Ferro Rodrigues considera que Cavaco não tem sabido ouvir a vontade do país

Antigo secretário-geral do PS critica momentos que o Presidente da República escolheu para falar. Sobre o futuro, diz que quer os socialistas no Governo mas com grande representatividade porque a “alternância” não chega.

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Ferro Rodrigues quer plataforma alargada que defenda a reestruturação da dívida pública Enric Vives-Rubio

“O Presidente da República não tem sabido ouvir a vontade do país. Como se demonstra, nos últimos meses, a evolução tem sido dramática para o prestígio das instituições democráticas, não apenas do próprio Presidente da República, como do Governo e da Assembleia da República”, aponta Ferro Rodrigues numa entrevista à agência Lusa.

Entre outros pontos, Ferro Rodrigues discorda da interpretação de Cavaco Silva sobre os poderes presidenciais em relação à manutenção dos governos. “Compreendemos quando diz que desde a revisão constitucional de 1982 há uma mudança nos poderes do chefe de Estado na relação do Presidente com o Governo. Mas, depois disso - e embora tenha havido algumas divergências com ele por parte de mim próprio -, o ex-presidente da República Jorge Sampaio utilizou os seus poderes presidenciais em determinado momento com generalizado aplauso da opinião pública”, argumenta, numa alusão à queda do executivo de Pedro Santana Lopes no final de 2004.

Ferro Rodrigues entende que Cavaco Silva “está neste momento bastante mais envolvido nas políticas do Governo, o que é um pouco contraditório com aquilo que tem vindo a dizer”. “O Presidente da República não apenas alertou para a espiral recessiva que estava a fazer o seu caminho, como também mandou para o Tribunal Constitucional um pedido de fiscalização sucessiva [do Orçamento]. Há uma atitude que parece contraditória”, aponta o ex-líder socialista.

O ex-secretário-geral considera ainda que “óbvio” que há “uma relação, pelo menos do ponto de vista público, bastante diferente entre o Presidente da República e este Governo e o Presidente da República, o mesmo, e o anterior Governo”.

Questionado se considera que foi o processo Casa Pia e a decisão do ex-Presidente da República Jorge Sampaio de nomear o Governo de Pedro Santana Lopes em 2004 os factores que o impediram de ser depois primeiro-ministro, Ferro afirma que considera essas “etapas encerradas”. “É evidente que se pode especular o que teria acontecido neste ou naquele cenário, mas não passa de especulações, porque não foi feita a prova dos factos”, argumenta.

O actual vice-presidente da Assembleia da República aceita que, caso não se tivesse demitido da liderança do PS em 2004 (dando depois lugar a José Sócrates), o percurso do país “teria sido certamente diferente”. “Mas sobre quais as diferenças e como, é possível fazermos um romance de ficção sobre isso, mas não nenhuma tese política a apresentar para doutoramento”, refere, numa nota de humor.

Próximo Governo com grande representatividade

Ferro Rodrigues, na mesma entrevista, defendeu um futuro Governo liderado pelo PS com o máximo de representatividade democrática, tendo uma muito ampla maioria parlamentar, por considerar que Portugal “está numa situação muitíssimo grave do ponto de vista económico, social e político, e que a democracia portuguesa vive momentos muito conturbados”.

“A alternância como é costume não chega, visto que os portugueses estão - como manifestam em todos os estudos de opinião - fartos de promessas não cumpridas e fartos de uma determinada forma de combate político-partidário que parece colocar em segundo plano os interesses da população e os interesses nacionais”, adverte o ex-ministro dos governos de António Guterres.

Para Ferro Rodrigues, após o fim do actual Governo PSD/CDS e a realização de eleições, “é essencial um programa político, económico, social e financeiro que tenha poucos pontos - pontos que sejam bastante claros e que permitam a Portugal sair desta crise terrível em que está mergulhado”.

De acordo com o actual vice-presidente da Assembleia da República, nos últimos dois anos, o país sofreu o impacto de “um programa radicalizado” proveniente da troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional). “Um programa que leva o país à desgraça económica, à desgraça social e, eventualmente, à desgraça política, sem resolver os problemas financeiros que estiveram na origem deste mesmo programa. Nos últimos dois anos, também ficou provado que uma maioria absoluta no parlamento não chega. Não chega se não tiver uma base social muitíssimo mais representativa”, sustenta.

Interrogado se, para esse futuro executivo com representação de amplos sectores nacionais, conta com uma mudança a prazo na cúpula do PSD, Ferro não exclui esse cenário, alegando que “já hoje há muitas vozes no PSD, vozes de pessoas que sempre defenderam posições da social-democracia, que têm denunciado a irracionalidade do programa que está a ser levado à prática”.

Concretamente sobre o líder socialista, Ferro Rodrigues defende que, após o congresso do partido, António José Seguro deverá promover a “inclusão” a todos os níveis dentro do partido, frisando que os socialistas têm de dar o exemplo.