Voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta é no BE, defende Catarina Martins

Assumindo o BE como alternativa, Catarina Martins expressa críticas aos outros partidos parlamentares e acusa o PS de ter cedido à extrema-direita na formação da nova Comissão Europeia.

Foto
Catarina Martins defende que o voto útil contra a maioria absoluta é no BE LUSA/MARIO CRUZ;MÁRIO CRUZ

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, defende que nas eleições legislativas o voto útil dos socialistas, que não querem maioria absoluta, é no BE, considerando que o crescimento do partido que lidera “pode ser o factor decisivo” para a impedir.

As maiorias absolutas foram um dos temas da entrevista de Catarina Martins à agência Lusa, na qual a líder do BE insiste na ideia de que “uma maioria absoluta é perigosa”, até “pelas experiências passadas” que Portugal teve com este tipo de resultado eleitoral, um perigo que “toda a gente reconhece”, incluindo o primeiro-ministro, António Costa. “Se há um voto útil dos socialistas que não querem maioria absoluta nestas eleições é no Bloco de Esquerda”, sugere.

Tal como se lê no programa eleitoral com que o partido se apresenta às eleições para a Assembleia da República, a líder bloquista defende que “o crescimento do BE pode ser o factor decisivo para impedir uma maioria absoluta do PS”. “Quem saiba e se lembre de como as maiorias absolutas são perigosas, mesmo no PS, hoje sabe que o voto útil é no Bloco de Esquerda”, reitera.

Na perspectiva de Catarina Martins, “até às eleições de 2015 ficava muito a ideia de que só se escolhia entre um Governo do PS ou um Governo do PSD”, paradigma que considera que se alterou com a actual legislatura, que mostrou que “as maiorias que são formadas no Parlamento podem determinar que programas vão para a frente”. E aponta: “Portanto, hoje o voto útil não tem a ver com a escolha de um primeiro-ministro. Tem sobretudo a ver com o equilíbrio de forças, com o equilíbrio que queremos para puxar pelo país.”

A dirigente do BE aproveita este argumento para apelar ao voto de “quem deseja que Portugal continue a avançar nas conquistas dos direitos do trabalho, de valorização de salários e de pensões, na defesa do Estado social, na defesa de investimento público”.

Numa entrevista à TVI, Catarina Martins já tinha afirmado que o partido precisa “de mais de 10%” nas legislativas, mas quando instada a traçar uma meta eleitoral, a líder bloquista afirma apenas que “aguarda tranquilamente o resultado das eleições” e até lá vai trabalhar para tentar explicar o programa.

Aos perigos de uma maioria absoluta, para a deputada do BE, acresce o programa com que o PS se apresenta a eleições. “O PS apresenta um programa em que diz que quer fazer investimento, mas depois com contas que não permitem o investimento, que diz que quer recuperar os salários dos funcionários públicos, mas depois, com contas que não permitem sequer recuperar a inflação”, exemplifica.

Sobre o PCP, a líder do BE lamenta não ter podido fazer um frente-a-frente com Jerónimo de Sousa, até porque os debates são importantes para esclarecer. Sobre o PAN, não o vê como concorrente, mas assume divergências quanto ao método.

Traços de autoritarismo de Rio

Sobre o líder do PSD, Catarina Martins considera que Rui Rio tem traços de autoritarismo e “desprezo pelo debate democrático”, acusando a direita no seu todo de “não ter nada para dizer” nestas eleições legislativas. Confessando que nunca debateu com Rui Rio, mas que conhece a sua prática no Porto, Catarina Martins reconhece que fica “um bocadinho desconcertada” com o seu discurso de “'eu penso isto, mas se for um bocadinho diferente também pode ser'”. E afirma que “não se sabe, afinal, o que o PSD pensa sobre cada matéria”, o que “torna mais difícil o debate por [haver] falta de clareza do projecto para o país”.

