Carta de José Malhoa sobre "O Fado" vai hoje a leilão

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"O Fado" foi pintado em 1910 DR

A carta é a resposta indignada do pintor a artigos publicados em dois jornais de então, "A Capital" e "O Dia", a propósito da aquisição do quadro pela Câmara Municipal de Lisboa, de cujo acervo ainda hoje faz parte.

Malhoa, como hoje lembrou à Lusa o responsável da Leiloeira, António Trincão, fez duas versões de "O Fado" — uma, "a mais importante", propriedade da autarquia lisboeta, e outra na posse de um particular.

A primeira versão recebera já elogios da crítica, nomeadamente a francesa, e várias distinções - medalha de ouro numa exposição internacional em Buenos Aires, e um Grande Prémio na exposição Panamá-Pacífico, por exemplo - quando "O Dia" e "A Capital" saíram a terreiro a criticar a compra.

"'O Dia' — escreve Malhoa na carta — diz que foi um arranjinho, visto o quadro ser pintado em 1910 e só agora ser exposto, 'A Capital' diz que a câmara devia fazer compra de trabalhos já premiados".

Depois de um aplaudido percurso internacional, o quadro voltou a Portugal e esteve exposto no Porto, juntamente com outros da autoria do pintor.

"Ignoro — anota o pintor noutro ponto da carta — que qualquer outro trabalho de artista português tenha reunido um maior número de recompensas, e ao mesmo tempo obtido um tão possível acolhimento do público estrangeiro e do português".

Magoado com o "triste acontecimento", ocorrido quando completava 50 anos de vida artística, Malhoa comenta também na carta a opinião, defendida por alguns, ao tempo — e ainda hoje — de que "O Fado" é "a apologia do vício (!)".

Fazer tal afirmação, contesta, "é esquecer os Borrachos de Velásquez, e todos os Jupiteres, raptos de Ganimedes, as Ledas que se vêem nos museus da Europa".

O envelope da carta desapareceu, pelo que se não sabe, em rigor, a quem a escreveu Malhoa. António Trincão admite que o destinatário fosse o presidente da câmara de então.

A carta, o lote 107 do leilão, está emoldurada em couro gravado a dourado.

Do acervo a leiloar hoje fazem parte quadros de vários pintores portugueses, entre os quais Vieira da Silva, Henrique Medina, Carlos Reis, Artur Loureiro, Almada Negreiros, José de Guimarães, Âgelo de Sousa, Gil Teixeira Lopes e João Hogan, entre outros.