João Cravinho acusa o PS de “absoluta incompreensão” do fenómeno da corrupção

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No Verão de 2006, Cravinho apresentou no Parlamento várias medidas para prevenir e combater a corrupção Carlos Lopes/PÚBLICO (arquivo)

Em entrevista à revista “Visão”, João Cravinho, que renunciou no início do ano ao mandato de deputado para administrar o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), em Londres, diz ter ido até ao limite do que podia no debate sobre combate à corrupção.

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Em entrevista à revista “Visão”, João Cravinho, que renunciou no início do ano ao mandato de deputado para administrar o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), em Londres, diz ter ido até ao limite do que podia no debate sobre combate à corrupção.

“Foi dos maiores choques da minha vida ver que aquela matéria causava um profundo mal-estar, era como um corpo estranho no corpo ético do PS. Apesar de algumas dificuldades que antevia, não contava com uma atitude de absoluta incompreensão para a natureza real do fenómeno da corrupção”, diz à revista.

No Verão do ano passado, João Cravinho lançou a discussão interna sobre a matéria, quando apresentou no Parlamento várias medidas para prevenir e combater a corrupção, que não tinham sido concertadas com a bancada do PS.

“Fui até ao limite do que podia. Após um processo longo e de muitas discussões, formei uma ideia sobre as razões das divergências profundas – porque as havia e eram manifestas – entre mim e a direcção do grupo parlamentar em questões fulcrais”, disse.

Fenómeno “grave” e “sem contenção à altura”

João Cravinho refere que “a primeira divergência diz respeito a um juízo político e ético sobre a situação da corrupção em Portugal e o seu efeito corrosivo sobre o funcionamento das instituições democráticas”.

“Penso que é um fenómeno grave, extenso e sem mecanismos de contenção à altura. Alguns dos meus camaradas não são nada dessa opinião”, refere.

“O presidente do grupo [Alberto Martins] disse que o fenómeno existia, mas que Portugal não estava numa situação particularmente gravosa. Pelo contrário, nas comparações internacionais estava muito bem. Fiquei de boca aberta”, disse o ex-deputado socialista à “Visão”.

João Cravinho disse ainda que também havia divergências sobre a natureza do fenómeno, salientando ter prevalecido no debate uma visão eminentemente policial da corrupção.

“(...) Existe esse lado policial, que também é importante – e não podem acusar-me de o ignorar, porque pedi e fiz propostas orçamentais que, aliás, só foram aprovadas parcialmente para reforço do combate policial e da investigação criminal”, referiu.

Lóbis apropriam-se de órgãos de decisão do Estado

Segundo João Cravinho, um dos grandes problemas é a “corrupção de Estado, a apropriação de órgãos vitais de decisão ou da preparação da decisão por parte de lóbis”.

No entender do ex-deputado, a corrupção, “antes de ser um fenómeno do domínio policial, é um problema de risco, de sistema a ser gerido e não reprimido como se fosse um conjunto de factos isolados”.

“Deve ser objecto de uma responsabilização total, ao nível administrativo e político. E ficou evidente que esta ideia não era partilhada. Assim como o papel do Parlamento no controlo do combate à corrupção”, afirmou.