"Sem congresso, direcção do PS fará o caminho das pedras até às legislativas"

Vera Jardim, ex-ministro da Justiça de António Guterres e primeiro vice-presidente da comissão política do PS, diz que não se deve concentrar em Seguro toda a responsabilidade pelo resultado das europeias. Mas considera que António Costa está no direito de pensar que a direcção não conseguiu os objectivos mínimos do partido.

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Daniel Rocha

O PS perdeu uma grande oportunidade por não ter aproveitado a derrota histórica da direita para obter a sua própria vitória histórica?
O Governo teve uma derrota histórica e o PS não teve uma vitória histórica, mas é preciso alagarmos o horizonte da análise e ver o que é que se passou na Europa e o que é que se está a passar em Portugal. Há aqui um castigo a todos os partidos, sobretudo aos da esquerda democrática. Há uma série de factores que bem mereciam ser discutidos, quer na comissão nacional, quer durante o congresso que espero que venha a ter lugar. Esta não é uma “vitória de Pirro”, é uma vitória que fica aquém das nossas expectativas, mas que não é da inteira responsabilidade da direcção do PS, embora o partido não tenha sido capaz de aproveitar o descontentamento e obter uma vitória mais robusta.

“Faltou uma corrente de confiança dos eleitores em relação a uma liderança que, ao longo dos tempos, mal se tem identificado com a própria identidade do PS”, como escreveu ontem Mário Soares no PÚBLICO?
O dr. Mário Soares é livre de exprimir a sua opinião e de apoiar um dos candidatos. Não tenho nada a criticar, mas já não julgo muito felizes as intervenções sobre quem é o verdadeiro socialista. Não devemos entrar por aí, não devemos fulanizar na figura do secretário-geral ou de outros elementos do PS toda a responsabilidade por um resultado que, não tendo sido mau, ficou aquém das nossas expectativas. Não me parece que seja muito positivo para o debate fulanizar as coisas e dizer que a culpa foi deste ou daquele, isso envenena a capacidade do PS de sair mais forte desta crise.

O PS precisa de clarificar o seu caminho, o seu projecto e a sua política de alianças. Em seu entender, o secretário-geral do PS deve convocar um congresso extraordinário?
Esse esforço tem sido feito nos últimos tempos com várias propostas, agora é preciso aprofundá-las. Não basta dizer que se quer lutar contra o desemprego, contra a pobreza, que se quer mais qualificação. É preciso aprofundar essas propostas. Há um caminho a percorrer – temos tempo - para densificar essas propostas e dizer como é que lá chegamos. Seja quem for que ganhe as eleições deve clarificar o caminho, o projecto, as equipas e a política de alianças.

Há socialistas que criticam o timing de António Costa para avançar para a liderança do partido. Concorda?
Este seria o último timing possível. O dr. António Costa fez uma leitura dos resultados eleitorais e tirou daí as suas conclusões e está no seu direito de se disponibilizar para uma luta eleitoral dentro do PS. A luta eleitoral é boa, pode e deve ser enriquecedora. Espero que esta situação se resolva o mais rapidamente possível e que o PS possa sair mais undo no fim deste processo, que está a ser traumatizante para todos os socialistas. A não clarificação desta situação em congresso levaria necessariamente a actual direcção a percorrer o caminho das pedras até às eleições legislativas, e isso seria muito negativo e teria reflexos nos resultados eleitorais de 2015.

António Costa argumenta que decidiu avançar por entender que já deu todas as oportunidades a Seguro. Concorda?
Isso é a posição do dr. António Costa, que está no seu legítimo direito de pensar que a direcção não correspondeu aos mínimos que ele, na sua percepção, tinha como objectivos do PS. Não tenho que comentar se o dr. António Costa deu ou não deu todas as oportunidades à direcção do PS.

Como explica que o líder do PS não tenha conseguido capitalizar três anos de profunda austeridade?
Há muitos países que estão na posição do PS, que tiveram austeridades parecidas com a nossa e que não conseguiram afirmar-se como alternativa, porque os cidadãos acham que esses partidos estão também ligados às políticas de austeridade. Mau grado os esforços que o secretário-geral do PS fez, e é justo reconhecê-lo, a política não é o lugar da justiça. O lugar da justiça é a memória e a história.

Se o PS ganhar as legislativas de 2015 com uma maioria relativa, considera que faz sentido haver um entendimento com o PSD?
É muito cedo para falar disso. Não sabemos o que é que sucederá ao PSD no caso de vitória do PS. Mas, atenção: a geografia política está a mudar e temos de estar atentos ao que se está a passar. O PS não pode estar amarrado para todo o sempre à inevitabilidade de fazer um acordo à direita. Acho que são possíveis e necessários acordos com o PSD e com a direita. Mas gostaria que a direcção do PS, seja ela qual for na altura, alargasse esses horizontes a outros espectros. Nós não sabemos o que será, daqui a um ano, o Partido da Terra, o Livre, não sabemos como estará o Bloco de Esquerda e as pessoas que, tendo saído do BE, tentam criar novas forças políticas no sentido de poderem fazer uma aliança com o PS. O PS terá de estar atento a todos esses fenómenos.

O secretário-geral do PS apresentou as bases de um programa de Governo durante a campanha das europeias. Foi um erro político?
Não lhe chamaria erro político, mas não foi o melhor momento para apresentar esse conjunto de ideias. Confesso que 80 ideias apresentadas nesta altura da forma como o foram foi coisa que não considerei muito adequada. Preferia que se tivessem apresentado oito ou dez, porque 80 ideias ninguém assimila e os cidadãos carecem de perceber o que é que está em causa.

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