Ainda o “caso Pavel”: comentário ao novo livro de Edmundo Pedro

Nesta fúria crítica arrasta o nosso pai, Ludgero Pinto Basto (L.P.B.), a quem ofende com acusações gratuitas de “inventar”, ”animosidade”, ”má vontade”, tratar “da saúde às burguesas ricas de Lisboa”, falta de “intervenção no plano social e cultural”, etc. Tudo isto a pretexto de comentários a um artigo de jornal de há 20 (!) anos, e nove (!) anos após L.P.B. ter morrido. Julgamos difícil classificar isto como coragem cívica ou intelectual.

O nosso pai costumava dizer sempre que se falava do “caso Pavel” que era necessário, previamente, esclarecer o “caso Magalhães”. Quem era Magalhães? O Magalhães era Armando Magalhães, agente provocador, infiltrado no PCP, ao serviço da PDVE.

Magalhães era um homem inteligente, ardiloso, insidioso e muito ambicioso, que em Maio de 1938, recém-chegado da URSS, onde frequentara a Escola Leninista de Quadros, era já um responsável máximo do Partido, uma espécie de secretário-geral “interino”. O relatório da fuga de Pavel da cadeia do Aljube que chegou ao responsável da Internacional Comunista em Paris (e ao PC francês) foi da responsabilidade pessoal e exclusiva de Magalhães. Este relatório desonesto e traiçoeiro salienta, muito intencionalmente, não só a extrema dificuldade de fugir de uma prisão tão segura como era o Aljube (dificuldade que nunca fora vencida anteriormente) [Nota: parece que nem isto era verdade, pois já teria havido uma fuga colectiva em 1932 de que fez parte Emídio Guerreiro], mas também a particularidade de a fuga ter sido executada com a decisiva ajuda e mesmo com a comparticipação de um "elemento da Polícia", o enfermeiro da prisão.

Magalhães foi “preso” pouco tempo depois de ter enviado o seu relatório para Paris, o que veio dar mais verosimilhança às suspeitas que ele próprio havia sugerido acerca da fuga de Pavel e da grave infiltração policial na organização do partido. Magalhães passou a colaborar diligentemente com a PVDE na “prisão”, onde casou, pela igreja, com uma russa branca que trouxera consigo para a clandestinidade em Portugal. Como recompensa, a PVDE “libertou-o” ao fim de alguns meses, tendo-lhe facilitado a ida para o Brasil, onde, segundo consta, refez a sua vida.

L.P.B., que, na altura, pertencia ao secretariado nacional do PCP, desempenhou na fuga de Pavel um importante papel e atribuía todas as culpas individualizáveis neste caso ao Magalhães.

Os fugitivos (Pavel, o enfermeiro Augusto Rodrigues e o jovem António Gomes Pereira) foram viver para a casa clandestina onde vivia L.P.B. com a sua mulher, Brízida, e o seu (na altura único) filho Ernâni, a fim de serem tratados dos graves ferimentos que apresentavam e da afeção pulmonar de que Pavel padecia.

O tratamento dos evadidos e posteriormente o seu encaminhamento para França demorou vários meses e o relacionamento com eles foi sempre de grande amizade e respeito, pelo que L.P.B. considerava Pavel um militante revolucionário empenhado e um homem honrado.

No que respeita a Álvaro Cunhal, não teve qualquer interferência no processo porque estava preso e no período de 1940-1948 (data da nova prisão de Cunhal) seria difícil, para não dizer impossível, o contacto com Pavel, de quem se desconhecia o paradeiro.

Após o responsável em Paris da Internacional Comunista ter reportado o relatório do Magalhães, esta cortou relações com o PC Português e abandonou Pavel, em Paris. Pavel, como homem honesto que era, sofreu o enorme traumatismo ocasionado pela injustiça de se ver caluniado e repelido, reagiu à sua maneira, seguiu a sua vida, foi para o México.

No seu livro O Partido com Paredes de Vidro (Edições Avante!, 1985, pág. 252 da 6.ª edição de 2002) Cunhal, com a sua autoridade, critica a Internacional Comunista e denuncia, explicitamente, a “injusta suspeita criada”.

Depois da evasão de Peniche, e depois da retomada de funções de Cunhal (após 12 anos de cadeia), L.P.B. consegue fazer chegar ao PCP uma sugestão para que se ocupe do “assunto Pavel”. A sugestão é aceite e é o próprio Álvaro Cunhal que toma a iniciativa de convidar Pavel a regressar a Portugal e reocupar o lugar que de direito lhe pertencia na direcção do partido. Pavel não aceitou, sentia-se mais mexicano que português, lá tinha mulher e filhos, tornara-se famoso como crítico de arte bem integrado nos meios intelectuais mexicanos, e... (segundo L.P.B.) já não manteria as mesmas convicções político-ideológicas.

Quando Pavel voltou a Portugal, em 1976, procurou L.P.B. para agradecer o apoio dado em 1938 para a fuga da prisão e a saída do país, tendo sido o único comunista português com quem se quis encontrar; foi uma conversa de amizade e respeito em que L.P.B. teve oportunidade de lhe transmitir esta versão dos acontecimentos. É, pois, notório que as calúnias veiculadas no livro são completamente infundadas e alheias ao verdadeiro “caso Pavel”.

E.P. defende a tese maquiavélica de que Pavel foi afastado do PCP para não fazer sombra a A. Cunhal. L.P.B., que era das poucas pessoas que conheciam de perto o "caso Pavel", não corroborou essa teoria e não se calou. Tentou repor a verdade dos factos. Daí esta inopinada fúria contra a memória de L.P.B., de quem E.P. se diz amigo.

Se L.P.B. pudesse ler este livro, ficaria muito triste porque não esperava que E.P. o tratasse assim. Segundo o próprio E.P., L.P.B. salvou-lhe a vida por duas vezes. Se não o tivesse feito, teria sido poupado a este enxovalho póstumo… De qualquer modo, estamos certos, se a questão se voltasse a colocar, faria o mesmo pela terceira vez.

 

Este comentário é subscrito pelos filhos de Ludgero Pinto Basto (e de Brízida Barata Pinto Basto):

Ludgero Barata Pinto Basto

Eugénio Barata Pinto Basto

Ernâni Barata Pinto Basto

 

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