa, Lore é uma espécie de conto de fadas distorcido onde o Capuchinho Vermelho atravessa um país em convulsões para chegar a casa da avózinha, só que este Capuchinho tem muito de lobo mau e que a personagem que achávamos ser o lobo mau pode afinal ser o caçador protector. Erguida a chefe da família com o desaparecimento dos pais, a adolescente Lore tem de guiar os quatro irmãos e irmãs mais novos pelo meio da guerra até à segurança, encontrando pelo caminho um jovem mais velho que assume espontaneamente o papel de protector masculino. O seu percurso pelas estradas enlameadas e pelas aldeias empobrecidas de um país derrotado é uma entrada brutal na idade adulta e um adeus definitivo a uma inocência que, tarde demais, Lore compreenderá ser irrecuperável (simbolizada no veado de porcelana que transporta como símbolo da salvação possível).


Simplesmente, estamos na Alemanha vencida da II Guerra Mundial, logo após o suicídio de Hitler. Lore é a filha de um oficial das SS, educada nas Juventudes Hitlerianas. Thomas, o jovem que assume a protecção dos cinco irmãos, viaja com documentos de judeu. E a viagem de Lore em direcção à segurança (adaptada de uma novela de Rachel Seiffert) é também a descoberta do mundo fora da “bolha” do Reich de Mil Anos, um lento abrir os olhos para uma realidade não mediada pelo filtro de uma educação ideológica. Cada passo deste percurso iniciático confronta-a com as consequências “no mundo real” da ideologia em que foi criada, com a necessidade de, pela primeira vez, escolher o seu lado, tomar o seu partido: ser Lore, a adolescente em crescimento, ou Hannelore, a filha do nazi.

Ao forçar-nos a acompanhar o ponto de vista de Lore nesta “via sacra” da Floresta Negra ao Mar Báltico, Cate Shortland propõe uma leitura, de grande sensibilidade mas também calculadamente (talvez calculistamente?) desafiadora, sobre as questões fulcrais da passagem à idade adulta. Uma leitura que se abre à experiência humana sem maniqueísmos fáceis nem soluções de compromisso, que se ancora por inteiro numa ideia de limiar, fronteira entre dois estados, como se o solo estivesse em constante e imprevisível movimento debaixo dos pés de Lore. A câmara móvel de Adam Arkapaw e a atenção de Shortland aos mínimos detalhes dos seus jovens actores (e Saskia Rosendahl é extraordinária no papel principal) transformam Lore numa inversão de Alice no País das Maravilhas e partilham o mesmo modo lateral e distante de olhar para a experiência da guerra de filmes como Os Fugitivos de André Téchiné ou Esperança e Glória de John Boorman. Nunca Salto Mortal, a estreia da realizadora australiana, faria esperar um objecto tão notável como Lore: um dos melhores filmes que estrearam e vão estrear este ano em Portugal.

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