Eleições primárias dos socialistas à espera dos simpatizantes de papel

Até agora só se tem contabilizado o número de simpatizantes que se inscreveram por via digital. Sede nacional começou ontem a descarregar as inscrições feitas em papel.

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Entre concelhias e secções de residência, só na distrital do Porto há mais de 100 estruturas locais Miguel Nogueira

Foi o presidente da comissão eleitoral do PS, Jorge Coelho, quem confirmou que começou ontem a introdução no sistema central, que contém o recenseamento, dos dados sobre estes simpatizantes. Para o efeito foi contratada uma empresa, explicou ao PÚBLICO o ex-ministro de António Guterres.

Jorge Coelho não sabia ontem ainda esclarecer quantos inscritos em papel existem, precisamente por o processo de registo destas inscrições estar no início. E, ao que o PÚBLICO apurou, o desconhecimento daquele responsável parece ser aparentemente extensível às estruturas intermédias do PS e às duas candidaturas que já estão no terreno a trabalhar na angariação de simpatizantes.

José Luís Carneiro, líder da distrital do Porto, que é a que tem maior peso no PS, também não consegue contabilizar quantas inscrições de simpatizantes entraram nas cerca de 100 estruturas — entre concelhias e secções de residência — que existem naquele distrito.

O facto é que ambas as campanhas já começaram a fazer esse esforço. Seja através de militantes a nível concelhio ou federativo ou através de bancas nas ruas para a recolha de inscrições. João Proença, ex-líder da UGT, que está na direcção da campanha de Seguro, assumiu estar “no escuro” em relação ao número de inscritos nesse formato. A directora da campanha de António Costa, Ana Catarina Mendes, por seu turno, reconhece que, em algumas regiões, está em curso “um jogo de sombras” entre as duas listas. “Uns não dizem quantos recensearam, os outros também não”, admite.

Mas é evidente para todos que o universo de inscritos em papel terá um peso relevante no total de participantes. “É capaz de vir a haver tantos [inscritos] nas sedes como na Internet”, admite o ex-deputado Ricardo Gonçalves e apoiante do actual secretário-geral. E mesmo que a empresa contratada pelo Largo do Rato comece a coligir rapidamente esses dados nos próximos dias, o retrato final só deverá ser visível no final do processo de recenseamento. “Há muitas estruturas que vão optar por acumular fichas de inscrição para depois as enviar todas juntas”.

O que leva a que, no terreno, não se dê “nada como garantido”: “Isto não são favas contadas”, diz Albino Almeida, o presidente da Assembleia Municipal de Gaia, que apoia a candidatura de António Costa.

“Tanto um lado como o outro farão uma grande dinamização nas redes partidárias”, reconhece o independente. E os autarcas não estão de fora desse esforço. “Percebe-se claramente que existe um papel das autarquias que não é despiciendo. Não descarto que as autarquias estejam a servir como instrumento, tanto de um lado como outro”, admite.

Maria José Gamboa, presidente da Junta de Canidelo e que apoia Seguro, é uma das pessoas que estão convictas do peso das inscrições em papel. “Esse tipo de inscrição é capaz de vir a ser superior [em números] aos que se inscrevem pela Internet. O país não é só Porto e Lisboa”, explica. Gamboa lembra que a Internet é “um instrumento utilizado mais pelos jovens e nos meios urbanos”. “Os mais idosos são aqueles que se têm dirigido às sedes do partido”, explica. Não consegue precisar, no entanto, quantos terão já entregue a sua inscrição no distrito do Porto.

Embora o contar de espingardas simpatizantes decorra a ritmo acelerado, a verdade é que esse “arregimentar” não garante votos directos a 28 de Setembro. “Lá porque eu consigo que 10 pessoas se inscrevam como simpatizantes, e sendo eu apoiante de António Costa, não quer dizer que essas pessoas acabem todas a votar no António Costa. As pessoas, na hora de votar, pensam pela sua cabeça”, alerta Albino Almeida.

 Ricardo Gonçalves concorda. Mas não deixa de assinalar que será já “uma vitória de Seguro” um elevado número de inscrições.

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