Uma aparição setecentista que faz lembrar as de Fátima

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Fátima, 2011: calcula-se que só nos séculos XIX e XX haja registo de "um milhar de aparições em toda a Europa"Peregrinos em Fátima, 2011: depois da morte do último apóstolo é deixado ao arbítrio dos fiéis acreditar ou não nas aparições ERIC VIVES-RUBIO

Num documento do século XVIII conservado na Torre do Tombo, o então pároco da freguesia de Folhada, no Marco de Canaveses, relata uma aparição mariana semelhante às de Fátima, que por estes dias se celebram. Com a grande diferença de que não vingou e ninguém rende hoje culto à Nossa Senhora da Folhada

No dia 13 de Maio, três pastorinhas de "menos de 12 anos" ouviram "uma voz que as chamava" e viram, "num cabeço", uma mulher "de brilhante e resplandecente rosto". Uma das meninas perguntou à mulher quem era, e esta respondeu-lhe que o saberiam depois de fazerem durante "nove dias contínuos, ao redor daqueles penedos, uma romaria em louvor de Nossa Senhora". E naquele mesmo sítio, a 14 de Agosto, véspera da Assunção, "de noite se viu uma luz tão resplandecente quase a horas de meia-noite, que afirmam se podia ler uma carta à sua claridade".

O relato que aqui resumimos, da autoria do padre José Franco Bravo, parece uma versão estranhamente truncada das aparições de Fátima. Mas não é, nem podia ser, já que o texto foi escrito 160 anos antes das alegadas aparições de Nossa Senhora a Lúcia dos Santos e aos seus primos Francisco e Jacinta Marto.

Pároco da Folhada, freguesia situada no sopé da serra da Aboboreira, no Marco de Canaveses - onde ainda hoje existe uma capela significativamente chamada da Senhora da Aparecida -, José Bravo deixou testemunho, em 1758, de uma aparição que ali teria tido lugar no ano anterior. Perdido durante século e meio, o manuscrito foi encontrado na Torre do Tombo e divulgado na obra As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758, da autoria de José Viriato Capela, Henrique Matos e Rogério Borralheiro, que incluíram no livro uma imagem digitalizada do manuscrito do padre da Folhada.

A obra foi editada em 2009 pela empresa gráfica bracarense Barbosa & Xavier, e o estranho caso da Folhada até chegou a ser objecto de uma pequena notícia no "DN", que o padre Mário Oliveira depois comentaria no seu jornal Fraternizar, sublinhando numa perspectiva crítica as coincidências com os relatos de Fátima. Mas a aparição setecentista, que teria ocorrido escassos dois anos após o terramoto de Lisboa, continua a ser largamente ignorada fora do círculo restrito dos que, dentro e fora da Igreja, investigam este tipo de fenómenos religiosos.

E são no mínimo curiosas as semelhanças entre a aparição da Folhada, que teria sido testemunhada pelas pastorinhas marcoenses "nas fraldas dos grossos e ásperos matos da serra de Aboboreira", segundo conta o pároco, e as hoje mundialmente célebres aparições da Cova da Iria. Desde logo, ocorreram no mesmo dia do ano, a 13 de Maio, e terão tido como testemunhas três crianças com menos de 12 anos, todas elas pastoras. Antecipando o que Lúcia terá feito, também uma das pastorinhas da Folhada perguntou directamente à aparição quem era e ao que vinha, tendo obtido como resposta, tal como Lúcia, que o ficaria a saber mais tarde, desde que cumprisse determinadas instruções. Finalmente, se não consta que o sol bailasse no Marco de Canaveses, parece ter pelo menos brilhado em plena noite.

Uma chusma de aparições

É certo que as pastorinhas da Folhada eram todas meninas, e o autor do relato até acrescenta que a aparição as chamou "cada qual pelo seu nome, que eram duas Marias e uma Teresa". Mas esta diferença também pode ser vista como mais uma coincidência, ainda que atenuada pela frequência do nome próprio Maria. Lembremo-nos de que Lúcia, dois anos antes das aparições de 1917 na Cova da Iria, tivera três visões de uma "nuvem mais branca que a neve, algo transparente, com forma humana". É ela que o conta nas suas memórias, escritas a partir de 1937, e adianta que estas presumíveis primeiras aparições foram também presenciadas por outras três pastorinhas, cujos nomes indica: Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino. Ou seja, duas Marias e uma Teresa.

O PÚBLICO não conseguiu contactar o historiador José Viriato Capela, que coordenou a investigação destas memórias paroquiais, mas o director da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, assegura que a hipótese de falsificação está posta de parte, já que o relato da aparição é apenas um excerto do manuscrito do padre da Folhada, que se conserva num volume encadernado. A totalidade do texto está já disponível em versão digital na página da Torre do Tombo na internet.

