Assis quer "candidatura de aglutinação" que vá do centro-direita à esquerda do PS

Cabeça de lista às europeias acredita poder congregar descontentes do centro, centro-direita e esquerda. Primeiro dia das jornadas parlamentares do PS serviu para dizer "não" ao consenso pedido pelo Governo.

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Assis pretende “federar” nas europeias o “grande descontentamento” em relação ao Governo Rui Gaudêncio

No final do primeiro dia das jornadas parlamentares do PS, que decorrem até esta terça-feira na Nazaré, o deputado socialista definiu os objectivos para a sua campanha eleitoral, que deverá incluir propostas para a promoção do “crescimento económico" e para a "manutenção do Estado social”. Matérias em que, frisou, “há capacidade de aglutinação” de vários sectores políticos que vão muito além da esfera socialista. “Nada disto é contraditório, há muita gente que se situa neste espaço”, assegura. E rejeitou a ideia de que o seu nome possa gerar anti-corpos mais à esquerda.“A minha candidatura é evidentemente do bloco central e estruturante da esquerda portuguesa”, garantira momentos antes, quando as televisões lembravam o seu posicionamento político.

São o “centro e centro-direita” que Assis refere em primeiro lugar. Para sustentar que, entre “os sociais-democratas”, há quem não se reveja no actual Governo. E, depois, “à esquerda, mesmo não coincidindo em tudo com o PS, tem que se perceber que é com o PS que se pode construir uma alternativa” ao actual estado do país.

Questionado sobre a concretização desse esforço de congregação, Assis admitiu que tal se venha a “manifestar na lista” proposta pelos socialistas para o Parlamento Europeu, mas sublinhou que essa é uma responsabilidade exclusiva do secretário-geral. “A questão, neste momento, é o PS apresentar um programa, um projecto capaz de gerar confiança”, afirmou ao PÚBLICO.

Sobre nomes possíveis não falou, portanto. Nem sequer sobre o do economista Ricardo Paes Mamede que foi um dos oradores convidados para estas jornadas e um dos signatários do documento do Movimento 3D. O próprio economista evitou o tema, ao assumir, antes da sua intervenção perante os deputados, que estava ali a “título estritamente pessoal”. “Nada do que eu disser aqui pode comprometer mais alguém que não eu próprio". Mas Assis admitiu que veria com bons olhos a colaboração de Mamede na elaboração do programa para as europeias, se “ele quisesse participar”.

Ainda assim, o esforço de consenso dos socialistas tem limites. E a linha vermelha traçada pelo principal partido da oposição parece deixar do outro lado o Governo e a liderança do PSD.

Logo na abertura das jornadas, Alberto Martins, líder parlamentar do PS, voltou a manifestar a total indisponibilidade do partido para aceitar a proposta de Passos Coelho no sentido da reactivação da comissão parlamentar para a Reforma do Estado. Alberto Martins considera que a intenção do primeiro-ministro é apenas negociar mais cortes. "Uma nova máscara de austeridade que querem continuar a impor aos portugueses", denunciou o deputado. "Não contem connosco para isto, não contem com mais austeridade", rematou.

O PS também se fez difícil em relação ao apelo do ministro da Economia, Pires de Lima, sobre o plano de infra-estruturas de valor acrescentado. O deputado Rui Paulo Figueiredo respondeu a uma segunda carta do Governo, desta feita assinada pelo secretário de Estado Sérgio Monteiro, para dizer “que não se pode ter uma discussão séria" quando o Executivo mostra não ter feito “os trabalhos de casa”. Em causa, justificou Figueiredo, está o facto de Monteiro ter confirmado que, dos 30 projectos elencados, "15 não têm a análise do custo benefício”. E o facto de nenhum dos 30 ter uma avaliação do impacto do investimento “no crescimento e emprego”, acrescentou o parlamentar. Assim, o PS fica à espera de dados adicionais.

E caso existissem ainda dúvidas sobre a resistência do PS a negociar seja o que for com o Governo, essas ficariam dissipadas com a insistência na criação de uma comissão de inquérito à aquisição dos submarinos e viaturas blindadas Pandur, quando Paulo Portas era ministro da Defesa. Alberto Martins voltou ao tema para denunciar a “actuação menos cuidada ou, nalguns casos, mesmo dolosa” nesses processos.  E rematou com uma  comparação: “na Alemanha foi concluído com condenação" um processo judicial que envolvia gestores do consórcio GSC, que vendeu os submarinos à Marinha portuguesa.

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