A RTP apresentou o debate de ontem a quatro dias das directas no PSD como um muito cinéfilo “momento da verdade”. Paulo Rangel entrou a tentar bipolarizar o frente-a-frente com Passos Coelho, o candidato supostamente em vantagem, que tentou pairar sobre divergências. José Pedro Aguiar-Branco jogou desde o início ao ataque, intrometeu-se entre os dois, desafiando directamente Rangel a dizer se queria “contar” as assinaturas da sua candidatura. Uma questão que se arrasta desde o fim-de-semana e que levou ontem Aguiar-Branco a regularizar a situação junto do conselho de fiscalização.
Judite de Sousa tinha começado o debate há apenas três minutos quando Aguiar-Branco ofereceu uma pasta com as assinaturas... Estava lançada a confusão, que levou o eurodeputado a dizer que nunca tinha dito que quis contar assinaturas e a acusar: “Quem quer ser primeiro-ministro não vem brincar com estas coisas”, disse Rangel, dando sinais de algum nervosismo. A discussão prolongou-se por mais uns minutos. Passos Coelho nem palavra disse. Castanheira Barros, advogado de Coimbra, o mais discreto, ironizou que ele é que seria o candidato da unidade...
Do debate, restam as nuances entre os candidatos sobre a velocidade com que o Governo de José Sócrates pode cair. Embora sem defender “crises artificiais”, como os seus adversários, Passos admite que pode haver motivos para “chamar os portugueses a votar”. “Para não deixar o país sofrer”, disse. Rangel foi o mais cauteloso – não quer “antecipar conclusões” da comissão de inquérito à tentativa de compra da TVI pela PT que poderia justificar uma moção de censura, na óptica de Aguiar-Branco, se se provasse que José Sócrates mentiu ao país ao dizer, em Junho, nada saber sobre o negócio.
Uma parte do debate revelou também divisões: o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), que esta semana é discutido no Parlamento, a que o PS juntou um projecto de resolução. Aguiar-Branco considera-a uma “moção de confiança encapotada”. Daí que, por uma questão de “sentido de Estado” e responsabilidade, o líder parlamentar foi o único a defender a abstenção.
O PEC deve ser “chumbado” é o que dizem em uníssono Passos Coelho, Paulo Rangel e Castanheira Barros. O ex-líder da JSD invocou o trabalho de uma comissão que tem proposta para cortes nas despesas sem aumentar impostos. Paulo Rangel insistiu na suspensão das obras do novo aeroporto, TGV e terceira ponte sobre o Tejo.
Se o PEC foi uma das linhas de fractura, o procurador-geral da República e a sua substituição, na sequência do caso Face Oculta, também deu origem a diferenças. Passos foi o único a dizer que é a favor de sua substituição. Aguiar-Branco é contra por uma questão de “separação de poderes”, remetendo uma decisão para Cavaco. “Mostra que Passos Coelho está ao lado do Governo”. “Como é que diz isso sem se rir”, respondeu Coelho, no momento mais tenso com Rangel.
Um tema, porém, uniu Rangel e Aguiar-Branco, até com sorrisos: “obrigar” Passos a garantir o apoio sem reservas a Cavaco Silva numa recandidatura às presidenciais.


