Morreu Karen Black, a actriz que nos trouxe mulheres complicadas e sedutoras

O grande Gatsby, Destinos Opostos e Nashville são alguns dos filmes que marcaram a sua carreira.

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Black, que protagonizou alguns filmes produzidos na década de 1970 como O Grande Gatsby ou Nashville, nasceu nos subúrbios de Chicago e desenvolveu uma carreira que ficará para sempre ligada a papéis em que representa mulheres neuróticas e problemáticas, ao lado de algumas das maiores estrelas masculinas da Hollywood do seu tempo, como Jack Nicholson e Peter Fonda.

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Black, que protagonizou alguns filmes produzidos na década de 1970 como O Grande Gatsby ou Nashville, nasceu nos subúrbios de Chicago e desenvolveu uma carreira que ficará para sempre ligada a papéis em que representa mulheres neuróticas e problemáticas, ao lado de algumas das maiores estrelas masculinas da Hollywood do seu tempo, como Jack Nicholson e Peter Fonda.

É precisamente com Nicholson que contracena num dos títulos que mais marcariam o seu percurso - Destinos Opostos (1970). Neste êxito a actriz é Rayette, uma empregada de mesa que se envolve com Bobby Dupea (Nicholson, é claro), um ex-pianista prodígio que nasceu numa família endinheirada e muito tradicional. O filme dirigido por Bob Rafelson acaba por ser sobre o confronto de dois mundos, o do conflituoso e sedutor Dupea e o da sonhadora Rayette, que ele acaba por deixar sozinha num restaurante de beira de estrada a caminho da Califórnia.

Já em 1969, Black e Nicholson se tinham encontrado num dos filmes mais icónicos da indústria norte-americana deste período – Easy Rider, com Peter Fonda e Dennis Hopper nos principais papéis (o primeiro seria também o produtor e o segundo o realizador). Neste road movie que viria a transformar-se num marco da contracultura, questionando temas sociais tão sensíveis no seu tempo como o movimento hippie ou o consumo de drogas, a actriz é a prostituta que partilha LSD com os dois motociclistas (Fonda e Hopper) que se fizeram à estrada à procura da liberdade.

Como lembra hoje o diário norte-americano The New York Times, Karen Black, que se estreou no teatro em papéis ingénuos, notabilizou-se no cinema dando vida a mulheres contraditórias e sedutoras em filmes que eram geralmente dominados por homens (Robert Redford, Cary Grant, Omar Sharif, Charlton Heston e Donald Sutherland, entre outros). O Grande Gatsby (1974), adaptação do clássico homónimo de F. Scott Fitzgerald dirigida por Jack Clayton e com guião do próprio autor e de Francis Ford Coppola, não foi excepção. Nele a actriz é Myrtle Wilson, a amante rude, patética e pouco inteligente de Tom Buchanan (desempenhado por Bruce Dern).

É como Rayette e Myrtle que ganha os seus dois globos de ouro como Melhor Actriz Secundária, sendo ainda nomeada para o Óscar pelo seu papel em Destinos Opostos.

Mas foi em Nashville, filme em que Robert Altman explora o universo da música country e o estatuto das celebridades, com política e tensões sociais à mistura, que Karen Black mostrou que não era só uma actriz. Na pele de uma veterana da country, interpretou uma série de canções que ela mesma tinha composto.

No seu currículo com títulos de qualidade e resultados de bilheteira bastante desiguais, lembra esta sexta-feira a imprensa internacional, incluem-se ainda Airport 1975 (1974), um filme-catástrofe; Portnoy's Complaint (1972), baseado no romance homónimo de Philip Roth (O Complexo de Portnoy, editado pela D. Quixote); Rhinoceros (1974), que adapta ao grande ecrã uma das peças do teatro do absurdo de Ionesco; e Intriga em Família (1976), o último filme de Alfred Hitchcock em que Black é uma ladra de jóias, naquele que viria a ser um dos seus papéis mais populares.

“Black traz para os seus papéis uma combinação livre de vulgaridade e ingenuidade”, escreveu a revista Time em 1975, lembra hoje o New York Times. “Às vezes brinca, outras mostra uma certa decadência que faz dela aquele tipo de mulher que tem o nome tatuado nos marinheiros.”

Karen Blanche Ziegler nasceu nos arredores de Chicago, em 1939, filha de uma autora de livros infantis bastante premiada e de um violinista que fazia parte da orquestra sinfónica da cidade. Estudou teatro dois anos na universidade, mas interrompeu o curso para ir para Nova Iorque, onde começou a trabalhar na Broadway e a ter aulas com Lee Strasberg, o célebre pedagogo com quem nunca se deu bem.

Dos musicais passou para o cinema e para a televisão, muitas vezes em filmes e séries que não faziam justiça ao seu talento.

Em 2010, Black  foi diagnosticada com um cancro semelhante ao do pâncreas. Em Março a notícia chegou às televisões e jornais porque a família lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet para que a actriz pudesse ser sujeita a um tratamento experimental (conseguiram cerca de 80 mil euros ). Cinco anos antes, Black estivera em Portugal, a convite do festival de cinema Fantasporto.

Notícia corrigida às 11h07. Karen Black entrou no filme Intriga em Família, de 1976, e não no Intriga Internacional. O filme Five Easy Pieces tem em português o título Destinos Opostos