“Não queremos ser os próximos”: visita-guiada denuncia despejos de associações em Lisboa
Visita percorreu locais onde estiveram espaços e associações em Lisboa. Iniciativa foi organizada pela associação Sirigaita, que recebeu uma carta de não renovação de contrato do seu espaço.
Entre decorações de Natal e turistas em esplanadas, várias dezenas de pessoas vão-se aproximando do número 226 da Rua dos Sapateiros, em Lisboa. Algumas ficam por baixo do Arco do Bandeira, que tem uma das partes virada para a Praça do Rossio. Aí, há quem cole um cartaz com a missiva: “O Grémio é nosso!” Ao lado, afixa-se uma outra mensagem – “Despejado para nada”. Já com a noite a caminhar a largos passos, todas estas pessoas estão nesta rua para relembrarem o sítio do antigo Grémio Lisbonense.
Assim que pega no megafone para recordar a sua experiência nesta colectividade centenária, Salomé Paiva mostra-se emocionada: “Assisti às últimas festas…” A artista acabou por fazer o cartaz colado no espaço onde a associação esteve entre 1842 e 2008, o ano em que foi despejada. “Houve muita tensão nesse momento. Veio polícia de choque e tudo”, recorda Diana Marques, ao lado de Salomé.
Ambas frequentaram a colectividade nos seus últimos anos. “Havia concertos e conversas. Era calminha e dava para todas as idades”, conta Diana. Já Salomé acrescenta: “Assisti a várias festas, organizava-se uma série de actividades e aceitavam-se propostas.” Mas, acima de tudo, a artista relembra este espaço como um local “aberto à comunidade e intergeracional”. Hoje diz não ter grandes dúvidas: “O Grémio era nosso e continua a ser!”
Ao lado do sítio onde diz estas palavras, há a indicação de que a antiga casa do seu Grémio serve para apartamentos turísticos. De poucos em poucos minutos, a porta do número 226 abre-se e de lá saem os seus novos inquilinos: os turistas.
Esta foi uma das paragens da iniciativa “Despejados para nada – uma visita-guiada”, que percorreu, entre o final da tarde e noite desta quarta-feira, oito locais onde estiveram, em tempos, instaladas cinco associações culturais e recreativas, um clube desportivo e duas casas ocupadas por projectos colectivos. Para a tour organizada pela associação Sirigaita convidaram-se dez artistas para fazer cartazes, que foram sendo colados nos espaços das então colectividades ao longo da visita.
“É uma forma de falarmos do que está a acontecer na nossa cidade”, assinala ao PÚBLICO Catarina Carvalho, membro da Sirigaita e uma das organizadoras da iniciativa. E explica que o objectivo foi relembrar associações que tiveram de sair dos seus espaços. “Eram espaços onde nós fomos felizes, onde dançámos, onde vimos espectáculos, onde convivemos e criámos comunidade”, enumera. “Não queremos fazer parte desse leque de espaços fechados e ainda [para mais] substituídos por um grande nada.” A associada da Sirigaita conta que os espaços onde estavam essas associações ou estão vazios, em obras, ou a serem transformados para apartamentos de luxo, hotéis ou alojamentos locais. “São coisas que não servem esta cidade e as pessoas que cá vivem”, constatou.
“Somos imensos”
O arranque da visita-guiada deu-se pouco depois das 19h. Em frente à Sé de Lisboa, a pouco e pouco, foi-se formando um grupo que preencheu o Largo da Sé. O coro da Achada – que canta canções relacionadas com liberdade e participa em manifestações – vai aquecendo. “Vamos começar? Cheguem para a frente”, pede Catarina Carvalho. E lá se foi aglomerando o grupo. “Somos imensos! Penso que é sintomático de que há uma grande preocupação quanto à nossa cidade.”
Chega entretanto um megafone e Catarina Carvalho vai lançando os motes para esta visita em forma de protesto. “Hoje vamos visitar oito espaços colectivos que já não existem”, anunciou. “Muitos foram vítimas da ganância de especuladores, fundos imobiliários transnacionais”, disse, referindo-se também ao “desinteresse das autoridades públicas” por esses espaços.
Banco, Bacalhoeiro, Grémio Lisbonense, São Lázaro 94, Grupo Excursionista e Recreativo Os Amigos do Minho, Sport Clube Intendente, Clube Recreativo dos Anjos e Seara – eram estes os espaços colectivos que Catarina Carvalho anunciava que iriam ser visitados, mas que já não existem nesses locais. “Não queremos ser os próximos despejados”, alertava. Mas não foi a única chamada de atenção e apelou à cautela do grupo: “Não é uma manifestação e a rua não foi cortada para nós. Tenham cuidado.”
E lá começou a marcha com o coro a cantar, numa letra de Pedro Rodrigues: “Vai-se a cidade entregando/Desocupam-se os lugares/Não é para tu morares/É só prò lucro lucrar.” No compasso desta letra, chegou-se à Travessa Santo António da Sé, mais propriamente à antiga casa do Banco.