Ainda sobre o presidente do PSD, Catarina Martins sustenta que “Rui Rio tem uma espontaneidade na conversa que é real, ele é mesmo assim e isso desperta alguma simpatia porque todos nós gostamos de estar a debater com alguém que tenha esse grau de espontaneidade.”. Mas chama, no entanto, a atenção para o facto de essa espontaneidade também ter “muitas vezes uma dimensão de um certo desprezo pelo debate democrático, ou de não o considerar muito importante”. E sublinha: “isso é perigoso porque com isso vem o autoritarismo que toda a gente que viveu no Porto conheceu tão bem”.

Sobre a direita em geral, Catarina Martins não tem dúvidas de que tanto o PSD como o CDS ficaram “desorientados” e sem discurso: “Lendo os programas do PSD e do CDS é até confrangedor. Por um lado, as suas contradições, por outro lado, a sua falta de capacidade de dizer como é que vão executar aquilo a que se propõem, porque não têm coragem de propor voltar atrás”. E conclui: “Estes quatro anos mudaram o centro do debate político”, declara. “O que a direita propõe são cortes como única forma de ter contas equilibradas no país e ficou sem nenhum programa (…), ou seja, provou-se que mais salário e mais pensão é importantíssimo para a economia (…), cria empregos. Portanto, a direita ficou à espera do diabo, [e isso] não aconteceu.”

E se, segundo a coordenadora do BE, há quatro anos, a direita dizia “claramente que queria baixar os custos de trabalho, hoje já não tem coragem de dizer, mas também não põe nada [nos programas] que resolva o problema dos baixos salários em Portugal”.

Por essa razão, Catarina Martins considera que a tensão de debate se deslocou para a esquerda, deixando de existir com a direita”: “a história desta legislatura é a tensão entre o Partido Socialista e a esquerda”.

“Muito do que se debate agora é em condições diferentes, é um equilíbrio diferente, e o que se vai debater nestas eleições e aquilo que o resultado eleitoral nos dirá é se é possível um novo equilíbrio à esquerda ou não”, refere, para destacar que “é por isso que este é um debate diferente do que era há quatro anos”.

Na entrevista à Lusa, a coordenadora bloquista assume que os últimos quatro anos foram de “debate muito intenso, mesmo dentro do BE”, apontando que o partido não penaliza quem expressa publicamente a opinião, mantém a diversidade, mas com “grande coesão” na direcção. “Nós temos uma grande vantagem no BE, não há divergências caladas. A vida interna do BE é sempre muito pública. Como sabem ninguém é penalizado no partido por exprimir publicamente a sua opinião”, responde, quando questionada sobre a vida interna do partido.

Catarina Martins refere-se ainda à ideia já defendida por si de que o programa eleitoral é “essencialmente social-democrata”, algo que garante não ser novo, mas que “a direita, à falta de programa, tem tentado apanhar qualquer frase para tentar encontrar clivagem, fricção”.

Europa: PS cedeu à extrema-direita

Abordando a formação da nova Comissão Europeia, Catarina Martins acusa o PS e outros partidos do centro europeus de terem falhado na luta contra a extrema-direita e considera que há “um sinal económico grave” na pasta atribuída a Elisa Ferreira na futura Comissão Europeia.

“O Partido Socialista em Portugal e outros partidos ditos de centro em outros países da Europa prometeram construir uma aliança que não permitisse à extrema-direita conduzir os destinos da Europa e, de facto, falharam em toda a linha e acabaram por ceder”, afirma. A líder do BE usa palavras fortes e culpa os socialistas por “uma completa cedência à extrema-direita na Comissão Europeia” que vê as suas posições reforçadas.

Catarina Martins cita o facto de ter sido atribuído o nome de “modo de vida europeu” a uma pasta sobre migrações: “Isto não é só uma cedência a uma semântica da extrema-direita, até porque, como sabem, não existe um modo de vida europeu (…) modos de vida há muitos na União Europeia”. E acrescenta: “aquilo de que estamos a falar é da ideia de alimentar uma retórica xenófoba que é muito prejudicial e que não tem nada a ver com aquilo que consideramos que deve ser um espaço europeu, que deve ser um espaço de respeito pelos Direitos Humanos”.