A importância de se chamar Francisco

O nome que Bergoglio escolheu pode fazer prever o que será o pontificado do Papa jesuíta. O PÚBLICO ouviu vários religiosos e investigadores.

Foto

Diz a tradição que um dia Francisco foi rezar à Igreja de São Damião, fora das portas da cidade italiana de Assis, e que, prostrado diante do crucifixo, ouviu a voz de Cristo: “Vai, Francisco, e repara a minha Igreja”. Nove séculos depois, a figura de Francisco e a sua missão podem transformar-se no programa para o pontificado do Papa Francisco?

“Ao chamar-se Francisco, quis fazer um corte com a opulência, quis mostar que estar ao serviço da Igreja não é ter poder, é servir a humanidade. O Papa mostra que quer que os religiosos estejam ao serviço da Igreja e que não estejam na Igreja para se servirem em proveito próprio”, interpreta Carreira das Neves, franciscano e professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

São Francisco tem uma mensagem “de grande modernidade e actualidade”, começa por dizer Vítor Melícias, superior da Ordem dos Frades Menores, os franciscanos, lembrando que o “espírito de Assis” é o da “fraternidade cósmica, da paz universal, do ecumenismo e da abertura às mulheres”. “Santa Clara pode ser uma mulher que inspire este Papa a tomar medidas de dar igualdade de condições às mulheres no exercício dos ministérios”, espera Melícias.

São Francisco teve uma grande abertura ao universo feminino e ao laical (permitindo as ordens terceiras), nota João Luís Inglês Fontes, investigador em História na Universidade Nova de Lisboa e na UCP. “Tinha um grande acolhimento à diversidade”, sublinha.

“Esperemos que ponha em prática a opção pelos pobres e que, tal como aconteceu em São Damião, este Papa repare a Igreja que, neste tempo, está tão vacilante na sua fé”, anseia Maria da Glória, superiora das Franciscanas Missionárias de Maria, em Lisboa.

Um “jesuíta franciscano”
Francisco é um “jesuíta franciscano”? Manuel Rito Dias, superior da comunidade dos Capuchinhos, em Fátima, outro ramo dos franciscanos, considera que apesar das duas ordens terem estilos muito diferentes – os franciscanos apostados no trabalho com os mais pobres; os jesuítas com um “estilo mais intelectual, virados para a cultura e a ciência” – é possível ter “um jesuíta com um estilo de vida franciscano, sem renunciar ao seu carisma”. Ou seja, um homem que se inspire em São Francisco de Assis e em São Francisco Xavier, o jesuíta evangelizador. “Os dois completam-se naquilo que deve ser um Papa”, define. Até porque na “espiritualidade inaciana”, de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, “há muito de São Francisco”, aponta Vítor Melícias.

O modo como nasceram as duas ordens – fransciscana e jesuíta – é muito distinta. No século XII, com o renascimento urbano, com uma sociedade urbana em explosão e a importância crescente do dinheiro, Francisco rompe com as normas, optando pela pobreza e pela penitência. “Uma opção que lhe dá grande liberdade para acolher os que mais sofrem”, explica João Luís Inglês Fontes.

Inicialmente, Francisco é um homem que atrai muitos seguidores, num movimento de homens que não são consagrados. Francisco de Assis nunca foi padre, foi um leigo até que Roma proibiu a pregação por pessoas não-consagradas. Então, aceitou ser diácono.

Origem diferente tem a Companhia de Jesus, que surgiu no século XVI, como resposta ao protestantismo: eram sacerdotes que se propuseram ser um “exército dentro da Igreja para defender o Papa” através da filosofia, da teologia e da ciência, descreve Carreira das Neves. Foram também grandes evangelizadores que compreenderam que a palavra de Deus se espalha através do respeito pela cultura dos outros.

Também os franciscanos evangelizaram, recorda Vítor Melícias, mas, enquanto os jesuítas trabalhavam com as elites, os franciscanos estavam ao lado do povo.

Para o jesuíta Miguel Almeida, director do Centro Universitário Padre António Vieira, em Lisboa, o grande desafio é o de ouvir os cristãos que não estão na Europa e entrar em diálogo com os muçulmanos. E, dentro da Igreja, “encontrar maneiras de ser mais comunidade, mais comunhão”, dando aos leigos um papel mais participativo.

Importância da pobreza
Oriundo da América Latina, o Papa eleito na passada quarta-feira é um homem que sabe o que é a pobreza e a relação da Igreja com o poder político, nota Inglês Fontes.

Depois do Concílio Vaticano II, a Companhia de Jesus assumiu a vanguarda da Igreja e promoveu a Teologia da Libertação na América Latina, chegando mesmo a envolver-se politicamente. A figura do cardeal Óscar Romero, um teólogo jesuíta assassinado por militares em São Salvador, em 1980, enquanto celebrava missa, marcou a Igreja na América Latina. Outro nome marcante foi o do teólogo Leonardo Boff, um franciscano brasileiro que acabou por se desvincular da Igreja.

No seu blog, Boff afirma que, tal como Francisco de Assis, o Papa Francisco “se deu conta de que a Igreja está em ruínas pela desmoralização dos várias escândalos que atingiram o que tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade”.

“Francisco não é um nome. É um projecto de Igreja pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres a doce palavra ‘irmãos e irmãs’. Francisco mostrou-se obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu o seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão.”, continua Boff, que vê o novo Papa como um homem que tem a experiência da pobreza e, como tem uma “nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.”
 
 

Sugerir correcção
Comentar