Seria pouco provável, de resto, que alguém se desse ao trabalho de forjar a posteriori uma suposta aparição anterior e mais ou menos idêntica às de Fátima. É que se as semelhanças entre os fenómenos da Folhada e da Cova da Iria saltam bastante à vista, a aparição de 1757 está longe de ser caso único. São tantas as aparições marianas registadas em documentos genuínos - isto é, cuja autoria e antiguidade não merecem dúvidas - que não valeria a pena inventar mais uma. O bispo Carlos Azevedo, que actualmente exerce no Vaticano o cargo de delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, calcula que só nos séculos XIX e XX haja registo de "um milhar de aparições em toda a Europa", acrescentando que estas tendem a "seguir arquétipos um tanto miméticos", já que, argumenta, "ao narrar-se um facto extraordinário, vai-se buscar um pouco o que está na memória".

Para este bispo e historiador, que coordenou vários dos volumes da documentação crítica de Fátima, se alguns destes fenómenos "ficam nos registos da época" e outros "conseguem sobreviver", é porque os últimos, "pela sua própria experiência de continuidade, revelam alguma radicalidade". Mas reconhece que "o contexto social e económico favorece a multiplicação destes sinais" e também "o valor e a importância" que lhes são conferidos. De facto, dentro e fora de Portugal, boa parte das aparições marianas ocorreram em zonas rurais, quase sempre pobres, e em períodos de convulsão social ou guerra.

Frei Bento Domingues nota, por sua vez, que "na Europa dos tempos modernos há sempre mais manifestações do sagrado no Sul, onde se desenvolveu uma piedade mariana, do que nos países nórdicos e na Alemanha, que tiveram formação protestante, mais decalcada da Bíblia. O colunista do PÚBLICO lembra ainda que a proliferação de fenómenos deste tipo vem já da Idade Média, quando "a religião oficial era muito hierática e esquemática", o que pode ter contribuído para "estas aparições particulares, que eram mais quentes ao coração, uma espécie de refúgio devocional no campo individual".

As afinidades entre aparições distanciadas no tempo e no espaço também não surpreendem frei Bento Domingues, quer porque "as estruturas são sempre as do espírito humano, e em tudo o que é humano há semelhanças e divergências", quer porque "uma coisa é a experiência do sagrado e outra coisa é a configuração literária que lhe é dada pelos videntes, que depende do seu contexto social e pode ser influenciada, por exemplo, pela catequese ou pelos sermões dos padres".

Maquinações das trevas

O padre setecentista da Folhada diz que o local da aparição foi palco de vários outros milagres, que não descreve, mas acrescenta: "O maior que tenho observado é o infinito povo que continuamente concorre àquele sítio." Mas esse povo vai hoje a Fátima e esqueceu há muito as pastorinhas nortenhas, como esqueceu as várias aparições contemporâneas das da Cova da Iria. Numa comunicação ainda inédita para o colóquio Tempos de Guerra e de Paz. Estado, Sociedade e Cultura Política nos Séculos XX e XXI, Luís Filipe Torgal recorda, entre outras referidas na imprensa da época, a de Espinho, onde em Junho de 1916 a imagem de Nossa Senhora se teria deixado ver numa estrela e "murmurava a quem a avistava que não deixassem ninguém ir para a guerra"; a de Pardilhó, em Estarreja, onde, no mesmo mês, uma figura de mulher envolta num manto alvo teria anunciado o fim da guerra; e a dupla aparição de S. João de Vila Chã, Ponte da Barca, a 10 e 11 de Maio de 1917: nas vésperas da primeira aparição na Cova da Iria, Nossa Senhora teria ali aparecido a um pastorinho, recomendando-lhe que ordenasse aos outros pastores a reza do terço e da oração Estrela do Céu, que, explica Torgal, era "uma velha oração cantada naquela freguesia quando havia guerra ou outra calamidade".

Mas se Fátima tem inúmeros antecedentes, também não lhe faltam réplicas. Logo em 1918, na ilha açoriana de S. Miguel, terão ocorrido, segundo os relatos da imprensa compulsados por Torgal, duas aparições de uma "Senhora muito linda", que se apresentava "vestida de branco e envolta num clarão". As testemunhas originais foram duas crianças de oito anos, mas, tal como em Fátima, a população em geral teve direito a um milagre do sol, com o astro a comportar-se durante um quarto de hora como "uma roda de fogo preso", depois de se ter "despido do seu grande brilho" e dado a ver as figuras "de Nossa Senhora, de Nosso Senhor, de anjos, e de uma igreja!"

