Conselho de Segurança aprova proposta de Obama para caçar candidatos a jihadistas

Resolução apresentada pelos EUA obriga Estados a criminalizar quem viajar ou facilitar viagens para se juntar a organizações como o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda.

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Obama presidiu ao Conselho de Segurança pela segunda vez Timothy A. CLARY/AFP

Os EUA não querem ser vistos como os únicos beligerantes contra os novos jihadistas que, nas estimativas dos serviços secretos americanos, atraíram “15 mil combatentes estrangeiros, de mais de 80 países diferentes”, disse Obama. Esse princípio foi bem vincado pelo Presidente americano tanto na reunião do Conselho de Segurança como no discurso que pronunciou, antes, na Assembleia das Nações Unidas, em que apelou a uma mobilização moral.

Obama quer construir um esforço multilateral contra o terrorismo: “Não toleraremos refúgios de terroristas, nem que actuem como uma potência ocupante. Agiremos contra quaisquer ameaças à nossa segurança, e dos nossos aliados, construindo uma arquitectura de cooperação antiterrorista.”

Daí a importância da resolução ontem discutida no Conselho de Segurança, e que se esperava que fosse aprovada. Elaborada ao abrigo do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas – que prevê sanções para os países que não respeitarem o que for aprovado –, a resolução 2178 prevê que os países transponham para a sua legislação medidas para criminalizar tentativas de viajar ou de organizar viagens para o estrangeiro para se juntar a uma organização terrorista. Prevê também que os Estados exijam às transportadoras aéreas a operar no seu território que permitam o acesso às suas listas de passageiros, e que os países partilhem informações sobre eventuais suspeitos.

A resolução deixa em aberto a possibilidade de impor sanções a quem financie ou facilite as viagens de combatentes estrangeiros que estejam na lista de sanções de pessoas relacionadas com a Al-Qaeda. O Departamento do Tesouro dos EUA impôs nesta quarta-feira sanções contra oito pessoas que diz terem financiado ou ajudado a juntarem-se ao Estado Islâmico e à Frente Al-Nusra (o grupo associado à Al-Qaeda na Síria), noticiou a Associated Press.

3000 europeus
A maioria dos milhares de estrangeiros que combatem neste momento no Iraque e na Síria, com o EI ou outros grupos radicais, são de países muçulmanos e começaram a fluir para a Síria por causa da guerra civil, quando em 2011 a oposição pegou em armas contra o regime de Bashar al-Assad. As últimas estimativas do Centro Internacional de Estudo da Radicalização, em Londres, são ligeiramente mais baixas do que as das autoridades norte-americanas: serão cerca de 12 mil, de 74 países. Mas destes, 3000 serão europeus – e o mais preocupante é que antes de Julho seriam apenas 2000, disse à AFP o coordenador da luta contra o terrorismo na União Europeia, Gilles de Kerchove.

Este aumento ter-se-á devido aos sucessos no terreno do Estado Islâmico, que em Junho declarou um califado, abarcando regiões da Síria e do Iraque, reconheceu Kerchove. A maior parte destes combatentes europeus vêm de França, do Reino Unido, da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, da Suécia e da Dinamarca, mas também há alguns de Espanha, Itália, Irlanda, Áustria – e portugueses.

Estima-se que “20% a 30% tenham regressado a casa, e muitos sofrem de stress pós-traumático". “O desafio para cada Estado é avaliar o perigo que cada um deles representa e responder da melhor maneira”, disse Kerchove. O principal risco não é que protagonizem um grande atentado, como o do 11 de Setembro em Nova Iorque. “Mas um lobo solitário com uma Kalashnikov pode fazer muitos estragos”, sublinhou.

Apelos aos jovens muçulmanos
Barack Obama falou nas Nações Unidas como um Presidente de guerra – sem, no entanto, pronunciar essa palavra – para justificar os bombardeamentos iniciados na terça-feira em território da Síria, nos quais participaram também cinco países árabes – Bahrein, Jordânia, Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos. “A única linguagem que assassinos como estes compreendem é a da força”, afirmou.

Para “desmantelar esta rede de morte”, e regressar ao Iraque para fazer de novo a guerra, Obama esforça-se por sublinhar as diferenças em relação ao seu predecessor, George W. Bush. Os fantasmas da invasão do Iraque em 2003 sem um mandato da ONU atormentam esta nova “luta global”.

Por isso, o Presidente dos EUA trouxe também um eco do seu discurso ao mundo muçulmano em 2009, juntando palavras conciliadoras ao discurso de guerra. Pediu aos jovens muçulmanos que resistissem à atracção da jihad violenta.

“A vossa cultura tem uma grande tradição de educação, e não de ignorância; de inovação, e não de destruição; de proteger a dignidade da vida, e não de assassínio”, afirmou Obama. “Os que vos desviam deste caminho estão a trair esta tradição, e não a defendê-la.”

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