Portugueses nas zonas de fronteira vão a Espanha comprar medicamentos

13.02.2012 - 15:37 Por Carlos Dias, Susana Ramos Martins
Atravessar a fronteira e ir comprar medicamentos em Espanha já é vulgar no Minho e no Alentejo; farmacêuticos do lado de cá começam a queixar-se da quebra de lucros.
Espanha é um destino de eleição dos portugueses na hora da compra de medicamentos. Mesmo sem a comparticipação do Estado português, comprar do outro lado da fronteira continua a representar ganhos, apesar da baixa generalizada do preço dos medicamentos registada em território nacional graças à descida do preço dos genéricos e ao novo regime de formação de preços que passou a ter como países de referência Espanha, Itália e Eslovénia.
Comprar uma embalagem de medicamento genérico com o princípio activo Omeprazol (28 unidades, 10 mg) custa, em terra espanhola, 2,50 euros. Em Portugal, o medicamento com as mesmas características (mas em embalagens de apenas 14 unidades, pois não existe de 28) custa 3,58 euros. Ou seja, em Espanha consegue-se o mesmo medicamento a menos de metade do preço, mesmo sem qualquer comparticipação.
Este é apenas um dos exemplos que conduzem diariamente uma média de dois portugueses à Farmácia Alvarez Duran, no centro histórico da cidade galega de Tui, ao lado da fronteira com Valença (Minho). Ao PÚBLICO, a responsável pelo estabelecimento, Consuelo Alvarez Duran, confessou que ao fim-de-semana chegam a ser uma média de três dezenas os portugueses que ali vão propositadamente à procura de fármacos a preços mais económicos. "Vêm comprar sobretudo medicamentos para a terceira idade, que são mais baratos em Espanha, ou que não fabricam em Portugal, e produtos de parafarmácia."
Apesar de as autoridades espanholas não terem dados sobre o número de portugueses que recorrem às farmácias do país vizinho, é fácil confirmar os números. Chegar a uma farmácia de Tui e ouvir falar português é quase tão vulgar como numa farmácia portuguesa. Maria da Graça, de Famalicão, aproveitou estar de passagem para comprar um medicamento que descobriu casualmente ser mais barato no país vizinho, graças a uma escala que fez no aeroporto de Barcelona. Agora, sempre que vai a Espanha, aproveita para comprar, já que diz ser "bastante mais barato".
À procura de médicos
Na outra ponta da Península, na fronteira alentejana, o cenário é idêntico. Os portugueses rumam ao país vizinho à procura de fármacos a preços mais acessíveis, mas também à procura de médicos especialistas que não encontram do lado de cá. A proprietária da Farmácia Calado, em Elvas, confirma que os portugueses "recorrem muito" a especialistas em Badajoz. "Basta ir a um consultório e verifica-se que são mais os portugueses à espera de consulta", observa.
Vários funcionários de farmácias localizadas entre Elvas e Vila Verde de Ficalho confirmaram ao PÚBLICO que as pessoas perguntam primeiro o preço do medicamento. Se verificam que é mais barato do outro lado da fronteira, acabam por ir comprar a Espanha. Nesta localidade do concelho de Serpa, desde que a crise económica se acentuou, "há um número crescente de pessoas que vai comprar medicamentos a Espanha".
Para este fenómeno também têm contribuído os médicos, que aconselham os pacientes a recorrer ao país vizinho para terem acesso a fármacos mais baratos. Paula Pires, que tem a avó internada num lar de idosos na região do Porto, confirma que o clínico da instituição disse à família para aviar o receituário (composto sobretudo por medicamentos para activar a circulação sanguínea) em Espanha, por ser "muito mais barato". Por seu lado, um farmacêutico alentejano revela a existência de casos de médicos espanhóis a prestar serviço em Portugal que "vendiam eles próprios a medicação ou aconselhavam a sua aquisição em determinadas farmácias de Espanha".
Os efeitos da emigração dos consumidores começam a sentir-se na Farmácia Alandroense, no Alandroal. O responsável, Hélder Gonçalves, confessa que, em 2009, facturou 1,5 milhões de euros, mas em 2011 realizou "um terço menos". "Se, desse montante, preciso de 500 mil a 700 mil euros para ter a farmácia a funcionar, estou confrontado com uma situação dramática e insustentável."