Torgal sublinha que estas e outras aparições são referidas pelo cónego Manuel Formigão, personagem decisiva na construção do fenómeno de Fátima, que as considera contrafacções destinadas a manipular "as massas populares, ignorantes e facilmente crédulas". Formigão vê mesmo por trás delas "uma maquinação do espírito das trevas". Compreende-se que, nesse período de consolidação de Fátima, uma chusma de aparições parecidas era o que menos convinha.

A "mais profética"

Na linha dos poucos autores que, durante o anterior regime, procuraram demonstrar que Fátima fora uma deliberada encenação da Igreja, como Tomás da Fonseca, autor de Na Cova dos Leões, ou o seu seguidor João Ilharco, que publicou Fátima Desmascarada, também Torgal, em O Sol Bailou ao Meio-Dia, defende que Fátima começou por ser uma reacção ao jacobinismo republicano e à participação de Portugal na Grande Guerra, para depois acoplar a posteriori uma mensagem anticomunista e se tornar, finalmente, um fenómeno mundial, abençoado por sucessivos papas, e especialmente por Pio XII e João Paulo II. Também o actual Bento XVI, quando era ainda cardeal Ratzinger e responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, teorizou sobre os três segredos que teriam sido confiados a Lúcia e considerou Fátima "a mais profética das aparições modernas".

Para a Igreja Católica, a revelação de inequívoca origem divina é a que está na Bíblia, ainda que se tenha convencionado conceder o mesmo estatuto a algumas aparições testemunhadas por contemporâneos de Cristo. Mas após a morte do último apóstolo, todas as revelações são consideradas de ordem "particular" e é deixado ao arbítrio dos fiéis acreditar ou não nelas. Como nota frei Bento Domingues, os responsáveis da Igreja podem apenas confirmar que "não há nada numa determinada aparição que ofenda a revelação" propriamente dita. "O facto de vários papas terem vindo a Fátima", observa, "torna mais credível a realidade das aparições, mas não dá garantia nenhuma."

A adesão que a hierarquia da Igreja foi testemunhando, ao longo de décadas, ao fenómeno de Fátima contribuiu seguramente para o seu crescimento e consolidação. "Cremos bem que foi a Igreja que impôs Fátima e não Fátima que se impôs à Igreja", escreve Torgal. Mas logo após as primeiras aparições, quando o futuro de Fátima era ainda incerto e não estava livre de vir a tornar-se, como a aparição da Folhada, um mero registo na Torre do Tombo, é bem provável que os recorrentes ataques da imprensa republicana, fortemente anticlerical, tenham acabado por dar uma ajuda inestimável aos esforços do padre Manuel Formigão, do bispo de Leiria e de outros pioneiros promotores do futuro "altar do mundo". O PÚBLICO não conseguiu contactar o historiador José Viriato Capela, que coordenou a investigação destas memórias paroquiais, mas o director da Torre do Tombo, Silvestre Lacerda, assegura que a hipótese de falsificação está posta de parte, já que o relato da aparição é apenas um excerto do manuscrito do padre da Folhada, que se conserva num volume encadernado. A totalidade do texto está já disponível em versão digital na página da Torre do Tombo na internet.

Seria pouco provável, de resto, que alguém se desse ao trabalho de forjar a posteriori uma suposta aparição anterior e mais ou menos idêntica às de Fátima. É que se as semelhanças entre os fenómenos da Folhada e da Cova da Iria saltam bastante à vista, a aparição de 1757 está longe de ser caso único. São tantas as aparições marianas registadas em documentos genuínos - isto é, cuja autoria e antiguidade não merecem dúvidas - que não valeria a pena inventar mais uma. O bispo Carlos Azevedo, que actualmente exerce no Vaticano o cargo de delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, calcula que só nos séculos XIX e XX haja registo de "um milhar de aparições em toda a Europa", acrescentando que estas tendem a "seguir arquétipos um tanto miméticos", já que, argumenta, "ao narrar-se um facto extraordinário, vai-se buscar um pouco o que está na memória".

Para este bispo e historiador, que coordenou vários dos volumes da documentação crítica de Fátima, se alguns destes fenómenos "ficam nos registos da época" e outros "conseguem sobreviver", é porque os últimos, "pela sua própria experiência de continuidade, revelam alguma radicalidade". Mas reconhece que "o contexto social e económico favorece "a multiplicação destes sinais", e também "o valor e a importância" que lhes são conferidos. De facto, dentro e fora de Portugal, boa parte das aparições marianas ocorreram em zonas rurais, quase sempre pobres, e em períodos de convulsão social ou guerra.

Frei Bento Domingues nota, por sua vez, que "na Europa dos tempos modernos há sempre mais manifestações do sagrado no sul, onde se desenvolveu uma piedade mariana, do que nos países nórdicos e na Alemanha, que tiveram formação protestante, mais decalcada da Bíblia. O colunista do PÚBLICO lembra ainda que a proliferação de fenómenos deste tipo vem já da Idade Média,

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