BPI dá luz verde à OPA do Caixabank mas sugere subida de preço

Conselho de administração do BPI considera “oportuna” a investida e Isabel dos Santos exige auditor independente para fixar valor. Negócio pode levar à saída de mil trabalhadores

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Miguel Nogueira/Arquivo

A maioria do conselho de administração do BPI veio esta terça-feira considerar oportuna e amigável a oferta pública de aquisição (OPA) do Caixabank sobre a maioria do capital da instituição liderada por Fernando Ulrich, mas classifica o preço baixo.  Já Isabel dos Santos quer que o regulador do mercado de capitais, a CMVM, nomeie um auditor independente para fixar o preço mínimo da OPA.

Em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), ao final da tarde, a administração do BPI, liderada por Artur Santos Silva, pede ao Caixabank para subir o preço de 1,113 euros por cada acção para 1,54 euros (mais 38%).

Segundo a mesma nota, a oferta do Caixabank, de 1,113 euros, reflecte “um desconto que oscila entre 1% e 11% relativamente às cotações médias do BPI, o que compara com prémios entre 15% e 19% nas transacções precedentes no sector bancário europeu”. E “os descontos implícitos na presente oferta afastam-se significativamente dos prémios das transacções no sector bancário europeu, numa medida que oscila entre menos 16 pontos percentuais e menos 28 pontos percentuais”. 

Ainda que o BPI considere a quantia de 1,113 euros insuficiente, também alega que não tem condições para se pronunciar com rigor sobre o preço de 1,54 euros, dadas as incertezas, nomeadamente em relação ao futuro do Banco de Fomento de Angola (BFA), onde possui 50,1% do capital. Esta análise justificou um pedido do segundo maior accionista, a Santoro (que representa cerca de 20%), de Isabel dos Santos: a nomeação pela CMVM de um auditor independente para fixar a contrapartida mínima da OPA.

O regulador “deverá proceder à nomeação de um auditor independente, a expensas do Caixabank, para proceder à fixação da contrapartida mínima a oferecer na OPA das acções representativas do capital social do BPI preliminarmente anunciada, por considerar que a contrapartida oferecida não é justa nem equitativa”, diz a Santoro. A empresa de Isabel dos Santos diz ainda que já “dirigiu à CMVM um requerimento com esse objectivo”.

A posição da gestão do BPI contou com a oposição de quatro administradores: Alfredo Rezende de Almeida, Armando Leite de Pinho, Edgar Alves Ferreira e Mário Silva. Mário Silva, que representa a Santoro, entregou uma declaração de voto de protesto por considerar, entre outros factos, que se omitem “matérias” de informação obrigatória e que as análises do BPI sobre a OPA estão sustentadas numa análise viciada, pelo que o relatório de resposta ao Caixabank é incompleto, 

A administração do BPI deixa uma mensagem aos accionistas: os investidores que considerarem que a OPA oferece uma oportunidade de consolidação e de rentabilização dos seus activos não devem vender as suas acções. Ao reforçar em Portugal, o Caixabank consegue um “potencial adicional de geração de sinergias” no caso de o BPI “vir a ser interveniente em algum processo de consolidação”. Para a instituição, a OPA do seu maior accionista (com 44%) pode “criar um quadro que aumenta o leque de alternativas para solucionar o actual incumprimento pelo BPI do limite dos grandes riscos causados pela exposição do BFA [Banco de Fomento Angola] à dívida pública angolana”. O BPI considera ainda que “seria muito positivo” manter “as suas actuais participações no BFA e no BCI, objectivo que a consolidação referida poderá tornar possível”. 

Menos mil trabalhadores

Um outro aspecto salientado pelo BPI é o facto de “o valor das sinergias” apurado pelo Caixabank, “conjugado com os custos de reestruturação anunciados”, ser compatível “com uma saída de cerca de mil pessoas”. No mercado nacional, o BPI fechou 2015 com 5899 funcionários e espera chegar ao final deste ano com menos 250 efectivos.

Horas antes da divulgação do comunicado, Fernando Ulrich tinha marcado presença na conferência organizada pela Associação Portuguesa de Bancos em articulação com a TVI, onde aproveitou para questionar a decisão do BCE de obrigar à contabilização a 100% da exposição do banco a Angola. Ulrich lamentou que em momento algum tenha recebido apoio do antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque, para resolver o tema de Angola com o BCE. “A aplicação acrítica de uma regra, que não discuto, obriga e obrigará, provavelmente, a sermos expulsos de Angola”, disse o banqueiro. Isto apesar de, horas antes, no mesmo encontro, ter ouvido da presidente do Conselho Único de Resolução, Elke Konig, elogios à acção dos portugueses nos Descobrimentos.

E há duas semanas, evidencia Ulrich, o governador do Banco Nacional de Angola defendeu, em Luanda, que o BFA é um caso de boa governação. “Portanto, não consigo entender como é que, juntando as peças todas, o resultado é a aplicação acrítica de uma regra, que não se discute, que nos obrigará a ser expulsos de Angola.” O banqueiro declara-se desgostoso por não ter ouvido “uma voz em Portugal que se incomodasse com isto”. com Luís Villalobos

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