Dezenas de milhares de franceses, entre eles ministros e responsáveis religiosos, manifestaram-se hoje em Paris contra o anti-semitismo e o racismo, após a morte de um jovem judeu, que durante semanas foi mantido em sequestro e torturado nos arredores da capital.
Pelo menos cinco ministros, políticos de direita e de esquerda e responsáveis judeus e cristãos desfilaram juntos nas ruas de Paris para manifestar a sua indignação pela morte de Ilan Halimi, de 23 anos. Segundo o Conselho Representativo das Instituições Judaicas de França, 200 mil pessoas participaram no desfile, um número que a associação SOS Racismo desceu para 80 mil e a polícia para 33 mil.
O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, o cardeal Jean-Marie Lustiger, a antiga ministra da Saúde e ex-presidente francesa do Parlamento Europeu Simone Veil, o primeiro secretário do Partido Socialista François Hollande, o presidente da Assembleia Nacional Jean-Louis Debré e o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin estiveram no protesto.
Reclamando “Justiça para Ilan”, os manifestantes partiram da Praça da República e dirigiram-se até à loja onde o jovem trabalhava, onde se recolheram durante alguns minutos antes de retomarem o seu percurso. Algumas pessoas entoaram “A Marselhesa”, o hino nacional francês, em frente à loja, enquanto representantes da comunidade judaica fizeram uma oração.
“É uma mensagem de solidariedade para a sua família e, ao mesmo tempo, é uma mobilização para afirmar que a cor da pele, a religião, a origem devem ser ultrapassadas pelo que é comum”, afirmou o ministro da Cultura francês, Renaud Donnedieu de Vabres.
Pouco antes do início da manifestação, a presença do presidente do Movimento para a França, Philippe de Villiers, considerado “persona non grata” pelas associações anti-racistas, provocou alguma tensão. Também a alegada participação do partido de extrema-direita de Jean-Marie Le Pen, Frente Nacional, suscitou a revolta de algumas pessoas, mas a polícia confirmou que nenhum dos elementos daquela formação esteve presente.
O anúncio polémico de que a Frente Nacional se iria fazer representar na manifestação levou algumas associações anti-racismo a cancelar a sua participação no desfile.
Além de Paris, milhares de pessoas manifestaram-se noutras cidades de França como Lyon (centro), Bordéus (sudoeste) e Marselha (sul), quando uma sondagem divulgada recentemente concluiu que a maioria dos franceses considera que houve um aumento do racismo (69 por cento) e de anti-semitismo (57 por cento) no país.
O Presidente francês, Jacques Chirac, e o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, não estiveram na manifestação mas assistiram, na passada quinta-feira, a uma cerimónia de homenagem a Illan Halimi organizada na grande sinagoga de Paris.
Ilan foi encontrado a 13 de Fevereiro despido, algemado e com 80 por cento do corpo coberto por queimaduras perto de uma estação de comboios dos arredores de Paris. Acabaria por morrer pouco depois devido aos ferimentos que lhe foram infligidos.
O jovem tinha sido sequestro três semanas antes por um grupo de indivíduos que, segundo os interrogatórios da polícia junto destes, terá sido motivado por “os judeus terem dinheiro” e a sua família e comunidade judaica terem possibilidades para pagarem um resgate pela sua libertação.
No âmbito do inquérito à morte de Illan foram detidas para interrogatório 17 pessoas, dez delas por suspeitas de anti-semitismo.
O suposto líder do grupo, Youssuf Fofana, 25 anos, um francês de origem marfinense, encontra-se em prisão preventiva em Abidjan, sob um mandado de captura internacional e um pedido de extradição.


