Sem Nome

Apesar de vir apadrinhado por Gael García Bernal e Diego Luna, co-produtores do filme através da sua companhia Canana, "Sem Nome" é a estreia na realização do nipo-americano Cary Fukunaga - o que corre o risco de cantonar erradamente o filme na prateleira dos objectos cinematográficos de "turismo bem-intencionado". Nada mais longe da verdade: o olhar de Fukunaga sobre a realidade quotidiana da América Latina e as razões da emigração ilegal para os EUA, ancorado numa narrativa dramática mais ou menos tradicional com ecos actualizados dos velhos dramas de gangues de rua, evita as condescendências e muitos dos lugares-comuns que se esperariam de um olhar externo sobre uma questão escaldante.

"Sem Nome" cruza os percursos de Sayra, que segue o pai e o tio em busca de uma vida melhor nos EUA, e Willy, em fuga depois de ter traído o gangue a que pertence - e o filme começa a ganhar-se logo no desencanto e no pragmatismo destas personagens, para quem a ideia de um "futuro melhor" é um sonho praticamente inalcançável.

Depois, há o olho de um cineasta que se recusa a explorar a beleza das paisagens naturais que os seus migrantes atravessam, usando-a como simples nota de contraste com as dificuldades que os espreitam na longa viagem clandestina em cima de comboios de mercadorias - viagem que o próprio Fukunaga realizou como preparação para o filme e à qual se pode atribuir a sensação de veracidade que se desprende de "Sem Nome", mesmo quando a narrativa arrisca tombar na convenção. É uma estreia com garra e cabeça, que fala de coisas sérias sem as sublinhar a traço grosso.

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