Angola: "Por que não nos calam a boca com eleições transparentes?"

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O rapper vai votar no principal partido da oposição, a UNITA. É como um voto útil, "contra o MPLA", explica EstelleMaussion/AFP

É um "filho do regime", mas o percurso de vida e o olhar sobre Angola tornaram-no num dos rostos do movimento de contestação de jovens ao poder e à continuidade de José Eduardo dos Santos na Presidência.

Luaty Beirão, músico, já foi detido e agredido nos protestos que, no último ano e meio, irromperam na paisagem política angolana. Agora, tomou a decisão de votar "contra" o partido no Governo, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Pôs de lado a desconfiança com que encara a actividade política, e, ao arrepio de tudo o que ouviu dizer em criança sobre a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), vai votar na principal força da oposição.

O nome de Luaty Beirão, aliás Ikonoclasta, também conhecido no meio musical como Brigadeiro Mata Frakuzx, chegou às notícias de política internacional a 7 de Março do ano passado. Era um dos 17 detidos, incluindo três jornalistas, numa acção de contestação, no centro de Luanda, contra a continuação de Eduardo dos Santos, Presidente desde 1979.

A princípio, Luaty não levara a sério uma convocatória pela Internet feita por um desconhecido Agostinho Jonas Roberto dos Santos, designação fictícia que juntava os nomes dos líderes históricos dos movimentos independentistas ao do actual Presidente. Mas o contexto da Primavera Árabe, a vontade de que "alguma coisa acontecesse" e a forma "agressiva" como o regime reagiu "deu uma vontade" de estar presente. "Vivo de forma confortável, não me falta nada, mas isso não é tudo", pensou. Queria contribuir para uma democracia "mais adulta".

A 27 de Fevereiro, num dos seus raros concertos em Luanda, no Cine Atlântico, entre palavras de ordem contra o chefe de Estado, o rrapper assumiu que ia estar presente. "Ti Zé tira o pé, tô prazo expirou há bwé", dizia uma faixa que exibiu. A 7 de Março esteve detido durante algumas horas. Seguiram-se outros protestos que pediam a saída do Presidente, o fim da "ditadura" e da "corrupção" e a correcção das desigualdades, quase sempre acompanhados de intimidação policial e repressão por agentes à paisana. Seguiram-se também detenções, agressões e condenações de outros activistas. Já em Março deste ano, Luaty foi um dos feridos numa concentração dispersada à bastonada.

O número de contestatários nunca foi elevado, "no máximo" chegaram a ser umas duas mil pessoas, mas sentem que "a população está descontente". "Estão do nosso lado e não saem à rua porque não conseguiram vencer o medo." Receberam palavras de estímulo de figuras como o ex-primeiro-ministro Marcolino Moco, um crítico da cúpula política. Sabem que puseram o regime nervoso e que a "tentativa de deturpação da imagem dos manifestantes não pegou". "Tentaram denegrir o grupo, chamando-nos arruaceiros, associando-nos sempre à confusão e à vontade de desestabilização e retorno à guerra, dizendo: não deixem que estes jovens tragam de volta a confusão - a paz foi difícil de conquistar", conta, por telefone.

Uma certa autocensura

Licenciado em Engenharia Electrotécnica, no Reino Unido, e em Economia, em França, Luaty, 30 anos, luso-angolano, dedicou-se à música, mas a actividade cultural tem estado "mais ou menos suspensa". Porque as oportunidades de trabalho são poucas - "a música que eu faço não passa nos espaços públicos e em muitos privados", facto que atribui a uma "certa autocensura" dos promotores. Porque se envolveu mais na vida político-social.

Filho de João Beirão, destacado militante do partido que governa Angola desde a independência, e ex-presidente da Fundação José Eduardo dos Santos, já falecido, cresceu num meio "bastante confortável". "O meu pai não me doutrinou. Era do partido por convicção. Nunca fui submetido a nenhuma lavagem cerebral. Acreditava que havia ideais puros, ajudou a fazer coisas de que mais tarde não se orgulhava tanto."

Foi-se afastando do círculo dos "filhos do regime" antes de tomar posições políticas. Analisando "o que não estava bem", chegou ao Governo. "A culpa era de quem governa, e quem governa é o MPLA." Estar fora do país também contribuiu para o modo como olha Angola e o regime. Em 2008-2009, à boleia e a pé, fez uma viagem entre Lisboa e Luanda que fez "crescer espiritualmente" um homem que se declara ateu. Em 2010, prolongou a experiência, saindo da capital angolana para a Cidade do Cabo, na África do Sul.

Já na fase em que se tornou um dos rostos da contestação, alguns daqueles de quem se tinha afastado aproximaram-se, querem chamá-lo "à razão". "Temos opiniões divergentes, mas quando a discussão é feita com bons argumentos até é saudável", diz. Pior é quando lhe querem dar "aula de moral", como aconteceu recentemente no aeroporto de Luanda. Ou o caso, que qualifica como "tramóia", da cocaína encontrada, em Junho, à chegada a Lisboa, na bicicleta que despachara no início de uma viagem aérea desde Angola.

"Existem pessoas de boa vontade no aparelho de Estado, mas, alguém que se destaca, ou é afastado ou convidado a entrar no jogo", diz. Responde que sim, que o regime fez algumas coisas em matéria de infra-estruturas, mas lembra que esse "é o trabalho do Governo". E que "pouco do que se fez é definitivo ou consequente, são coisas para cortar fitas e mostrar trabalho". "Abriram-se dependências da Universidade Agostinho Neto no país. Para quê se não têm docentes?"

O imperativo da alternância

Desconfiado da política - "o meu voto de consciência é branco, não confio em político nenhum" - tomou uma decisão que não foi fácil, que vai contra tudo o que ouviu: vai votar na UNITA, que combateu o MPLA durante 27 anos, que lhe diziam que "queimava pessoas na fogueira", que "odiava brancos e mulatos", que cresceu a associar à guerra, à destruição e ao medo. Porquê? Por uma questão de voto útil, por ser a "única força capaz de tirar lugares ao MPLA". "Vou votar não pela UNITA mas contra o MPLA porque neste país existe um imperativo - o imperativo da alternância."

Pensa que sem garantias de transparência não devia sequer haver eleições e que, com um escrutínio justo, o MPLA "nunca teria maioria absoluta". Não se surpreenderá, porém, que o partido tenha uma boa votação, até porque além do voto militante, beneficia dos que temem a mudança e do alheamento com que outros encaram a eleição. "Há pessoas que preferem a manutenção, que me dizem: assim já sei como funciona, a quem devo pagar. Optam pela continuidade, acham que os outros podem ser piores. E para muitos, na classe mais baixa, o importante é o dia-a-dia. É-lhes indiferente quem está a cobiçar o poder. Em 2008, havia quem dissesse: Não sei o que é isso de eleições. E respondiam-lhe: é só pôr uma cruz aqui". Aqui, à frente do símbolo do partido no poder.

Luaty acompanhou apreensivo a preparação das eleições e considera que há "um jogador que é árbitro ao mesmo tempo, não cumprindo o que a lei estipula". Lança um desafio: "Por que não nos calam a boca com eleições transparentes? Que sejam transparentes é tudo o que pedimos. E que ganhe quem o povo escolher".

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