Capazes de tudo

Há uma cena de refeição em “Sangue do Meu Sangue” onde é inevitável vermos ecos do “Segredo de um Cuscus” de Abdellatif Kechiche - onde no filme do cineasta francês toda a gente se reunia à volta do cuscus do sr. Slimane, aqui são os carapaus do Nini, dono do restaurante onde Márcia é cozinheira e seu companheiro, que muitos clientes vinham de longe para comer. Mas a comida não é aqui o que une a família de Márcia (a irmã cabeleireira, a filha universitária que trabalha num supermercado e o namorado segurança, o filho pequeno dealer e a namorada que mal abre a boca). A refeição da folga de Márcia e Nini, na casa do Bairro Padre Cruz, é o ponto sem regresso, em que a tragédia que se pusera imperceptivelmente em marcha começa a ganhar um embalo imparável.


Desde “Ganhar a Vida” que João Canijo vem explorando os meandros da tragédia humana no Portugal real e, para nós, “Sangue do Meu Sangue” é o ponto fulcral e sublime dessa investigação. Se fomos buscar o “Segredo de um Cuscus”, é porque, nesse filme, Kechiche filmava as cenas de família como longos “takes” onde todos falavam ao mesmo tempo à volta de uma mesa. Aqui, Canijo faz algo de semelhante mas leva-o mais longe, desde a primeira cena deste “film-fleuve” que coloca em simultâneo duas acções, duas conversas num mesmo enquadramento, forçando o espectador a escolher uma mas sempre mantendo a outra presente. E isso espelha-se também no modo como o núcleo familiar de Márcia se divide em dois núcleos narrativos - a mãe e a filha de um lado, a tia e o sobrinho do outro - num cruzamento contínuo e interligado de histórias cujo centro gravitacional é sempre o horizonte social do subúrbio pobre onde moram.

Canijo e o seu elenco definem “Sangue do Meu Sangue” como um filme sobre o amor incondicional - mas, mais do que isso, é um filme sobre a força das mulheres, sobre as mães-coragem que se sacrificam pelas crianças, capazes de tudo para garantir um futuro melhor, quer sejam mães verdadeiras ou mães de substituição (Márcia e Ivete são capazes de tudo, até de fazer de Cláudia e Joca inimigos, para garantir que eles não deitam fora a sua vida). Nenhuma delas mais extraordinária do que Rita Blanco, numa daquelas interpretações de estarrecer que se vêem muito de longe em longe - damos por nós incapazes de afastar o olhar sempre que ela está no écrã, sem desprimor para um elenco de primeiríssima água onde não há um único passo em falso.

Por falar em elenco, seria injusto não falar também daquela que é uma das referências centrais do realizador, o inglês Mike Leigh, cuja construção do argumento em colaboração com os actores se sente a cada instante de “Sangue do Meu Sangue”, no modo como tudo se submete à presença e à entrega dos actores, como são eles que ditam o olhar da câmara (sempre em “takes” longos, móveis, discretos). São os actores e as personagens que criam este filme, e Canijo celebra-os dando-lhes todo o espaço para eles respirarem, montando ao sabor das suas ascensões e quedas, deixando cada cena prolongar-se pelo tempo exacto para transmitir a sensação de que não estamos a ver actores num filme mas pessoas a viver.

Até na sua própria estrutura, com uma geometria variável de duração que permite duas versões de cinema, uma normal de 2h20 e uma “longa” de 3h10 (que, para já, só pode ser vista numa sala de Lisboa). A aposta de Canijo é exactamente o oposto do ópio telenovelesco: onde a telenovela reduz tudo a uma superfície lisa e anódina, ficando-se pela rama maniqueísta do bem e do mal, Canijo mergulha a fundo na complexidade, nos cambiantes de cinzento que estão mais próximos da vida do que da ficção. E o olhar que Canijo dirige a cada um deles, sempre atento mas nunca gratuito, sempre impiedoso mesmo que ocasionalmente doloroso, o tempo que lhes dá para se desvendarem perante os nossos olhos, é algo que não se vê muito no cinema moderno - português ou não. E não há telenovela que seja capaz disso. Exemplo perfeito do encontro entre um projecto, um cineasta e um elenco, “Sangue do Meu Sangue” é um dos grandes filmes portugueses (mas não só), do último quarto de século, é o melhor filme de João Canijo, é uma obra-prima para as calendas. Que o público assim o saiba receber.

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