Harry Eastwood

"Dívida de Sangue" não é o mais fulgurante dos últimos filmes de Eastwood. Pode mesmo ser aquele em que o tão amado "cansaço" do herói, que há anos motiva páginas de admiração sobre o "último cineasta clássico" americano, seja desta vez também uma condição do realizador Eastwood (andará a filmar demasiado?). Mesmo assim: é marcante no filme a vontade de caminhar pelas trevas, para ver o que é que se esconde no escuro.

Há planos - no início, o voo nocturno sobre a cidade - que parecem intromissões-fantasma, incontroláveis, dos filmes com a personagem "Dirty" Harry ou com as variações que Eastwood se foi permitindo a partir daí. Há um "serial killer" (salte este pedaço, vem aí "spoiler"...), louro, pele branca, na boca um sorriso de "clown" inofensivo que também é esgar mortífero, exactamente como o Scorpio de "Dirty Harry", de Siegel, essa súmula do Mal que parecia existir para justificar os métodos extremistas de Callahan. E há ainda uma mulher, que para além de ser uma espantosa presença de actriz (Wanda de Jesus), permite outro confronto espectral, actualizando as presenças femininas (Sondra Locke em "The Gauntlet" e "Sudden Impact"; Geneviève Bujold em "Tightrope") que foram cercando esse (alguém assim classificou Eastwood) "reduto 'ad absurdum' do macho" - mas que, por pulsão masoquista, sempre aceitou colocar-se em dificuldades. Agora, a mulher parece já uma variação dele: Wanda de Jesus aparece não se sabe de onde, como Eastwood nos filmes em que foi "homem sem nome" e sem passado. Para além disso, há um impressionante gesto dela - quando fecha os olhos ao assassino morto - que tem a precisão letal do "make my day" de Callahan.

Há outro fantasma: Don Siegel. O 18º filme do cineasta Eastwood foi realizado em 38 dias, o que explicará a forma como alguns planos parecem ter sido "despachados". Mas isso é herança de Siegel, cultor de alguma da melhor série B e que também "despachou" planos. "Dívida de Sangue" muitas vezes parece um "remake" de um filme de Siegel. Melhor: um "flashback" impossível.

Poderia ser assim o "flashback" se resumíssemos: algures, no final dos anos 60, um actor, cuja história cinematográfica era dominada por um punhado de produções europeias em que os actores e técnicos usavam pseudónimos anglo-saxónicos - o "western spaghetti" -, encontrou, finalmente, alguém com quem partilhar o sentimento de desadequação e a defesa intransigente do individualismo: Don Siegel.

Clint nasceu no primeiro ano da Depressão, numa família que nunca conseguiu assentar. Diz Richard Schieckel, biógrafo, que essa errância forneceu ao jovem Clint um sentimento inescapável de insegurança, que tornava o mundo enigmático. Ao seu processo de crescimento Eastwood referir-se-ia como os "anos perdidos", traduzindo uma dificuldade em encontrar um lugar. Não eram só as instituições que lhe pareciam "insensíveis". Até Hollywood, onde chegou nos anos 50, parecia dizer-lhe que não cabia ali. Não tinha a sensibilidade introspectiva de Dean ou Brando, não era gentil como Rock Hudson, era novo mas o seu tipo de masculinidade filiava-o no passado. Tinha mais a ver com Cagney ou Cooper, gente da "golden age" que terminava. Ou seja, mal começava e já era anacrónico.

O encontro, e a cumplicidade, com Siegel fariam explodir o ressentimento ("Dirty Harry"). O que se expunha aí era o conflito entre um mundo "antigo", em que o indivíduo era soberano, e uma sociedade de massas, que aniquilava a individualidade através da burocracia. O que é mais complexo do que o "fascismo" com que foi carimbado (já agora, sendo republicano, Clint é a favor do controlo de armas e do aborto). Harry Callahan e as variações de detectives que Eastwood criou foram projecção dessa insegurança e ressentimento. Foram reacções violentas de um dinossauro contra um tempo que o excluía. Foram também esforços de actualização, gestos de exorcismo, prazer e insolência na autoviolentação.

Sobre o "flash-back" pode suspender-se agora a "imagem-fantasma", uma fotografia, a forma como há cerca de 30 anos Annie Leibowitz captou Eastwood: corpo erecto, mas manietado por cordas, uma sensação de incapacidade, de dificuldade, apesar da afirmação de masculinidade. E, no entanto, as cordas parecem dar prazer (mostra o sorriso que aflora os lábios) na impotência.

E assim estamos de novo em "Dívida de Sangue".

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