Quando as marionetas não podiam dar beijos

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Mumford fez das suas marionetas um modo de contar histórias num tempo em que ainda não havia TV e menos ainda preconceitos sobre para que público se poderia dirigir um espectáculos com seres que dependiam de outros para viver Gert Kiermeyerb

Há uma fotografia por datar no imenso aquivo de Frank Mumford, alegre nonagenário que, durante anos, percorreu o mundo com as suas marionetas e um dia as guardou no sótão. Perante uma plateia de 600 pessoas, assim se lê nas costas da fotografia, as marionetas de Frank e Maisie, a sua mulher, contribuíam para a angariação de fundos de um novo estádio internacional em Lisboa. Lê-se ainda que isto terá sido entre 1959 e 1965 e, segundo as datas, o único que corresponde é o actual Parque de Jogos 1º de Maio, pertença do INATEL, herança do antigo regime da FNAT, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho. Mas nada disto é certo até porque Frank Mumford não gosta de pensar em datas porque isso o faz pensar no tempo. Tem 94 anos e é ele o tema de um documentário de Richard Butchins que se apresenta no Jardim de Inverno do teatro São Luiz, em sessão, dia 11, às 21h30.

Porque é que este detalhe – que nem surge no filme – é relevante? Porque Frank Mumford é uma lenda, ainda viva, das marionetas e nem a fragilidade decorrente da idade o demove de subir ao sótão e trazer de volta as marionetas que são como se fossem seus filhos. Seus e de Maisie, que conheceu por alturas da Segunda Guerra Mundial, ela a trabalhar no Serviço de Inteligência do Exército Britânico e ele conhecido por andar sempre de marionetas atrás e convidado a animar os serões. “A guerra é um sítio horrível. Encontramo-nos no fim”, disse-lhe ele certo dia. E assim foi. Deram a volta ao mundo - incluindo várias passagens por Lisboa onde se apresentaram no Casino do Estoril e castelo de S. Jorge - e agora, do sótão da sua casa em Londres esse mundo parece mais pequeno que os cabarés onde apresentava personagens como Zizi, a vaporosa e sedutora mulher que conseguiu roubar um beijo ao príncipe de Windsor quando as marionetas não podiam dar beijos. Recorda Mumford: “Construí a Zizi em 1947. Foi modelada e inspirada em forografias da Lana Turner e Gypsy Rose Lee. Com cerca de 66 centímetros de altura, Zizi provou ter um sucesso imediato com o público. A Watch Committee proibiu-a em 1950, quando nos apresentamos no Birmingham Hippodrome – por beijar membros masculinos da plateia. Fez logo grandes manchetes de notícias e aumentou muito a nossa receita e o lucro daquele ano!”

“Acutilante, divertido, matreiro, articulado e ocasionalmente acintoso”, descreve o realizador, Mumford fez das suas marionetas de fios um modo de contar histórias num tempo em que ainda não havia televisão e menos ainda preconceitos sobre para que público se poderia dirigir um espectáculos com seres que dependiam de outros para viver.

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