Escola põe alunos a fixar lâmpadas para terem melhores resultados

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O fosfenismo acredita que é possível melhorar o comportamento e as notas graças à exposição a determinados tipos de luz Foto: Adriano Miranda

Os ecos chegaram à Escola Básica do 2.º e 3.º ciclos de Arazede (freguesia rural do concelho de Montemor-o-Velho), que decidiu esta ano aplicar esta técnica alternativa, que não está aprovada pela autoridades de saúde, a alunos com dificuldades de aprendizagem e de comportamento. Ontem, já depois de ter sido contactada pelo PÚBLICO, a escola suspendeu a experiência.

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Os ecos chegaram à Escola Básica do 2.º e 3.º ciclos de Arazede (freguesia rural do concelho de Montemor-o-Velho), que decidiu esta ano aplicar esta técnica alternativa, que não está aprovada pela autoridades de saúde, a alunos com dificuldades de aprendizagem e de comportamento. Ontem, já depois de ter sido contactada pelo PÚBLICO, a escola suspendeu a experiência.

Os seus seguidores afirmam que o fosfenismo, desenvolvido pelo médico francês Francis Lefebure, permite "amplificar as capacidades cerebrais", melhorar a memória, o comportamento e as notas escolares. Para além de ser "repousante". Isto alcança-se através do que chamam a "conjugação fosfénica" - a associação de um pensamento a um determinado tipo de luz ou, mais precisamente, às manchas coloridas que se obtêm depois de se fixar uma fonte luminosa, os chamados fosfenos.

Para se obter os efeitos desejados, acrescentam, a fonte luminosa em causa terá de ser uma lâmpada opaca branca de 75 w, especificamente criada para o efeito: a lâmpada fosfénica, que se compra através das associações ligadas ao movimento, com preços que vão de 32 a 228 euros.

À escola de Arazede, que tem cerca de 300 alunos, a ideia chegou em 2010, pela mão de um dos seus professores. Foi debatida no Conselho Pedagógico e levada depois ao Conselho Geral, o órgão que elege o director e que é responsável pela elaboração do projecto educativo e do regulamento interno da escola. No Conselho Geral têm assento representantes do pessoal docente e não-docente, dos pais, da autarquia e da comunidade local. Estavam todos presentes e a proposta de aplicar as técnicas do fosfenismo a alunos da escola foi aprovada por unanimidade, relatou ao PÚBLICO a presidente daquele órgão, Isabel Ferreira.

A escola encomendou o material necessário. A directora, Ana Cristina Jorge, disse não ter presente os custos da operação. Indicou, contudo, que as lâmpadas demoraram a chegar, o que levou a que a experiência só tivesse arrancado este ano. "Estávamos numa fase experimental em que estariam envolvidos não mais de 10 alunos, todos com autorização dos seus encarregados de educação", precisou.

Fixar uma lâmpada

Não foi pedida autorização ao Ministério da Educação. "Foi aprovado pelo Conselho Geral, temos autorização dos pais, assumimo-lo como um projecto da escola", justificou a directora na segunda-feira. Ontem a escola enviou um pedido de esclarecimento ao ministério através da Direcção Regional de Educação do Centro e o projecto foi suspenso "até novas orientações", esclareceu a responsável.


Para a chamada conjugação fosfénica é preciso que o aluno se sente a curta distância de uma lâmpada e que a fixe durante curtos períodos de tempo. Depois apaga-se a lâmpada e surgem os fosfenos: manchas luminosas que variam de cor, de amarelo a azul. Os pensamentos que devem ser mobilizados em simultâneo são distintos consoante as disciplinas em que os alunos têm dificuldades. Se for Matemática, pensa-se numa fórmula, se for Português, numa palavra ou numa construção gramatical, etc.

"Pareceu-nos um projecto alternativo muito simples e interessante e que não levantava nenhum problema a nível físico", explicou Isabel Ferreira, afirmando que a escola está sempre disponível para avançar com projectos que "estimulem os alunos e que os levem a acreditar neles". "Precisam muito disso", acrescenta. A presidente do Conselho Geral é professora de Língua Portuguesa na escola, que o ano passado foi a nona do distrito de Coimbra nos rankingsdo 9.º ano. Diz que têm "imenso orgulho" nos alunos.

A escola situa-se numa zona muito empobrecida. A percentagem de desempregados entre os encarregados de educação é superior à da média nacional. A maioria não foi além do 2.º ciclo.

O PÚBLICO tentou, em vão, obter uma reacção do ministério.

Notícia actualizada às 14h37. Colocado na íntegra o texto da edição em papel.