Cada doente com diagnóstico de enxaqueca falta em média três a quatro dias por ano ao trabalho ou à escola devido aos sintomas da doença, segundo dados hoje divulgados pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC).
Na data em que se assinala o I Dia Europeu da Enxaqueca, José Pereira Monteiro estimou que 16 por cento da população portuguesa sofra da doença, mas que apenas 40 por cento dos casos recorra a cuidados médicos para tratamento.
"Trata-se de uma doença onde ainda prevalece muito a auto-medicação, com recurso a medicamentos de venda livre", nomeadamente na sua fase mais primária, onde a patologia se assemelha a uma "normal" dor de cabeça, explicou o clínico.
Segundo Pereira Monteiro, "a enxaqueca é uma doença crónica, episódica e de grande incidência familiar, que pode persistir ao longo de toda a vida e com consequências sócio-económicas graves, das quais se destaca o absentismo profissional e escolar".
De acordo com os dados da SPC, a enxaqueca tem uma taxa de prevalência maior no sexo feminino (60 por cento), cujos sintomas se manifestam com maior incidência entre os 10 e os 19 anos e os 20 e os 29 anos. "Quando a doença aparece depois dos 40 anos, normalmente encontra-se associada a outro tipo de patologias, nomeadamente do foro neurológico", explicou.
O I Dia Europeu da Enxaqueca procura, segundo o responsável, consciencializar e sensibilizar para a problemática da enxaqueca e "lutar contra o preconceito daqueles que sofrem desta patologia neurológica, que causa dores de cabeça incapacitantes".
Em alguns indivíduos que sofrem da enxaqueca esta dor de cabeça é associada é acompanhada por perturbações visuais conhecidas como aura, náuseas e vómitos. A causa da doença ainda é desconhecida, mas segundo Pereira Monteiro, pensa-se que envolverá um funcionamento anormal dos componentes das células nervosas dentro do cérebro.
De acordo com os dados da SPC, uma crise de enxaqueca dura entre quatro e 72 horas e pode estar relacionada com aquilo que os doentes comem (chocolate, produtos lácteos), bebem (chá, café ou álcool), com o cansaço e o stress, ou até mesmo com o clima onde habitam (calor ou humidade), entre outras coisas.
A maior parte dos doentes que sofre de enxaqueca tem uma média de 13 crises por ano, com uma maior incidência nos períodos da Primavera e do Outono. Nas comemorações, os organizadores deste dia enaltecem as proezas de personalidades que sofreram de enxaqueca, como a heroína francesa Joana D'Arc, o pintor Claude Monet e o cantor Elvis Presley, para demonstrarem que a patologia não é necessariamente uma barreira para desfrutar de uma vida completa.
Ao assinalar esta data, os responsáveis pela iniciativa pretendem ainda "acabar com a intolerância e o preconceito" para com as pessoas que sofrem desta doença, sensibilizando a população e os profissionais de saúde para este problema.
A enxaqueca
O que é a enxaqueca?
É uma doença neurológica crónica caracterizada por uma dor de cabeça incapacitante. Em alguns casos é acompanhada por perturbações visuais, náuseas e vómitos.
Quem é afectado?
Estima-se que afecte cerca de 11 por cento da população europeia. Não escolhe idades e atinge os dois sexos, mas na adolescência é duas a quatro vezes mais comum nas mulheres do que nos homens.
Tem cura?
Por enquanto não. Mas pode ser controlada. Há dois tipos de tratamento farmacológico: o agudo e a chamada terapêutica preventiva. O tratamento agudo é administrado após o aparecimento dos primeiros sintomas. Já a terapêutica preventiva (aconselhada a indivíduos com mais de duas crises incapacitantes por mês) inclui antiepilépticos, betabloqueantes e bloqueadores dos canais de cálcio, que devem ser tomados todos os dias durante um período mínimo de três a seis meses. Existem ainda as abordagens não farmacológicas. Exemplo de tratamentos complementares: exercício físico e refeições regulares, evitar estados de stress e a ingestão de cafeína e de álcool.
Quais são as terapias usadas?
Para além dos analgésicos, que são de venda livre, e devem ser tomados mal surgem os primeiros sintomas, existem os tratamentos específicos com antieméticos (que ajudam a combater as náuseas e os vómitos e melhoram a digestão). Há ainda fármacos específicos para a enxaqueca, como os agonistas dos receptores da serotonina e a ergotamina e derivados (que restringem o fluxo sanguíneo para a área afectada).
Onde existem consultas especializadas?
Há consultas especializadas de cefaleias em vários hospitais, nomeadamente no Santa Maria (Lisboa), no Centro Hospitalar de Lisboa, no Amadora-Sintra, nos Hospitais da Universidade de Coimbra e no Santo António (Porto).


