Israel confirma detenção do Prisioneiro X, um australiano suspeito de pertencer à Mossad

Ben Zygier esteve 11 meses detido numa cela especial, com um sistema de prevenção de suicídios, mas foi encontrado morto em Dezembro de 2010. A revelação do seu passado compromete os serviços secretos israelitas e o Governo da Austrália.

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Ben Zygier tinha dupla nacionalidade australiana e israelita DR

Os media israelitas foram proibidos pelo Governo de publicarem informações sobre o Prisioneiro X, mas uma reportagem da estação de televisão australiana ABC News, emitida na terça-feira, levou as autoridades do país a levantarem um pouco o véu que ainda cobre grande parte do mistério: Ben Zygier era um cidadão com dupla nacionalidade israelita e australiana e foi detido por "motivos de segurança".

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Os media israelitas foram proibidos pelo Governo de publicarem informações sobre o Prisioneiro X, mas uma reportagem da estação de televisão australiana ABC News, emitida na terça-feira, levou as autoridades do país a levantarem um pouco o véu que ainda cobre grande parte do mistério: Ben Zygier era um cidadão com dupla nacionalidade israelita e australiana e foi detido por "motivos de segurança".

Parece não ser muita informação, mas a simples admissão da existência deste prisioneiro por parte do Governo de Israel é reveladora do incómodo provocado pela investigação da ABC News. A reportagem do programa Foreign Affairs, emitida na terça-feira, revela que Ben Zygier emigrou da Austrália para Israel em 2000 e que foi recrutado pela Mossad, o serviço de espionagem israelita.

O caso de Ben Zygier é um dos mais sensíveis para as autoridades israelitas porque, segundo a reportagem da ABC News, prova que a Mossad recruta cidadãos de países com quem Telavive mantém boas relações, alegadamente sem o conhecimento das autoridades desses países.

Em Janeiro de 2010 – um mês antes da detenção de Ben Zygier – soube-se que agentes da Mossad envolvidos no assassinato do comandante do Hamas Mahmoud al-Mabhouh, no Dubai, usavam passaportes de vários países. Segundo o jornal britânico The Guardian, sete desses passaportes estavam em nome de judeus que tinham emigrado do Reino Unido e da Alemanha para Israel e que não sabiam sequer que alguém tinha usado as suas identidades para entrar no Dubai.

A primeira vez que se ouviu falar da existência do homem que viria a ficar conhecido como Prisioneiro X – que é, na verdade, o nome da única cela da Unidade 15 da prisão de Ayalon, construída especialmente para encarcerar Yigal Amir, o israelita que assassinou o antigo primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em 1995 – foi no Verão de 2011, através do site Ynet, detido pelo jornal Yediot Ahronot. O Ynet citava um responsável pelo estabelecimento prisional de Ayalon, sob anonimato: "É uma pessoa sem nome e sem identidade, que foi colocada em total isolamento." A notícia foi retirada do site poucas horas depois e coube a alguns activistas de defesa dos direitos humanos manter a questão em aberto.

Numa carta enviada ao procurador-geral israelita em 2011, Dan Yakir, advogado da Associação de Direitos Civis de Israel, dava conta da inquietação motivada pelo secretismo da situação: "Não há informação sobre se esta pessoa foi acusada, se foi julgada, ou se foi condenada. Não se pode admitir que, num país democrático, as autoridades possam deter uma pessoa em completo segredo e fazê-la desaparecer sem que o público saiba sequer que houve uma detenção."

Investigado pelos serviços secretos australianos

Mais de dois anos após a sua morte, ainda não há certezas sobre o passado do Prisioneiro X e sobre os motivos que levaram à sua detenção, mas a reportagem da ABC News ajuda a compor o quadro que foi sendo desenhado desde então.

Ben Zygier tinha 34 anos de idade, era casado com uma israelita e tinha duas filhas. Emigrara para Israel em 2000, trabalhava para a Mossad e estava a ser investigado pelos serviços secretos australianos, juntamente com dois outros cidadãos nascidos na Austrália suspeitos de serem espiões ao serviço de Israel.

Segundo a ABC News, a Mossad recruta cidadãos australianos e de outros países e muda-lhes os nomes, para que possam entrar em países como a Síria ou o Irão, que não permitem a entrada a cidadãos com passaportes israelitas.

"Os australianos são vistos no estrangeiros como pessoas inocentes", disse à ABC News um antigo operacional da agência de espionagem ASIS (Australian Secret Intelligence Service), Warren Reed. "É um país limpo – tem uma boa imagem, tal como a Nova Zelândia. Não há muitos países nestas condições, por isso a nossa nacionalidade e tudo o que esteja relacionado com ela pode ser muito útil para os serviços secretos", explica o antigo espião. De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros australiano, Ben Zygier tinha também um passaporte com o nome Ben Allen.

Para os peritos em espionagem, a detenção de Ben Zygier na cela mais isolada da prisão de Ayalon indica que ele representava um sério risco para a segurança de Israel. "Qualquer que tenha sido o motivo da detenção, teve de envolver espionagem ou traição – informação muito sensível que poderia representar uma ameaça imediata para Israel se caísse nas mãos de outros", avança Warren Reed.

Segundo a agência Reuters, o Ministério da Justiça de Israel anunciou esta quinta-feira que um tribunal do país já ordenou a abertura de uma investigação às circunstâncias da morte de Ben Zygier, por suspeitas de negligência.