Quem apresentou o local foi Rita Comedida (nome artístico), que frequentava o local. “Era um espaço muito importante, mas o prédio foi vendido.” E quem estava a assistir a tudo, e até descolou o cartaz com a mensagem “Despejado para nada”, foi o actual proprietário, que acabou por informar os participantes da visita de que o espaço se destinará a alojamento privado para estudantes. “O que era aqui antes?”, ainda perguntou, já mais calmo e quando o grupo ia afastado. Lá lhe explicámos o que era. “Não sabia”, reagiu.
“Vinha para aqui muitas vezes e até ajudava atrás do balcão”, recordou ao PÚBLICO Rita Comedida, que chegou a ter ali o seu atelier. “Era um espaço cultural, maioritariamente nocturno, para sair à noite, estar com pessoas e ouvir concertos.” A artista conta que, quando frequentava o Banco, já se sabia que o prédio estava à venda e “havia sempre aquela tensão”. Em 2022, tiveram mesmo de sair do local.
Num cartaz agora colado no antigo espaço, Rita Comedida retrata a saída desse local. “O Banco vai fechar”, diz alguém no cartaz. Outra pessoa pergunta: “Então?” E alguém responde: “O senhorio vendeu o prédio…” Além de Rita Comedida e Salomé Paiva, assinaram os cartazes Bruno Borges, Bruno Caracol, Catarina Leal, Emma com dois emmes, José Smith Vargas, Os Ingovernáveis, Rita Comedida, Xavier Almeida e a própria Sirigaita.
Avançando na visita, sempre embalados pelo coro, passou-se pela Rua da Prata fechada ao trânsito, o mercado de Natal no Rossio ou um Martim Moniz ainda agitado, para se chegar ao Largo do Intendente, onde se ouviu falar do Grupo Excursionista e Recreativo Os Amigos do Minho, que esteve ali ao lado, entre 1950 e 2017, na Rua do Benformoso.
João Baía frequentou a colectividade em diferentes ocasiões. O professor de História participava em actividades organizadas por outros grupos fora da associação, como tertúlias ou reuniões para a manifestação “Todos os rios vão dar ao Carmo”, que foi convocada por vários colectivos. “Era uma casa aberta para todos estes grupos”, realça. Hoje desconhece o que irá ser feito no local, mas sabe que já foi vendido e comprado várias vezes. Nas traseiras fica a antiga casa do Sport Clube Intendente, que está em obras.
À medida que se ia avançando, juntavam-se cada vez mais pessoas à visita, tendo-se chegado aos cerca de 200 participantes. Ao longo da marcha, havia sempre que fosse parando e questionando: “O que é isto? Para onde vão eles?”
Acabaram no antigo local da Seara, um projecto colectivo que ocupou uma casa em Arroios. Inês Carvalhal foi uma das voluntárias nesse espaço. Depois de ter visto a convocatória online, em Maio de 2020, decidiu participar no projecto. “Desde 2019 que o edifício estava desocupado e tanto as autoridades como os proprietários foram informados do que se estava a passar”, diz a antiga voluntária do projecto que durou um mês. O espaço disponibilizava água, máquina de lavar roupa ou um espaço para carregar o telemóvel. “Todas as pessoas podiam usufruir.”
O despejo “foi bastante violento, porque começaram no prédio ao lado que estava habitado”, relata Inês Carvalhal. Já nessa altura o edifício onde estava a Seara tinha sido vendido a uma empresa de investimento imobiliário. Hoje continua em obras.
Catarina Carvalho diz que estes foram apenas alguns exemplos de espaços colectivos despejados, mas há muitos outros. “A BOESG – Biblioteca Observatório dos Estragos da Sociedade Globalizada, que existia na Rua das Janelas Verdes, pagava uma renda de 81 euros e passou para 706,61 euros”, exemplifica. “O mesmo fim conheceu o Grupo dos Cinco Reis, que era uma outra recreativa que existia na Graça, fundada em 1907, que viu a sua renda aumentar 3000%, passando de 35 para 950 euros de repente.”
As associações agora em risco
Um outro exemplo é o do Lusitano Clube, uma colectividade que tinha mais de 100 anos quando fechou. “Há uma série de associações que deixámos fechar ou por aumentos de renda ou por os seus espaços terem sido comprados”, conta Catarina Carvalho.
Também a Sirigaita tem tido dificuldades com o seu espaço, em que paga uma renda de 450 euros. “Recebemos uma carta de não renovação de contrato [de renda há quase um ano], o que implica que o senhorio se opõe a que o contrato continue”, diz, referindo que o contrato termina em Fevereiro de 2024. Catarina Carvalho diz que os membros da associação decidiram “fazer frente ao senhorio durante o máximo tempo possível”.
E há mais casos. Catarina Carvalho adianta que a sua associação conhece mais sete associações em risco de despejo: a Academia Recreio Artístico; a Sociedade Musical Ordem e Progresso; a Arroz Estúdios; a Zona Franca nos Anjos; a Vai Tu; o Centro de Cultura Libertária; ou a Fábrica de Alternativas, em Algés. Foi para chamarem a atenção do risco que correm estes espaços colectivos que também fizeram este protesto.
A visita acabou em frente ao espaço da Sirigaita, no Intendente, um lugar “cada vez mais inacessível”, considerou Marco Allegra, da associação, no último discurso da noite. “Uma cidade sem colectividades é mais triste e pobre”, declarou. E alguém gritou em tom de reivindicação: “A Sirigaita não vai fechar!”