"Super Mario" Monti, o negativo absoluto de Berlusconi

13.11.2011 - 19:28 Por Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas
Se, no dia da criação, Deus tivesse querido conceber o exacto oposto de Silvio Berlusconi, o resultado seria... Mario Monti, o homem que é dado quase certamente como o próximo primeiro-ministro de Itália.
Apesar de nunca ter exercido qualquer cargo político-partidário, a perspectiva de um Governo chefiado por Monti foi suficiente para acalmar uma boa parte do nervosismo dos mercados financeiros, que esta semana provocaram a subida em flecha das taxas de juro da dívida pública, colocando o país à beira da crise de liquidez.
Monti, que detesta a política partidária, recusou todos os convites para integrar o Governo italiano, incluindo, ironicamente, depois da primeira queda de Berlusconi, em 1995. É caso para dizer que à terceira foi de vez.
A sua reputação num lugar público foi feita sobretudo durante os dez anos em que foi membro da Comissão Europeia - primeiro como responsável pelo mercado interno, depois como chefe da política de concorrência -, em que deixou uma impressão impecável de grande seriedade, verticalidade e sentido do interesse geral.
Foi nestes cargos que o italiano ficou conhecido por "Super Mario", a alcunha que é agora atribuída ao seu compatriota acabado de chegar à presidência do Banco Central Europeu, Mario Draghi. Monti detestava a alcunha, por se considerar o oposto da pequena personagem agitada dos jogos de computador, mais parecido, na realidade, com Silvio Berlusconi.
Monti e Berlusconi são de tal forma o oposto um do outro que custa a acreditar que foiIl Cavaliere que nomeou Il Professore para Bruxelas durante a sua primeira chefia do Governo italiano, em 1994.
De um lado, Berlusconi, de 75 anos, é o self made man que se tornou num dos homens mais ricos de Itália.
Do outro, Monti, sete anos mais novo, é o grande intelectual que dedicou toda a vida ao estudo e ao ensino de Economia na universidade italiana de Bocconi e em Yale, com passagens pelo banco americano Goldman Sachs e pelos conselhos de administração de várias empresas, da Fiat à IBM.
Berlusconi com o seu ar de playboy bronzeado todo o ano, é o campeão da política-espectáculo, frequentemente inconveniente, ligeiro, sem convicções conhecidas, atreito a gaf-fes e com "uma atitude escandalosa com as mulheres", como reconheceu esta semana o seu amigo e homólogo russo, Vladimir Putin.
Monti é o grande intelectual, europeísta convicto, ponderado, reservado, formal, um pouco rígido mas de humor britânico, de quem não há memória de qualquer comportamento deslocado.
"O principal traço de carácter de Monti é a integridade", explica um dos seus antigos colaboradores em Bruxelas. "É um homem de grandes princípios, que não tem medo de ninguém nem faz favores a ninguém".
Monti é, igualmente, "um negociador temível", refere outro ex-colaborador. Primeiro, porque nunca mostra as emoções, o que desarma os interlocutores, por não conseguirem perceber o que pensa. Segundo, porque, quando está convencido de que tem a razão do seu lado, não cede um milímetro.
Uma das grandes batalhas que fizeram a sua reputação teve a ver com o desmantelamento das vendas sem taxas nos aeroportos europeus (os chamados duty-free). Conscientes de que, no contexto do mercado sem fronteiras internas de 1993, não teria sentido manter nichos sem taxas nos aeroportos, os governos decidiram por unanimidade acabar com eles a 1 de Janeiro de 1999, com o nascimento da moeda única.
Furiosos, os representantes dos duty-free montaram então uma das maiores operações de lobby de sempre para tentar anular a decisão, anunciando um desastre económico e social com o desaparecimento de milhares de empregos, a falência dos aeroportos e a subida em flecha dos bilhetes de avião. A pressão foi tal que vários governos acabaram por se impressionar, incluindo os líderes da França e da Alemanha, na altura Jacques Chirac e Gerard Schroeder, que "ordenaram" a Monti para abandonar o projecto.


