Marcelo sob pressão no PSD, "aparelho" começa a partir

31.10.2009 - 08:19 Por Filomena Fontes, Nuno Simas
E de um momento para o outro tudo acelerou no PSD. O "aparelho", tão cauteloso até agora sobre a sucessão de Manuela Ferreira Leite, começou a quebrar o silêncio. Com críticas cruzadas e a dar os primeiros sinais de ruptura.
Tudo por causa da forma como foi lançado o apelo à candidatura do ex-líder Marcelo Rebelo de Sousa. Em sucessivas declarações, na TV e rádio, de Paulo Rangel e dos "barrosistas" José Luís Arnaut e Matos Correia, a que se juntou Alexandre Relvas, presidente do Instituto Sá Carneiro. De Carlos Pinto, um histórico e autarca da Covilhã, partiu a ideia de "um encontro de reflexão" sobre a futura liderança, com autarcas. Foi uma iniciativa isolada num dia em que o mais visível foi a divisão.
A candidatura de Pedro Passos Coelho primeiro reagiu em contra-ataque. Depois de associar Arnaut e Rangel ao "desastre eleitoral" de Ferreira Leite nas legislativas, Miguel Relvas questionou o que os levou a tomar esta atitude lembrando que defenderam que a sucessão deveria fazer-se só em Março ou Abril. "São as mesmas pessoas que vieram acelerar e antecipar todos os prazos." E definiu o antigo líder como alguém preso a uma "lógica do passado".
Rebelo de Sousa opta pelo silêncio. Fala amanhã à noite, no seu comentário na RTP, depois de já ter dito duas vezes que não ia ao "ringue" para disputar a liderança.
A verdade é que Marcelo não foi surpreendido com os apelos de Rangel e de Alexandre Relvas. Um e outro comunicaram ao professor o que iam dizer quinta-feira à noite. Dirigentes próximos do ex-líder garantiram ao PÚBLICO que a iniciativa do apelo é alheia à vontade do professor. O objectivo era pôr Marcelo sob pressão, face à recusa de Rangel. "É preciso que o partido compreendesse que o professor Marcelo ainda pode ser candidato e que não pode deixar-se amarrar", explicou um dirigente laranja. Ou, na explicação de outro, criar condições para aceitar ser candidato, com um apoio alargado.
A divisão não era tanto quanto a Marcelo, mas mais pela forma como foi lançada a "vaga" de apoio. Luís Filipe Menezes, ex-líder, criticou o "jogo pouco digno de empurrar pessoas" e afirmou que o problema do PSD não é de nomes, mas sim de "falta de identidade ideológica, de coerência programática e de coerência estratégica".
Os elogios foram muitos. De Guilherme Silva, deputado da Madeira, pela sua "experiência, currículo académico e político acima da média", "capacidade aglutinadora". Passos Coelho, admite, terá o seu "tempo próprio", mas mais tarde. António Capucho, conselheiro de Estado, elogiou Marcelo, mas evitou comprometer-se desde já com um apoio formal por desconhecer todo o "quadro das candidaturas".
Distritais divergem
Carlos Carreiras, da distrital de Lisboa, a segunda maior do PSD, alinha nos elogios a Marcelo, mas critica o ensaio da "vaga" de fundo. "O professor Marcelo tem condições para se apresentar pela positiva e não contra uma candidatura já existente", disse Carreiras.
Qualificando os que apelaram à candidatura de Marcelo como um "grupo de franco-atiradores que opinam à revelia das bases", Virgílio Costa, líder da distrital de Braga, a terceira maior, não aceita que "o partido se ponha de cócoras a pedir a Marcelo por favor salve-nos! Marcelo é mais do mesmo". Pede "renovação" e endurece o ataque: "Não podemos ter um líder que arrasta consigo uma velha clique, ligada ao chamado cavaquismo. Essa gente é de boa memória para se guardar." A Rangel não lhe reconhece "densidade partidária" para vir dizer "quem deve, mas sobretudo quem não deve ser o candidato", ainda que critique também Pedro Passos Coelho por ser "excessivamente voluntarista". "Aparece sem contexto, é candidato há dois anos, também pode ser para os próximos vinte", vaticina.

